Definitivamente Sense8 é o trabalho de um esteta. Seja em sua criação, na paleta de cores, na narrativa e na composição das cenas. As irmãs Wachowski, desde trabalhos predecessores como o clássico neo-noir Matrix ou a épica jornada contemplativa A Viagem, sempre valorizaram originalidade na indústria do audiovisual e, apesar de alguns trabalhos deixarem a desejar, não podemos negar que os conceitos com os quais mexem oscilam entre o mundano e o profano, entre o socialmente aceito e o tabu.

A história gira em torno de oito estranhos, vivendo vidas diferentes em cidades diferentes, com dramas pessoais diferentes. Eles nunca se viram – e provavelmente nem sabem da existência um do outro. Mas de repente, após sermos apresentados a uma sequência muito bem construída onde uma mulher,  no centro de uma igreja, decide finalmente puxar o gatilho da arma que carrega e acabar com um sofrimento visível, aparece para todos (não sabemos se ela se teletransporta ou se ela se conecta). E a partir do incidente incitante da série, as coisas ficam mais interessantes.

Acontece que esta mulher, chamada Angelica (Daryl Hannah) se matou por causa de uma corporação vilanesca que desejava entrar em sua mente e conseguir dominá-la, bem como encontrar estas oito pessoas. Todos estão correndo um grave perigo desde o momento em que nasceram, mas não sabem disso. Nem nós sabemos. À medida em que conhecemos cada um dos protagonistas, vamos absorvendo seus dilemas existenciais e nos surpreendemos quando, por exemplo, um astro do cinema mexicano pisca e se vê cara a cara com uma empresária sul-coreana, ou quando um policial do gueto de Chicago se apaixona por uma DJ islandesa. E esse é apenas o princípio. Estes indivíduos são conhecidos como sensates, justamente pela capacidade psíquica de se conectarem a outros semelhantes.

Este parágrafo talvez seja o melhor que posso escrever para explicar a característica principal da série. Primeiramente, deve-se entender que Sense8 cria uma mitologia do nada – e este é um trabalho deliberadamente complicado; pois além do fato de se vincular à verossimilhança de outros trabalhos que explorem as capacidades sobre-humanas de um indivíduo, ela tem que ser construída de forma a envolver o público, sem cansá-lo ou deixá-lo confuso. É claro que, no início, dúvidas surgem para todos os lados. Esta é uma temporada, em seu cerne, de apresentação: há muito a ser explicado, a escolha de divagar sobre cada uma das subtramas num ritmo não tão acelerado, mas dinâmico, foi um acerto em cheio tanto por parte das irmãs quanto por parte de J. Michael Straczynski (Babylon 5), também criador do show.

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O cenário é imersível, disso não posso discordar. A simples decisão de criar uma vasta mitologia que envolve a arquitetação de regras e mundos novos é animadora. Até mesmo a transgressão dessas leis é algo a ser planejado com cuidado. Mas a série é tão crua – no sentido de faltar algumas lapidações principalmente para o entendimento de conceitos próprios – que alguns de seus fundamentos são complexos de digerir. Leva tempo até os detalhes serem apreendidos, sobre o que está acontecendo e o que isso significa para as pessoas envolvidas. 

Esta crueza da qual falei vem também das técnicas utilizadas para a concretização da série. O roteiro de cada um dos doze episódios foi escrito antes mesmo das gravações começarem para que possíveis furos fossem ajeitados e varridos para debaixo do tapete. Mas estamos falando aqui de oito subtramas individuais e uma arquitrama principal, e nem todos os deslizes poderiam ter sido impedidos, principalmente no tocante de comunicação entre os personagens e suas ambientações existirem em cenários remotos. A maioria destas sequências se resume aos atores aparecendo em cenas, sem realmente entender quem mais pode vê-los e até que ponto eles conseguem interagir com outras pessoas. A priori, podemos entender estes acontecimentos como arquétipos da consciência que tanto vemos em obras de animação, por exemplo, mas o simbolismo e a ideia vai muito além disso. Eventualmente as regras se mostram detalhadas, mas isso também dá margem para a série cair nos próprios erros.

A compreensão não é fácil – fator que eleva o nível da série bastante. Sense8 traz muitos ideais metafísicos e psicológicos para criar um cenário entendível, estando em aversão constante a diálogos superexpositivos e sequências banais, a ponto de suspeitarmos que a série se baseia em intrigas e confusões para nos envolver. Jonas (uma muito bem-vinda presença de Naveen Andrews) é a embocadura primária que explica o que é ser um sensate, mas o personagem poderia ter sido melhor explorado. Seu potencial é inefável e, depois de um breve momento de insight no segundo episódio – coisa que, dentro deste mundo, ocorre de forma rápida – temos uma explosão narrativa que culmina em What’s Going On? (Episódio 04).

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O que realmente funciona e ofusca os deslizes é que, neste ponto da história, os personagens constroem uma conexão muito forte com o público, mostrando-se tão confusos quanto nós e se perguntando o porquê de tudo aquilo estar acontecendo.

A série é essencialmente verborrágica. Como primeira temporada, creio que esta saída tenha sido a mais coerente. Somos primeiramente apresentados a todos os backgrounds possíveis, aos protagonistas e antagonistas, aos heróis e vilões – livres do maniqueísmo que costuma acompanhar narrativas deste tipo – às viradas e aos beats, para enfim culminar no clímax principal. Os futuros anos de Sense8 terão mais tempo para se adaptar ao que promete, mas isso não significa que não seja emocionante. Temos algumas sequências de ação que realmente usam e abusam da premissa principal, principalmente a que ocorre no oitavo capítulo, intitulado We Will All Be Judged by the Courage of Our Hearts. A cena é construída quase perfeitamente, trazendo-nos surpresa e felicidade ao mesmo tempo: dado ao que está acontecendo – uma fuga em alta velocidade – não é possível considerá-la uma obra-prima do gênero quando comparada a outras, mas este não é o foco. A catarse ocorre pelo fato dos personagens sensates estarem em harmonia, todos cooperando e trabalhando junto, colocando em prática suas habilidades e trazendo, pela primeira vez, equilíbrio a um cenário caótico.

O ritmo aqui é um problema, infelizmente. E por vezes, os episódios destoam entre si e podem causar um cansaço no público. Mas como o tempo aqui é destinado para os personagens e para diálogos existencialistas sobre seus temores, seus pesadelos e seus sonhos, tudo – ou pelo menos a maior parte – é justificável. Os protagonistas têm o tempo necessário para se relacionarem e para criarem laços inquebrantáveis com o público e entre si, tudo pincelado com temas de cunho social, alguns até considerados tabus. É interessante citar que Sense8 é uma das poucas séries cujo elenco é diversificado ao extremo, principalmente no tocante à comunidade LGBTQ, a qual entre em peso na série.

Sense8 é uma série com um incrível potencial. Talvez sua primeira temporada tenha pecado quanto ao tempo de duração de apresentação dos personagens e de sua mitologia, mas, como supracitado, os deslizes são justificáveis. Assim como os protagonistas, estamos gradativamente absorvendo as brechas e as tramas que envolvem cada um deles. E só podemos esperar que todo este material bruto encontre uma lapidação digna daquilo que promete – quem sabe no próximo ano as coisas não atinjam o ápice?

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