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Crítica | Pequeno Segredo

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O funcionário do cinema retira silenciosamente o cartaz de “Aquarius” e o substitui pelo de “Pequeno Segredo”, sob o olhar estupefato de meia dúzia de espectadores, num evento ligeiro, mas tão carregado de simbolismo que parece encenado. Protagonista acidental do drama político brasileiro que envolve também a militância partidária disfarçada de “comunidade cinematográfica”, o filme dirigido por David Schurmann deve passar para a história como a produção que desbancou “o outro”, dirigido por Kléber Mendonça Filho, na corrida sem fim pelo “Oscar brasileiro”. Como praticamente todos os subtemas que envolvem o Cinema Nacional, este episódio sem maior relevância acaba por sobrepujar os filmes em si – no caso de “Pequeno Segredo”, há motivos suficientes para gostar ou desgostar do filme sem parecer estar comparecendo à urna eletrônica.

“Pequeno Segredo” é um drama que lança mão de recursos narrativos consagrados (como a alternância cronológica) para contar uma história real ocorrida com a família do diretor e que despertaria pouco interesse não fosse seu desfecho com alta carga emocional. A brasileira Jeanne (Maria Flor) conhece o viajante neozelandês Robert (Errol Shand), ao mesmo tempo que acompanhamos as dificuldades do casal Heloísa e Vilfredo Shurmann (Júlia Lemmertz e Marcello Antony) para administrar a vida escolar e a passagem da infância para a adolescência de sua encantadora filha solitária que parece ter algum problema de saúde. Longe de todos esses personagens, uma autoritária senhora (Fionnula Flanagan) acompanha o desenrolar dos eventos, até que os conflitos começam a se cruzar e as relações temporais e familiares entre os personagens vão ficando mais claras.

O início é confuso porque alterna as três linhas de ação, presente e passado, diferentes cenários, narradores e pontos de vista, de modo que a melhor possibilidade para o espectador gostar do filme é concentrar-se no que realmente importa: a garotinha doente que será convertida eventualmente na verdadeira estrela e razão de ser do espetáculo. Incomodam também algumas inserções absurdas de merchandising (difíceis de aceitar numa produção cara para os padrões nacionais), especialmente aquela em que Robert desiste de enviar uma carta pelo correio brasileiro, provocando efeito cômico certamente involuntário.

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Enquanto o filme avança, percebemos o esforço exímio do roteiro em amarrar as pontas, comportando dentro de um mesmo enredo relativamente coeso uma quantidade exagerada de matizes e informações dramáticas que só se encontram, finalmente, por engenhosa obra dos escritores: estamos diante de pelo menos três doenças diferentes, um acidente grave, três idiomas, quatro acentos étnicos, um exagero com o qual a direção tem ampla dificuldade de lidar e que, na verdade, poderia ter sido deixado pelo caminho – não fosse, talvez, o desejo dos produtores de servir um rodízio com a variedade mais ampla de pratos, tentando agradar todos os gostos possíveis e falando ao mesmo tempo de choque cultural, preconceito de raça, preconceito de classe, bullying, etc.

É surpreendente como a distribuidora bate cabeça ao permitir que o “pequeno segredo” – surpreendente e que, na verdade, é habilmente ocultado pelo roteiro, o que faz sua revelação elevar o filme e certamente penetrar o coração do público – seja comentado abertamente (é possível ver até mesmo o diretor falando sobre isso em entrevistas), o que traz à tona o fato de que mesmo os produtores não sabem muito bem o filme que tem em mãos.

A direção, por sua vez, sofre com a decisão costumeira de filmar a ação e os personagens diagonalmente, na altura dos olhos, ora mantendo a típica relação de estúdio de TV com os atores (ação de um lado, equipe de outro, câmeras a 45°), ora tentando cobrir o que acontece de todos os ângulos em movimentos de câmera dispensáveis. Não faz sentido gastar seis milhões de reais e ter à disposição cenários amplos se a câmera não deixa o drama respirar, privilegiando planos fechados e fundos desfocados mesmo nas externas e que só dão descanso nas filmagens aéreas. Essa limitação fica clara na cena mais importante do roteiro (onde as personagens de Lemmertz e Flanagan confrontam-se) e a câmera se perde tentando correr atrás dos atores, numa falha formal inadmissível num filme de grande porte. O olhar telenovelesco assumido acaba por diluir o efeito do que acontece no enredo, embora seja uma mania bastante conhecida e até certo ponto compreensível na cinematografia de um país onde a dramaturgia diária de TV predomina dentro da indústria audiovisual.

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A maior parte das pessoas (e uma parcela significativa do jornalismo especializado) deixará passar os erros e acertos de “Pequeno Segredo”, optando por polemizar em torno de duas impressões (uma falsa e outra verdadeira) que correm em paralelo ao filme em si. A falsa é aquela que tenta convencer a opinião pública de que “Pequeno Segredo” foi escolhido para tentar o Oscar porque a Academia (ou seus folclóricos “velhinhos”) supostamente é resistente a material polêmico e tem preferência por “temas familiares”, quando basta uma olhadela na lista de títulos premiados com o Oscar estrangeiro para encontrar aborto, estupro, holocausto, eutanásia e conflitos de identidade de gênero em repetição mais que suficiente.

A verdadeira é que, colocados lado a lado, “Aquarius” perde para o filme de Schurmann por fazer menos sentido, universalmente, ao apoiar-se excessivamente num contexto político especificamente brasileiro para construir fama – quando “Pequeno Segredo” anda melhor sozinho, mesmo cambaleando de vez em quando, assim como a garotinha que dá vida e sabor à trama. Independente de abaixo-assinados ou manifestos de rede social, gritos de “Fora Temer” ou reclamações de cineastas desapontados, quando batem na tela os dois filmes, uma menina doente emociona e desperta reações que podem, eventualmente, fazer diferença na hora da competição.

Apesar de seus méritos (localizados especialmente na escolha do elenco e na construção labiríntica do enredo que, aos poucos, revela sua solidez em meio ao alto número de protagonistas, narradores e pontos de vista diferentes), “Pequeno Segredo” sofre com as falhas típicas de uma cinematografia nascida e criada em um mercado construído artificialmente, onde a concorrência entre os filmes deu lugar ao repetitivo exercício de cineastas que não sabem muito bem como gastar o dinheiro (público) que têm a seu dispor.

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Os momentos em que nos perguntamos se assistimos a uma novela (e não a um filme), com todas as implicações formais que tal constatação nos traz, são contudo defeitos que não encontramos apenas aqui, mas em praticamente toda uma geração de realizações nacionais e que, possivelmente, só diminuiriam de peso caso a indústria andasse pelas próprias pernas – e não dependente da máquina estatizada que engloba desde o financiamento dos filmes, passando por reserva de mercado, até a manifestação da comunidade que rejeita – por motivações políticas – este título em benefício de outro (no caso, “Aquarius”) também forjado dentro do mesmo ambiente no qual a “política cinematográfica” sobrepõe-se ao cinema em si. É um erro, ademais, contrapor um ao outro quando mesmo “Pequeno Segredo” é um filme tipicamente resultante do ambiente regulatório que deu origem ao dirigido por Mendonça, sendo beneficiado por governos em todas as esferas possíveis e tendo custado ao menos o dobro que o filme do pernambucano.

Na verdade, isso tudo acaba importando menos ao público – a verdadeira razão de ser de qualquer cinematografia, vencedora do Oscar ou não – que o real e “pequeno segredo”, que literalmente descortina-se num desfecho encantador e delicado – o qual, mais que “valer o ingresso”, é sua única justificativa.

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Publicado por Daniel Moreno

Realizador audiovisual independente: diretor, roteirista e produtor. Ao ouvir o que eu tenho a dizer, você estará dando ouvidos a um discurso completamente diferente daquele de outros cineastas brasileiros. Aqui, não há espaço para estatismo e bajulação a governos.

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