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Crítica | Samantha!: 2ª Temporada – Quando Samantha Quase Cresceu

Em 2018, Samantha! foi lançado na Netflix e imediatamente nos entregou uma história aprazível, recheada de humor e que, ao mesmo tempo, criticava a cultura do culto à televisão e às subcelebridades de forma tão sutil que tangenciou a inexistência. E é claro que nada disso seria possível caso a narrativa não fosse também carregada por competentes personagens, incluindo a anti-heroína egocêntrica que empresta seu nome ao título da obra – Samantha Alencar (Emanuelle Araújo). A trama principal gira em torno da ex-celebridade mirim que ganhou imenso sucesso na década de 1980 e que perdeu sua relevância nos dias de hoje, fazendo o inimaginável e o absurdo para recuperar parte de sua glória.

A primeira temporada, seguindo o padrão de produções similares, abriu portas para seus protagonistas e fomentou um tour-de-force interessante para a nossa estrela apagada. É claro que, desde o episódio piloto, Samantha mergulhou em sua própria jornada de amadurecimento, retomando – ou tentando retomar – laços com seus antigos colegas ao mesmo tempo que lutava para manter sua família unida e retornar com força para o show business. Agora, ela deverá enfrentar outros obstáculos que concernem à sua reputação, seja como criança, seja como adulta, além de provar para o mundo que ela não é a pessoa que todos conheciam, e sim uma mulher independente, que tem a capacidade de tomar as próprias escolhas sem interferência externa.

No novo ano, o criador Felipe Braga arquiteta dois blocos diferenciados: no primeiro, a personagem encarnada por Araújo lida com o fato de que seus supostos amigos, Tico (Rodrigo Pandolfo) e Afonso/Bolota (Maurício Xavier) estão produzindo um filme sensacionalista baseado no romance não-ficcional Samontra!, perscrutado por memórias deturpadas cuja única finalidade era colocar Samantha como a vilã de uma interminável epopeia. Esses breves episódios, que ocupam quase metade da iteração, servem como respaldo para que a própria anti-heroína perceba que precisa crescer e agir como a mulher que sempre se mostrou para os outros – ao mesmo tempo em que nutre um sentimento vingativo por aqueles que mentiram a ela. Em outras palavras, ela se mete nas confusões mais inesperadas para provar seu ponto.

O segundo bloco recebe uma roupagem mais dramática. Aqui, Araújo abandona alguns estereótipos propositais de sua persona para lidar com traumas muito bem-vindos e que, apesar de serem resolvidos em um piscar de olhos, oferecem uma outra perspectiva para o público sobre uma narrativa muito conhecida – a ascensão e queda de uma estrela movida por seu passado e cega no presente. Eventualmente, os telespectadores descobrem que Samantha teve uma infância mascarada pelo “sorriso mais bonito do Brasil”, maquiando-a como a criança perfeita que todo mundo queria ter. Entretanto, a jovem estrela sempre sofreu por ter sido abandonada por sua mãe, deixada em um cesto à porta dos estúdios que a acolheram – e essa subtrama que também oferece respostas sobre seu relacionamento com o falecido Zé Cigarrinho (Ary França).

A protagonista encontra seu momento de brilhar quando se entrega para uma obscuridade totalmente oposta do que representava algumas décadas atrás, supervisionada pela excêntrica diretora de teatro Carmem Vecino (Alessandra Maestrini em uma adorável performance), a qual a vê como a pessoa certa para encarnar um monólogo bielorrusso proferido por uma órfã – ou seja, extensão metalinguística de si mesma. É claro que, levando em consideração que a série é uma construção cômica, o roteiro não abre mão de abandonar alguns diálogos sarcásticos e propositalmente autoexplicativos que quebram nossa expectativa. Em alguns momentos, porém, a hilaridade parece datada e sofre para ganhar um brilho próprio, sendo carregado mais pela química do elenco que pelo desenrolar dos episódios em si.

Braga também cultiva um terreno para outras entradas: Cindy (Sabrina Nonata) continua a se envolver com diversas vertentes feministas, sempre lutando pelo que deseja e percebendo um obstáculo considerável quando seus dois mundos acabaram por colidir; Brandon (Cauã Gonçalves) finalmente percebe que é uma criança e não precisa crescer antes da hora; e Dodói (Douglas Silva) lida com o retorno de sua mãe, Socorro (Zezeh Barbosa), com quem não conversava há doze anos e que, mesmo mantendo um relacionamento tênue, insiste em controlar o filho e os netos para se sentir útil novamente. O problema é que tais personagens, antes tendo um protagonismo maior, são enfiados nas limitações de cada capítulo, não expandindo-se para além do que esperávamos – isso sem falar em algumas rendições performáticas tão artificiais que se tornam execráveis.

De fato, Samantha e Dodói roubam a cena por sua naturalidade cênica. Mesmo nutrindo por diferenças gritantes, eles se completam e se ajudam nos momentos mais absurdos – na saúde e na riqueza, na alegria e na tristeza. E, conforme nos aproximamos do season finale, Dodói a observa ser levada pela polícia após um “sequestro forjado” que na verdade arrancou de Samantha seu maior esforço de humanidade, recuperando sua inocência infantil e, olhando para trás, percebendo que seus fãs ainda existem – portanto, a glória que achou que tivesse perdido há muito tempo.

Samantha! nos entrega mais uma aprazível temporada que termina em si mesma ao mesmo tempo que constrói um cliffhanger para um possível e esperado próximo ano. Araújo volta a brilhar como nunca e é agraciada com uma fragilidade apaixonante, envolvendo-nos do começo ao fim – mesmo com a obviedade de equívocos técnicos.

Samantha! – 2ª Temporada (Idem, Brasil – 2019)

Criado por: Felipe Braga
Direção: Luis Pinheiro, Júlia Jordão 
Roteiro: Roberto Vitorino, Patricia Corso
Elenco: Emanuelle Araújo, Douglas Silva, Sabrina Nonata, Cauã Gonçalves, Daniel Furlan, Ary França, Rodrigo Pandolfo, Maurício Xavier, Duda Gonçalves, Lorena Comparato, Zezeh Barbosa, Alessandra Maestrini
Emissora: Netflix
Episódios: 07
Gênero: Comédia
Duração: 25 min. aprox.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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