Resident Evil: Apocalypse, a segunda entrada na franquia cinemática baseada nos games de Resident Evil, nos mostra que uma sequência pode sim superar o original e ainda assim ser ruim. Mesmo alterando praticamente todo o elenco e deixando somente Milla Jovovich, os problemas de outrora permanecem. Mal sabíamos à época que Resident Evil havia chego para ficar e que ainda nos seriam cometidos mais quatro filmes.

Após o relativo sucesso de bilheteria de seu antecessor, Paul W. S. Anderson deixa a cadeira de diretor para ser somente escritor. Com sua saída, entra o estreante Alexander Witt. No entanto, sua presença é muito apagada, o que me faz olhar para a escolha dele com certa suspeita. Witt, com experiência de diretor de segunda unidade e operador de câmera, não agrega muito à obra e o filme ainda se parece muito como qualquer outra produção dessa franquia.

Nesta fita, temos uma mudança grande de ambiente. Ao invés de corredores escuros e uma instalação subterrânea, os personagens se encontram na superfície de Raccoon City, passando por ruas, igrejas, cemitérios e escolas. Seguindo os acontecimentos da missão na HIVE, um grupo de cientistas da Umbrela Corporation decide abrir as portas para verificar o que houve. Ao abrir, os zumbis que estavam selados escapam para a cidade e geram uma infestação incontrolável.

O que mostra pouco prendimento à narrativa, é a tratativa de filme de destruição ou de caos que temos na introdução. Os jornais comentam de relatos de pessoas internadas com sintomas de raiva e atacando outras pessoas na rua. Ora, se os zumbis saíram todos de um mesmo local causando danos e estragos, como que isso não foi notado pela mídia ou pelas autoridades? Porque a Umbrela não fez nada para conter a infestação quando os zumbis fugiam da HIVE em primeiro lugar?

Essas e outras perguntas removem totalmente a imersão do filme. Sendo cenas rápidas, com ação e entrada de novos personagens ou cenas mais longas com mais exposição, a suspensão de descrença exigida do espectador é absurda. Várias e várias vezes temos personagens que simplesmente se afastam do grupo e na cena seguinte aparecem andando sozinhos em um corredor escuro sendo caçados por algum monstrengo aleatório e eventualmente morrendo. Quantos personagens precisam morrer para que eles entendam que numa invasão zumbi você não deve ficar andando sozinho?

Após este início, somos apresentados à personagem Jill Valentine (Sienna Guillory), uma policial de Racoon City e ex membro da STARS. Essa personagem veio diretamente do primeiro jogo e é uma adição muito bem vinda, mesmo que não seja muito útil ao longo do filme, serve para tirar o gosto ruim da personagem de Michelle Rodriguez do primeiro. Com um visual muito similar ao dos jogos, ela faz sua entrada mostrando que não está ali para ser mordida por vampiros.

Falando em boas adições, Apocalypse conta também Oded Fehr e Mike Epps para engrossar o elenco de forma positiva. Suas entradas, junto com Jared Harris e Thomas Kretschmann mostram um cuidado maior em escalação de atores e faz bastante diferença no meio do fiapo de roteiro que Resident Evil é. Suas presenças e personagens são sentidas e cada um apresenta seu tom e diversidade para o grupo.

Jill se junta a um grupo de pessoas em uma igreja, onde são resgatados por Alice. Sua entrada triunfal é cheia de efeitos e firulas cinemáticas, mostrando que ela não é mais a moça indefesa encontrada no filme anterior. Com a chegada de Alice, a película passa a desenvolver a trama do policial Carlos Olivera (Oded Fehr) e sua equipe de soldados que abandonam a Umbrela após ela bloquear a saída das cidades, deixando os civis de Raccoon City para morrer nas mãos dos zumbis e armando o grande vilão: Nemesis.

Nemesis, o principal monstrengo do filme, lembra muito o Exterminador do Futuro, ao diferenciar ameaças e civis com a câmera frontal da retina. A decisão de o criar utilizando maquiagem e uma roupa, ao invés do famoso CGI, é acertada. Sua presença é imponente e entrega uma ameaça que assusta por seu poderio.

Como comentado anteriormente, o trabalho de Witt passa despercebido. Não temos grande conexão com a personagem de Alice ou de Jill, ou de qualquer outro ator fugindo das hordas de zumbis. O estilo de câmera parada que é comum aos games e Paul Anderson deixou presente no primeiro filme é abandonado para um estilo mais próximo de ação, com câmeras um pouco mais próximas e vários e vários sustos na montagem. A maquiagem faz um trabalho decente, com zumbis mais críveis e machucados mais bem elaborados. O aumento do valor de produção novamente é perceptível.

A ação do filme apresenta cenas que beiram o ridículo, com saltos e pulos e motos voadoras e câmeras lentas de dar inveja em Velozes e Furiosos. Ainda assim, consegue ser melhor que o primeiro. As cenas possuem bastante cortes rápidos, mas são mais rápidas e melhores produzidas de modo geral. Existe mais ação de fato, pois Alice, a personagem principal, agora se descobre portadora de uma versão do T-Vírus que lhe dá alguns poderes sobre-humanos. Ao invés da moça em perigo, Alice agora age mais como heroína, enfrentando zumbis com punhos, facas, armas e piruetas.

Como a maior parte do filme se passa pelas cidades e pelas diferentes locações que uma cidade permite, os figurinos são mais interessantes. Ao invés de pessoas com jalecos brancos em todo momento, agora encontramos uma diversidade maior de zumbis, inimigos e civis. Até crianças aparecem agora contaminadas, dando um tom mais pesado para o horror da infestação.

De modo geral, Resident Evil: Apocalypse é uma entrada superior à franquia até então. Com melhores cenas de ação e um elenco que entrega diferencial, os problemas de roteiro são mais fáceis de se superar. No entanto, com o excesso de auto seriedade na busca por se tornar um sci-fi inteligente, Resident Evil se perde. Talvez comprometer um pouco da seriedade e incrementar a diversão seria uma decisão um pouco mais acertada.