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Ao lado do segmento infantil, em uma ponta, e do adulto, em outra, o gênero de terror tem sido uma aposta relativamente certeira para produtores dispostos a seguir a cartilha básica da tradição, que manda reunir atores baratos e despesas controladas a fim de, mesmo não figurando entre as maiores bilheterias do ano, um lançamento bem-sucedido possa se pagar e ainda retornar algum lucro para o estúdio.

Para o teórico do roteiro Robert McKee, o grande gênero de terror subdivide-se em pelo menos três categorias: filmes de mistério (onde a trama tem explicação racional possível), filmes sobrenaturais (onde a trama busca explicação fora do mundo físico conhecido) e o que ele chama de “supermistério” (quando o espectador adivinha qual das possibilidades é a correta para o enredo). Embora sensata, tal divisão não dá conta das habituais variações que a indústria tem explorado, criando estilos ou subgêneros específicos que também não são complicados de identificar.

Como produzir cinema não é fazer contas aritméticas com resultados exatos o tempo todo, os filmes em si costumam oscilar entre pulsões originadas desses subgêneros. No caso do cinema de terror, tais pulsões podem vir da tradição de “filmes de fantasma” (mormente baseada em contraposições como ver-não ver e som-silêncio); do gore (onde a violência gráfica é determinante); do desenvolvimento tecnológico das ferramentas de composição (filmes com efeitos visuais elaborados em computador); entre outras.

Quando um mesmo filme mistura de forma relativamente desordenada essas pulsões, o resultado pode ser confuso na cabeça do espectador e certamente poluído na tela. Este é o caso de “Quando as Luzes se Apagam”, lançamento da Warner a partir de um curta-metragem cujo conceito (usando a luz de cena para criar um jogo de gato e rato dentro da trama) não é exatamente original (“O Mistério da Rua Sete”, de 2010, e “A Hora da Escuridão”, de 2011, já lançavam mão de premissas semelhantes).

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Exigir originalidade de qualquer filme em 2016 (e 2015, e 2014, e 2013, etc.) pode ser uma demanda quase impossível de ser atendida, mas há sempre na audiência o desejo de que o universo com o qual se vai relacionar em duas horas (ou, neste caso, menos) de projeção tenha princípios que guardem mínima coerência interna, de modo que quem assiste possa participar sabendo quais regras estão valendo. Em outro filme do mesmo gênero, por exemplo (“O Sono da Morte”, também de 2016 e que também mostra uma criatura atormentando uma criança que não consegue dormir), este problema torna-se quase insuportável ao usar o expediente habitual dos “sonhos” para justificar qualquer coisa que possa aparecer: depois da segunda ou terceira vez em que o recurso é repetido, o espectador entedia-se ao perceber que o próprio filme não segue regra alguma, e simplesmente tudo que for mostrado terá algum tipo de correspondência na (in)coerência da trama.

No caso de “Quando as Luzes se Apagam”, as regras estão bem definidas (o que estimula a identificação de quem assiste), mas a miscelânea de subgêneros presentes evidencia a falta de uniformidade do produto final (repetindo, decorrente de uma premissa revelada num curta-metragem).

No enredo, eventos de natureza desconhecida e que estão perturbando a vida escolar do pequeno Martin (Gabriel Bateman) trazem de volta ao núcleo familiar sua irmã mais velha Rebecca (Teresa Palmer, atriz australiana que parece uma versão surfista de Kristen Stewart), levada por sua vez a enfrentar a mãe neurótica (Maria Bello), que parece esconder algum segredo do passado e que volta e meia aflige os filhos em forma de uma aparição sobrenatural de nome “Diana”.

A quantidade de referências presentes pode ser atordoante ao apreciador do gênero. Os manequins remetem a um célebre episódio da série “Além da Imaginação” (The After Hours). A “criatura” lembra desde alguns clássicos recentes do cinema japonês até mesmo o alienígena de “Sinais” (2002). A protagonista é uma releitura da personagem de Jessica Chastain em “Mama” (2013). Alguns conflitos familiares e a construção da biografia de Diana remetem por sua vez a “O Chamado” (2002). Os olhos de Diana lembram “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas” (2011), e assim por diante.

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Esteticamente, a maior fraqueza do filme é exatamente tentar equilibrar-se, por exemplo, entre pulsões estranhas, querendo ao mesmo tempo ser um filme de elegantes contraposições (a mais óbvia delas é entre claro e escuro) ao mesmo tempo que impressiona com violência gráfica (sangue) e alguns efeitos visuais (econômicos, mas presentes). Este é um balanço complicado de ser atingido e é talvez por isso que alguns dos melhores filmes de terror já feitos (desde “A Bruxa de Blair”, de 1999, até “Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado”, de 2004), preferem concentrar-se numa abordagem mais uniforme, evitando embaralhar na cabeça do espectador que regras (não só de verossimilhança, mas até mesmo “visuais”) estão valendo.

O maior mérito do filme, por sua vez, não é exatamente sua premissa, mas a admissão na curta duração de que ela é insuficiente para preencher mais que 90 minutos de projeção. Quando o jogo proposto parece próximo ao esgotamento, o filme acaba, deixando eventualmente um gosto de “quero mais” e até mesmo uma porta aberta para continuações. Barato para o padrão dos grandes estúdios de Hollywood, “Quando as Luzes se Apagam” é quase um compacto com melhores momentos de diferentes subgêneros e estilos, tentando – tal qual um rodízio onde são servidas carnes, massas, pratos japoneses, saladas, pratos árabes, pizzas… – agradar a todo mundo, com fantasma, sangue, sustos, crianças e efeitos (talvez esta, também, uma admissão de que sua ideia inicial não fosse capaz, sozinha, de agradar muita gente).

N. E. (Matheus): apesar de ter gostado um pouquinho mais do filme do que nosso amigo Daniel, adiciono aqui que o filme também busca mecânicas vindas diretamente do game Alan Wake.