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Crítica | Rosa e Momo – Um Conflito de Gerações

Sophia Loren é um dos nomes mais poderosos da indústria do entretenimento – e se você não a conhece, está mais que na hora de revisitar sua extensa filmografia. Afinal, Loren se tornou a primeira atriz de língua não-inglesa a levar para casa o Oscar por sua incrível performance no aclamado drama Duas Mulheres, ainda em 1960 – mas sua carreira não se restringe apenas a seus feitos no passado. Ela também emprestou sua voz e sua presença para o controverso musical Nine, de Rob Marshall, e até mesmo dublou uma das personagens na versão italiana de ‘Carros 2’. Aos 86 anos, ela é única mulher da lista das estrelas clássicas de Hollywood ainda viva e fez um glorioso retorno para aquilo que mais sabe fazer nestes últimos dias com o poderosos tour-de-force Rosa e Momo.

Dirigido por Edoardo Ponti, filho de Loren, o mais novo longa-metragem da Netflix é baseado no romance A Vida Pela Frente, de Romain Gary, e é centrado em dois personagens principais: o primeiro deles, que entra como narrador de uma jornada através de obstáculos familiares e do senso de pertencimento a uma comunidade, é encarnado pelo jovem Ibrahima Gueye em Momo, um menino muçulmano senegalês órfão que basicamente não tem nenhuma ambição quanto ao futuro. Deixado às mãos do Dr. Coen (Renato Carpentieri), Momo se rendeu ao crime e ao tráfico de drogas como forma de buscar independência e provar que não precisa de ninguém, nem mesmo quando ele é levado para a casa de Madame Rosa (Loren) até que outro lar seja encontrado.

De fato, Loren e Gueye são os grandes astros da produção e nutrem de uma química gigantesca desde o primeiro momento em que dividem as telas. Momo e Rosa não se gostam – isso fica claro desde o começo: o menino rouba dois castiçais da frágil senhora apenas para depois cruzar caminhos com ela novamente e perceber que o carma nunca falha. De qualquer forma, nenhum dos dois possui muita paciência e nem vontade de criar quaisquer laços um com o outro, talvez para se protegerem, talvez porque se sintam melhores sozinhos. A identidade de Momo é posta em xeque constantemente através dos breve 95 minutos da narrativa, visto que o roteiro é pungente o suficiente para transformá-lo em várias dissonâncias de uma mesma personalidade conforme ele segue pelas estreitas ruas do bairro italiano Libertà; enquanto isso, Rosa sofre com uma espécie de síndrome de estresse pós-traumática, revisitando os anos em que ficou presa no holocausto durante a II Guerra Mundial.

Todos esses temas são canalizados pelas habilidosas mãos de Ponti e de Ugo Chiti, que auxilia na adaptação do livro. Diferente do que poderíamos esperar de outras iterações do gênero, o panfletarismo e o pedantismo caprichoso não existem em nenhum lugar: o que insurge é um retrato singelo, sutil e emocionante de duas pessoas completamente diferentes que se unem por um acaso mais similar do que imaginam. Ambos sofreram com perdas e tentam seguir em frente sem deixar que os fantasmas de um conturbado passado voltem para assombrá-los – por mais que não consigam ou traduzam suas frustrações de outras maneiras. Rosa, volta e meia, se transforma numa carcaça sem vontade própria que se refugia num quartinho no subsolo do prédio onde mora, fitando inexpressiva fotos antigas e objetos de valor que se escondem na escuridão; Momo, além de “trabalhar” ao lado de um traficante, materializa uma leoa que o protege e que sempre o acompanha a qualquer lugar que vá.

É através de detalhes que a conexão entre os dois personagens vai crescendo em um explosivo e exuberante relacionamento que é movido pelos conflitos de gênero, raça, idade e religião – tudo isso sem cair nas formulaicas e apressadas saídas melodramáticas ou em forçadas tramas novelescas repletas de estereótipos datados. Como já mencionado, a sutileza e a maior arma do filme, sendo utilizada com tanta paixão que chega a ser difícil não soltar uma ou duas lágrimas frente às turbulências que eles enfrentam: Momo se acostuma à sua nova vida antes de perceber que, a qualquer momento, Rosa pode ser levada embora para um hospital devido à sua fraca condição mental e aos episódios de nescidade – uma dormência que a leva para longe do presente no qual está e mantém presa num ciclo vicioso sem fim.

É interessante o modo como Ponti guia o enredo que nos apresenta através de pinturas quase eclesiásticas, flertando com o impressionismo imediatista que dialoga diretamente com a realidade que quer retratar. A sóbria paleta de cores acompanha a completa ausência de prospecto dos protagonistas – anti-heróis que tentam fazer do pior algo suportável. Afinal, como Rosa menciona na transição do segundo para o terceiro ato, “quando estamos sem esperança, as coisas melhoram”. Em outras palavras, quando se está no fundo no poço, o único caminho a seguir é para cima – e isso se mantém até a derradeira verdade que decai sobre Momo: Rosa não está em condições de ser quem outrora era, uma dama austera, disciplinadora e protetora; cabe a ele fazer de seus últimos momentos uma jornada evocativa.

Rosa e Momo é facilmente um dos dramas mais poderosos do ano e uma adição quase irretocável ao catálogo da Netflix, cujos principais espólios são a química de seu elenco e o glorioso retorno de Sophia Loren àquilo que, um dia, a colocou no topo do mundo.

Rosa e Momo (La Vita Davanti a Sé – Itália, 2020)

Direção: Edoardo Ponti
Roteiro: Edoardo Ponti, Ugo Chiti
Elenco: Sophia Loren, Ibrahima Gueye, Abril Zamora
Duração: 95 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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