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Não é por menos que tantos diretores de renome como Stanley Kubrick e Martin Scorsese tenham apontado dentre seus filmes favoritos, um carinho muito especial para Os Sapatinho Vermelhos, obra-prima máxima da parceria de sucesso entre Michael Powell e Emeric Pressburger. Em uma primeira visita, talvez seja fácil o espectador se enganar pelos insossos primeiros minutos que lembram um imbróglio narrativo de Narciso Negro.

Porém, dando uma chance com dose maior de paciência, é muito provável que o encanto do longa consiga impregnar em sua memória por um bom tempo, afinal não é sempre que temos a chance de observar uma obra tão vanguardista em plena década de 1940 no cinema britânico. É um fato que que Powell e Pressbuger já estavam com uma noção cênica muito avançada para a época, testando todos os limites que tinham a sua disposição.

Conto de Fadas, Conto de Gente

Apesar de termos a inserção vital do conto Os Sapatinhos Vermelhos de Hans Christian Andersen, é preciso apontar que Powell e Pressburger criaram uma ótima história original que dialoga em níveis bem inteligentes com a escrita de Andersen. Em uma década de histórias incomuns sobre o “fazer a arte”, a dupla apresenta a dinâmica de jovens talentosos que recebem uma chance para brilhar por um influente ricaço do Teatro e Ballet, porém, quando enfim começam a crescer profissionalmente, se veem presos por uma dívida moral com o inescrupuloso homem.

O jovem compositor Julian Craster (Marius Goring) se une ao grupo de teatro do renomado produtor Boris Lermantov (Anton Walbrook) para criar as peças musicais de seu novo espetáculo: Os Sapatinhos Vermelhos, contando com a presença da bailarina estreante Victoria Page (Moira Shearer). Eis que Craster e Page acabam se apaixonando e a moça se vê completamente dividida entre se entregar totalmente ao trabalho artístico ou manter uma paixão verdadeira.

Apesar do arquétipo narrativa ser consideravelmente clichê, há certo magnetismo que faz os personagens da obra se tornarem fascinantes. Apesar de muito fraco, o primeiro ato é essencial em mostrar como Craster e Page necessitam de uma oportunidade para demonstrarem seu verdadeiro talento e o quão longe ambos estão dispostos para se consolidarem como fortes nomes em um mercado muito disputado.

O problema é que Powell e Pressburger dão milhares de voltas burocráticas inserindo subtramas insossas para tentar atribuir algum suspense quando a atmosfera é completamente falha para tal. Apenas servem para apresentar a relação curiosa dos dois com o produtor Lermantov, o patrão, e da dinâmica geral de toda a produção do teatro. Porém, como a narrativa não avança satisfatoriamente, há um marasmo bastante prejudicial que o filme se encontra, apenas se salvando graças à faísca dos conflitos entre Page e Craster que discutem a todo momento.

Porém, creio que esse começo meio insípido seja um fabuloso truque de mestre, pois o filme se transforma completamente quando somos apresentados à exibição da adaptação do conto transposto para o teatro. O contexto do conto é apresentado e logo, pelo sucesso da apresentação, vemos como a narrativa encontrará os pontos de convergência.

Pelo uso sempre eficaz da sequência em montagem que os cineastas são mestres em realizar, temos um avanço temporal satisfatório para tornar o romance entre os dois bastante crível, além da inevitável crise de ciúmes que Lermantov experimenta o motivando a agir de modo selvagem totalmente antagônico a sua postura de lorde educado e altamente elegante. Com isso, o filme engrena um conflito mais humano e imediato, além de jogar o protagonismo em Page que precisa tomar decisões pouco independentes, já que a mulher está em uma perfeita sinuca de bico.

Ou seja, a narrativa também critica ferrenhamente a mulher enquanto propriedade ao coloca-la nessa posição desconfortável e injusta na qual não consegue conciliar trabalho e romance, tornando os dois homens os verdadeiros antagonistas e completos culpados pelo futuro desagradável que lhes atinge no clímax da obra. Entretanto, a maior graça da narrativa de Os Sapatinhos Vermelhos é justamente a variedade de interpretações que podemos tirar sobre o egoísmo de Lermantov e também do momento conclusivo da obra que pode ser considerado pelo misticismo das sapatilhas de Page.

Essencialmente visual

O fato é que a narrativa da obra depende muito da potencia das imagens fabulosas que os diretores trazem em diversos momentos. Muito da compreensão dos conflitos da obra estão centrados na maestria cênica do longa em trazer elementos importantes que suplementam a necessidade de exposição como o fato da influência de Lermantov, do esforço físico de Page e também da sincronia romântica que a bailarina sente pelo compositor que rege as músicas das peças para ela dançar – isso é incrivelmente poderoso e sutil.

Mesmo contendo enquadramentos inusitados e uma movimentação de câmera bastante agitada para a época, absolutamente nada se equipara a incrível sequência de quinze minutos do ballet homônimo: é algo simplesmente surreal por conta de uma minuciosa execução que simplesmente ousa transgredir a concepção de teatro e cinema.

Powell e Pressburger tem plena ciência disso e que, se recorressem a uma estética realista para o espetáculo, estariam presos ao ponto de vista bidimensional e restrito do espectador para o palco. De início, há esse breve ordenamento de planos pouco ousados, só replicando a elegância da encenação do balé estupendo apresentado por um conjunto de diversos dançarinos, além do design artístico para os cenários variar com grande intensidade indo do realista para o burlesco até atingir tons surreais conforme a história se torna mais assustadora.

O fato é que enquanto a bailarina é obrigada a dançar sem parar por conta da possessão maligna dos sapatinhos, os diretores injetam uma carga criativa simplesmente sem precedentes – até mesmo para as fantasias do cinema silencioso de Georges Méliés. Através do vasto uso de técnicas de corte, colagem, ilusões ópticas, manipulação da taxa de quadros, inserções oportunas de closes expressivos, entre outros diversos truques analógicos que trazem um sentimento absolutamente único para esse sequência nada menos que perfeita.

Para deixar tudo mais interessante, a viagem surrealista tem um propósito lírico poderoso para nos colocar diretamente no âmago dos medos da bailarina Victoria que já tem fantasmagóricas premonições sobre seu futuro estar dividido entre a soberba de dois homens que a amam, mas não a sua liberdade. Fora todo o domínio técnico, artístico e, obviamente, narrativo em duas camadas, também há a maestria no uso da trilha musical em perfeita sincronia com a coreografia da sequência. É simplesmente arrebatador e só prova quão poderosa é a arte do Cinema.

Passada a sequência, o nível de excelência visual permanece até a conclusão da obra com simbolismos perfeitos para cenas românticas, de completa desilusão, do afastamento inevitável e da própria sordidez do ódio de si próprio que Lermantov sente de si mesmo. Com a criação apropriada da atmosfera e consolidação plena dos personagens tão humanos e sofridos, é impossível ficar indiferente a poderosa catarse oferecida por um dos encerramentos mais poderosos do Cinema.

Tudo para, menos os sapatinhos vermelhos

Poucos filmes são capazes de se livrar de um primeiro ato medíocre para atingir ares de obra-prima em sua conclusão. Só por este fato extraordinário, Os Sapatinhos Vermelhos merece ser visto e celebrado pelo grau extremo de risco ao introduzir pitadas generosas de surrealismo para criar o ponto de virada de sua narrativa. Obra-prima máxima da parceria Powell e Pressburger, este longa consegue trazer uma das melhores fusões entre teatro e cinema vistas em toda a história da Sétima Arte, além de apresentar um trabalho de grande perfeccionismo visual não só pela concepção dos diretores, mas também pelo uso formidável do difícil Technicolor.

Se mesmo assim não estiver convencido a dar uma chance a este formidável clássico, não escute a mim, mas aos conselhos certeiros de Kubrick e Scorsese. Dois mestres reconhecidos por errar raríssimas vezes.

Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes, Reino Unido – 1948)

Direção: Michael Powell, Emeric Pressburger
Roteiro: Michael Powell, Emeric Pressburger, Keith Winter, Hans Christian Andersen
Elenco: Marius Goring, Leónide Massine, Anton Walbrook, Moira Shearer, Robert Helpmann
Gênero: Drama, Romance, Musical
Duração: 134 minutos.

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