nota-4,5

A ideia inicial da série surgiu a partir de uma encomenda feito pelo próprio canal FX. Ryan Murphy, criador e roteirista de American Horror Story (2011), decidiu estruturar a história nos moldes da antologia em questão, mas não transformando-a em uma. Desse modo, da mistura satírica de Meninas Malvadas (2004) e Sexta-Feira Treze (1980), surgiu Scream Queens (2015).

Ambientando em um cenário propício para “atividades de serial killers” – a Wallace University -, cujas instalações ficam na cidade conhecida pela ocorrência extrema de eventos sobrenaturais, Nova Orleans, Scream Queens conta uma história além do tempo: inicia em um aposento claustrofóbico, no qual Sophia está dando a luz a um bebê. Logo depois, quatro de suas amigas – Amy, Coco, Mandy e Bethany – aparecem. Mas ao invés de ajudá-la, a culpam por estragar a festa. Sophia, por sua vez, permanece dentro de uma banheira, esperando o evento acabar, mas acaba morrendo de hemorragia.

Vinte anos depois, um grupo de patricinhas está para escolher as novas calouras de sua irmandade – Kappa Kappa Tau. A gangue é liderada pela impiedosa Chanel Oberlin (Emma Roberts) e suas “minions” – Chanel #2, Chanel #3 e Chanel #5. Através de uma intervenção da reitora Cathy Munsch (Jamie Lee Curtis), são obrigadas a aceitar quaisquer novos membros que desejarem aderir aos ideais infernais propagados pela irmandade. Vale lembrar que Munsch estava presente no trágico evento que culminou com a morte de Sophie e, por essa razão, culpa a própria existência da KKT por todos os males que existem no mundo. Nesse meio-tempo, um serial killer que traja o uniforme do mascote da universidade arquiteta um plano de vingança que tem como objetivo principal destruir toda e qualquer existência da irmandade em questão.

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Além dos personagens já apresentados, temos também a presença de Grace Gardner (Skyler Samuels), Zayday Williams (Keke Palmer) e Hester Ulrich (Lea Michele), além das outras pledges. Todas as suas personagens representam a quebra do paradigma fútil e “cor-de-rosa” que toma conta da KKT. Representam, a priori, as alegorias do benfazer – mas a “sacada” da série é oscilar entre essas duas ideias antagônicas.

A série em si vincula-se à ideia de sátira justamente por trazer ao patamar do ridículo e do grotesco as vertentes em que se fixaram nos gêneros de terror e perseguição: o roteiro de cada um dos episódios é propositalmente escancarado. Clichês como “uma garota morreu aqui. Agora a casa é assombrada” e diálogos autoexplicativos são a base para que a série torne-se uma divertida aventura à la Agatha Christie – obviamente com um toque de ironia.

Murphy diz que desejava trabalhar em algo que se parecesse com a história O Caso dos Dez Negrinhos, em que ao menos um membro do elenco seria assassinado pelo Demônio Vermelho por episódio, além de fornecer pistas ao público que o levariam a decifrar os mistérios envolvidos na universidades antes da season finale.

A homenagem à antologia que criou é claramente perceptível: ângulos ambíguos, cortes bruscos e uma trilha sonora angustiante adornam o ambiente de Scream Queens do mesmo modo que American Horror Story. Em diversos momentos de epifania dos personagens, as técnicas de slow motion contribuem para o entendimento da série e como cada uma das tramas se entrelaçam umas às outras, favorecendo a ideia satírica – como por exemplo o passado sombrio de Munsch, os segredos obscuros de Chanel #3 e as mentiras que se escondem por trás da “vida perfeita” de Grace.

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O entrosamento do elenco é outro aspecto a ser analisado. Roberts e Samuels já haviam trabalhado com Murphy em American Horror Story – esta apenas na quarta temporada (Freakshow) e aquela a partir da terceira (Coven). Desse modo, aceitaram logo de cara a proposta feita pelo diretor. Além disso, Roberts provou na quarta continuação da franquia Pânico (2011) que lida bem com papéis de vilã – Chanel, apesar de não fazer parte de nenhum dos extremos, é a perfeita simbologia da “falsa redenção”. Seu arco se desenvolve em reconhecimentos de seus atos humilhantes para com as colegas, pedidos de perdão e retorno ao zero.

Curtis, filha da scream queen original – Janet Leigh (Psicose) – e protagonista na série de filmes Halloween (1978), tornou-se a atriz perfeita para viver o papel da sociopata reitora, cujo passado transparece em suas feições e cujo significado faz-se entendível desde o primeiro episódio: Munsch está lá para acabar com as meninas da KKT e manter sua reputação – e nada, nem ninguém ficará em seu caminho. Todas as pessoas com as quais se relaciona possuem um objetivo, senão de glorificá-la, então de fornecer a ela informações cruciais para que coloque seu plano em prática.

A escolha do restante do elenco foi bem peculiar e a princípio duvidosa, principalmente pelas aparições especiais de Ariana Grande – estrela das séries infanto-juvenis Sam e Cat e Victorious, da Nickelodeon – e Nick Jonas – ex-astro popstar da Disney e ator da franquia Camp Rock e da série Jonas. Entretanto, as personalidades de seus personagens e suas próprias caricaturas contribuíram para a criação de personalidade da série. Grande é protagonista do primeiro assassinato, e escancara de forma tragicômica os clichês do gênero de horror. Jonas parece infantilizado à primeira vista, mas está envolvido em um plot twist digno de Murphy e suas criações bizarras.

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Palmer e Michele também caem como uma luva nos trâmites desenvolvidos na série. Palmer – também estrela da Nickelodeon pela série “True Jackson – representa uma personificação de personagens literários como Hercule Poirot, Miss Marple e Sherlock Holmes. Trabalhando ao lado de Grace, têm o objetivo de transformar a irmandade em um ambiente melhor e mais acolhedor e carregam consigo a premissa do “justiça antes de tudo”. Entretanto, oscilam entre o bem e o mal quando se deparam frente a frente com seus ideais trazendo aquilo contra o que lutaram para suas vidas.

Michele, conhecida pelo papel de Rachel Berry na série Glee – criada também por Ryan Murphy – entrega-se no papel da psicótica Hester, a qual transita o tempo todo entre a sanidade e a loucura, trazendo para a irmandade um estado paradoxal de caos e liberdade.

Apesar do título fazer alusão às eternas personagens das “donzelas em perigo” de filmes de terror e aos serial killers imortalizados como Jason Vorhees, Freddy Krueger e Michael Myers, optar pela ideia tragicômica foi o que me interessou mais a continuar acompanhando a série. Easter eggs de cenas famosas – como a cena do banheiro no filme supracitado Psicose – são recorrentes.

Logo, espere sim uma ideia no estilo American Horror Story. Mas completamente às avessas.