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Crítica | Rashomon – Quatro Versões de Uma Verdade

A experimentação sem fronteiras de Kurosawa.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
22 de fevereiro de 2018 · 7 min de leitura
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Crítica | Rashomon – Quatro Versões de Uma Verdade

Rashômon é um dos filmes mais festejados da História do Cinema. Basicamente, com o mundo atento sempre aos trabalhos saídos de Hollywood por muitas décadas, Akira Kurosawa conseguiu colocar o cinema estrangeiro em evidência com essa pequena obra-prima lançada em 1950 tanto que dizem que a categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar foi criada justamente por causa do sucesso que o filme obteve tão rápido ao redor do mundo.

Para si, Kurosawa foi um grande pioneiro ao tomar tantos riscos com Rashômon, um filme de narrativa fragmentada encaixada em três linhas temporais distintas, mas ligadas entre si. Feito para um público tão acostumado com narrativas lineares, poderia ter sido um enorme fracasso. Mas, por uma ironia do destino, apesar de muita gente não ter entendido bem a narrativa, o público foi conquistado pela estranheza exótica dos testemunhos que Kurosawa bem expôs aqui.

A Busca pela Honestidade

A partir das histórias de Ryûnusuke Akutagawa, Kurosawa e Hashimoto testam os limites da narrativa cinematográfica com Rashômon. A primeira narrativa envolve três pobres camponeses se abrigando nas ruínas do templo Rashomon para fugir de uma chuva incessante. O mais desbocado dos homens, logo começa a provocar o Monge e o Lenhador, indagando o porquê daquela expressão tenebrosa em suas faces. Admitindo que a história fará o cínico homem perder a fé na humanidade, logo se colocam a contar as consequências de um terrível assassinato.

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O problema é que existem quatro versões dessa história e aparentemente ninguém conhece a verdade absoluta do que aconteceu em uma tarde ensolarada no meio da mata envolvendo o bandido Tajômaru (Toshirô Mifune) e o casal Kanazawa (Machiko Kyô e Masayuki Mori).

Apesar de todo o filme ser uma enorme parábola sobre a honestidade e os limites da dignidade humana, é difícil ficar indiferente pelo pioneirismo narrativo que Kurosawa apresentou aqui. Ao contrário de Cidadão Kane, uma narrativa fragmentada em flashbacks, temos uma mesma história contada sob diferentes versões, apesar das consequências serem sempre as mesmas: um homem morre e uma mulher desaparece.

O interessante é a escolha nada convencional de embalar um testemunho dentro de outro testemunho através de flashbacks dentro de flashbacks. O Lenhador e o Monge que contam as histórias fazem questão de repetir os testemunhos dados à polícia contando o que ocorreu durante o interrogatório da mesma forma.

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Nesses testemunhos dados a partir do ponto de vista de peças-chave do ocorrido: o bandido, a mulher e o marido, temos as discrepâncias sobre o acontecimento e logo percebemos o ninho de mentiras contadas. Além de usar a narrativa do modo mais ousado possível para a época, Kurosawa também introduz o conceito do narrador não-confiável em seu filme, colocando o espectador como participante ativo para deduzir quais trechos podem ser confiáveis e montar uma versão final para tudo aquilo.

As histórias são bastante simples com as versões sempre trazendo informações que favorecem, de algum modo, seus narradores. Chegando até mesmo a utilizar o paranormal, as versões dos homens visam trazer desafios honrados, grandes batalhas e até mesmo uma polêmica envolvendo um estupro. Já a da mulher, a mais fácil de ser desacreditada, é repleta de furos, conveniências e omissões de passagens importantes citadas pelos outros dois homens.

Somente conhecemos a “verdade” através de um relato até então inédito do Lenhador que testemunhou tudo e não revelou à polícia por um motivo nada nobre, apesar dele insistir que sua versão é a verdadeira. E de fato parece ser, pois é nela que Kurosawa desmonta os mitos japoneses sobre honra, matrimônio e coragem em uma sequência de eventos muito poderosa condenando totalmente o depoimento dos outros.

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Nesse sentido de honra e orgulho, tão valiosos para a cultura de seu país, Kurosawa sabe que há um limite para desconstruir arquétipos consagrados e redime o Lenhador com a inserção surreal de um artifício narrativo para tal, apesar da mensagem ter sido muito bem enviada através do camponês mais pobre em um diálogo cáustico contra o Lenhador.

De modo genial, Kurosawa consegue entregar uma história de detetive, crime, sexo, terror e melodrama através da possibilidade que o bom uso da fragmentação narrativa consegue gerar.

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Regra dos Três

Já tendo dirigido uma quantia grande de filmes desde 1943, Kurosawa havia encontrado sua marca autoral praticamente presente em todas suas obras. Especificamente em uma palavra, Kurosawa é movimento. Raríssimas são as vezes que teremos um plano totalmente estático em algum de seus filmes.

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Em Rashomon, o movimento é constante através de métodos muito diversificados além do básico: câmera e atores. Ou seja: o ambiente. Kurosawa usa a folhagem, sombras, poeira, vento e a chuva para imprimir vida em todos os fotogramas da obra. Às vezes, há movimento em três frentes como os travellings feitos com câmera na mão – muito estabilizada para a época, nos segmentos que os personagens caminham pela densa floresta enquanto sombras das folhas são projetadas em seus rostos. Poético e misterioso ao mesmo tempo.

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Entretanto, acima do movimento, Kurosawa também é um diretor obcecado na plástica do enquadramento. Por vezes, são centralizados, mas a assinatura mais frequente é o que chamo da “regra dos três”. Tanto para estabelecer geografia cênica como para unir os personagens em uma aglutinação imagética única. Mas a poesia, obviamente, é o que Kurosawa pretende atingir.

Assim como um pintor, o cineasta trata sua tela como um espaço útil importantíssimo onde tudo deve estar no lugar correto no momento certo – vido o plano final da obra. Muitas vezes, principalmente nas cenas de interrogatório, Kurosawa enquadra um personagem em primeiro plano enquanto insere outras testemunhas na profundidade de campo – tudo sempre em foco. São enquadramentos bastante bonitos que oferecem uma dinâmica visual interessante, além de evidenciar que, de fato, o Lenhador e o Monge estavam presentes nesses depoimentos, não descreditando a veracidade dos testemunhos para o espectador.

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Também é preciso salientar a maravilha fotográfica que Kurosawa e seu diretor de fotografia conseguem com a complicada iluminação do filme. Não por ele ser fabulosamente bonito, mas por conta da dificuldade que é iluminar dentro da mata fechada – ainda mais em preto e branco. Com truques para intensificar a luz através de espelhos usando a própria mata como difusores para abrandar a intensidade da luz solar que foi possível realizar essas cenas bastante atmosféricas.

Kurosawa também já era um diretor experiente para coreografar as cenas de duelos samurai e de fato Rashomon possui boas doses de lutas de katana tanto que a encenação do relato final consegue ser brilhante por destituir o duelo da pompa e elegância demonstrada em outra restituição anterior. Ainda no nível da encenação, Kurosawa não usa a chuva aqui como elemento catártico como faria em Os Sete Samurais. Na verdade, é o raiar do sol que irrompe a chuva da desconfiança para abençoar a vida do Lenhador transformado com o reconhecimento de seus próprios erros. Novamente, poesia simples e bela.

O único entrave é que Rashomon pode ser um filme bastante chato. O ritmo da obra é bastante deficitário graças a dilatação desnecessária de alguns movimentos dos atores, da antecipação de um duelo ou de uma troca de olhares. É curioso que o diretor seja tão vanguardista em tantos aspectos e um tanto retrógado nessa ênfase absurda para criar um clima que se torna frágil por conta do exagero. Ao menos, Kurosawa foi iluminado em trazer os relatos a partir de pontos já definidos do impasse, sem repetir todo o caminho que levou até a emboscada do crime.

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Floresce um Mestre

Antes de Rashomon, Kurosawa era um realizador eficiente que conseguia contar suas histórias de modo apropriado com uma boa técnica visual. Porém nada se aproximaria do resultado obtido nesse alvorecer de talento que este filme é. Importante para o Cinema como um todo e por catapultar a carreira de Kurosawa a orçamentos maiores e projetos ambiciosos, Rashomon é um filme que é digno de todos os elogios, mesmo quando se perde pelos caminhos de uma floresta chuvosa.

Rashomon (Rashômon, Japão – 1950)

Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Ryûnusuke Akutagawa, Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto
Elenco: Toshirô Mifune, Machiko Kyô, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijirô Ueda
Gênero: Drama, Mistério, Crime
Duração: 88 minutos

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Tags: #Akira Kurosawa #Masayuki Mori #Minoru Chiaki #Rashomon #Shinobu Hashimoto #Takashi Shimura #Toshirô Mifune
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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