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Crítica | Servant: 1ª e 2ª Temporadas – A maçã podre da Apple

A câmera mostra uma maçã em uma mesa. Ela se aproxima lentamente enquanto um jogo de iluminação torna a atmosfera mais sombria. Uma música perturbadora repleta de graves e agudos súbitos vai e vem. Uma mão pega a maçã. A trilha explode. Fim da ação. 

Emocionante, não é? Eu sei que não, masTony Basgallop acredita que sim, pois por duas temporadas inteiras, Servant, a maçã podre da Apple TV+ se trata somente de elementos tacanhos como esse, além de uma miríade inacreditável de outros problemas. 

É muito raro eu abordar uma obra audiovisual dessa forma, ainda mais usando uma linguagem direta em um texto crítico.

Mais raro ainda, é uma obra audiovisual me deixar tão inconformado a ponto de me retirar da minha aposentadoria, pois eu realmente acreditava que nunca mais escreveria sobre entretenimento na minha vida. Mas aí eu tive a infeliz ideia de ver Servant. Lá se foram dez horas que não voltam mais, mas que me motivaram a colocar as mãos no teclado novamente. 

Rupert Grint se esforça, mas seu personagem é um caso perdido

Surrealismo de Taubaté

A premissa de Servant é realmente interessante. Na série, acompanhamos a família Turner que vive o luto da morte do seu bebê de apenas 13 semanas. Em uma ideia para amenizar a dor, Dorothy Turner (interpretada por uma Lauren Ambrose no extremo overacting) utiliza um boneco extremamente realista de um bebêzinho e passa a cuidá-lo como se fosse seu próprio filho. 

Temendo destruir ainda mais a psiquê da esposa, o chef culinário Sean (Toby Kebbell bastante confuso em entender a qualidade duvidosa do roteiro), apoia a ideia. No auge disso, decidem contratar uma babá para cuidar do boneco: a jovem bizarra e misteriosa Leanne (Nell Tiger Free, a verdadeira milagreira da série).

Sem julgar a dor do casal, principalmente de Dorothy, Leanne cuida do pequeno Jericho como se fosse um bebê de verdade, mas Sean sabe que tudo se trata de uma loucura e passa a duvidar também das intenções da bizarra babá. Porém, tudo muda quando subitamente Jericho se torna um bebê real, como se a própria criança falecida tivesse voltado à vida. 

Entretanto, Sean sabe que Jericho está morto e que aquilo não pode ser real. Há alguma coisa sobrenatural por trás disso e Leanne só pode ser o único elo que liga tudo isso com as coisas bizarras que começam a acontecer na casa deles. Ou será que não?

Cada temporada de Servant conta com dez episódios de cerca de trinta minutos cada. Logo, assim como toda série que se preze, se espera um ritmo decente de elementos acontecendo em cena, com todos se conectando resultando em um ápice narrativo que conclui um arco ao mesmo tempo que deixa pontas soltas para serem desenvolvidas em temporadas posteriores. 

Séries prestigiadas como Breaking Bad e Game of Thrones funcionam dessa forma. Filmes divididos em duas partes como Piratas do Caribe e Matrix também funcionam dessa forma. A narrativa clássica é feita desse modo desde as pessoas começaram a contar histórias umas às outras. Mas para Tony Basgallop o clássico é chato demais, então ele tenta reinventar a roda.

É um fato, Servant começa muito bem. O episódio piloto, dirigido com muita eficácia por M. Night Shyamalan, apresenta a atmosfera de estranheza na casa Turner, as atuações fora de tom de modo proposital, sobre a aura misteriosa que repousa em Leanne e seus entraves desconfortáveis com Sean. Tudo funciona, pois o mistério é estabelecido e te engaja para descobrir o que raios vai acontecer, mas a verdade é que durante boa parte da temporada nada acontece. 

Basgallop escreve a narrativa em círculos. Sean, que seria a presença do público nesse universo bizarro, começa agindo como um ser humano normal, tentando compreender as regras desse jogo insano que acontece em sua vida após Leanne surgir. Mas durante todas as cenas que existem algum confronto entre ele e Leanne, o diálogo se torna surreal sempre funcionando da mesma forma. 

Sean encontra Leanne, geralmente na cozinha da casa, e a confronta. “O que está acontecendo, Leanne? De quem é esse bebê que está na minha casa?”. Ela então faz cara de mistério ou paisagem, ignora a pergunta e solta alguma frase aleatória.

Sean então reage com uma expressão de “mas que porra é essa?” e então deixa Leanne sair de cena. Ele não vai atrás dela e no encontro seguinte de ambos, a discussão não é retomada. Isso acontece sucessivas vezes nas duas temporadas – na 2ª, o problema é ainda maior. 

Não há a menor lógica, nenhum mistério é resolvido e os elementos sobrenaturais são completamente incertos. É como se nem mesmo o showrunner fizesse ideia do que está escrevendo pelo descuido completo com a obra. Não dá para usar a carta de que se trata de algo “surrealista” quando até os filmes de Jodorowsky conseguem fazer mais sentido que Servant. Isso não é ser cult, ser inteligente, é ser simplesmente preguiçoso.

Toda obra de terror possui regras em sua diegese, mas Basgallop ignora todas as que tenta criar aqui, ou simplesmente as esquece. Na 1ª temporada, por muito tempo, Sean é atormentado com farpas ou com a perda de seus sentidos, revelando até mesmo uma tentativa curiosa de horror corporal. O interessante é que Sean sabe que há algo de errado, que as farpas gigantescas enfiadas em sua bunda não fazem sentido algum, mas ele se comporta acreditando que as farpas estão saindo do piso e das paredes da casa. 

Todas as vezes que um elemento sobrenatural surge na narrativa, os personagens se espantam e depois tratam como se fosse a coisa mais ordinária do mundo. Seja o solo de cimento do porão rachando com violência na frente de um personagem, o uso recorrente do Jericho real virar um boneco e vice-versa, portas se trancando sozinhas, um cachorro sarnento brotar dentro de um quarto, entre outras maluquices que não fazem sentido. 

Literalmente ninguém investiga nada. Nem mesmo quando a narrativa revela que Leanne pode não ser quem afirma ser. Sean descobre essa informação importantíssima e confronta Leanne somente vários episódios depois. Enfim, as atitudes dos personagens não condizem com o menor raciocínio lógico ou o limiar do bom senso, principalmente quando o personagem do tio de Leanne, o bizarríssimo George (Boris McGiver em ótimo momento) surge na casa dos Turner. 

O Ataque dos Crentes 

Conforme a narrativa progride ao longo dos vinte episódios disponíveis (e tem ainda mais por vir), Basgallop aposta no clichê tradicionalíssimo dos fanáticos de uma seita religiosa milagreira, mas também violenta, restrita e misteriosa. 

A seita de Servant não tem coisas muito originais para apresentar, além do conflito de Leanne com eles. Aliás, Leanne é uma personagem inconstante, não superando a bagunça completa que é Julian (Rupert Grint), irmão de Dorothy, que nunca sabe se está contra ou a favor de toda a loucura dos Turner. 

A primeira temporada, mesmo arrastada e redundante, tem momentos mais inspirados que a segunda. Além do ótimo primeiro episódio, há o episódio de flashback explicando como a morte de Jericho aconteceu revelando um ponto alto do roteiro e direção com um paralelo criativo com um pedaço enorme de carneiro apodrecendo na cozinha no decorrer de alguns dias. Fora isso, a abordagem de como se dá a morte, é bastante original e atual, além de trazer alguma consequência entre a relação de Leanne com Dorothy que começa a azedar. 

Mas esse pequeno episódio, realmente muito bem dirigido e interpretado, é um ponto fora da curva para Servant que insiste na preguiça e mediocridade. Simplesmente não compensa as cinco horas dedicadas para ver uma temporada que praticamente não sai do lugar. 

Entretanto, enquanto realmente a primeira temporada é medíocre, nada pode te preparar para a completa insanidade da segunda na qual Basgallop cria soluções simplesmente inacreditáveis para resolver conflitos importantes da temporada anterior. Sem entregar muita coisa, acredite que um delivery falso de pizza é usado como artifício de espionagem para reencontrar determinado personagem. 

Os personagens que já não eram muito aprazíveis simplesmente se tornam detestáveis. Seja por virarem uma completa caricatura de si mesmos como Dorothy trazendo a pior atuação de Lauren Ambrose em sua carreira a ponto de se tornar irritante ou com Sean que se torna uma verdadeira ameba não servindo para absolutamente nada. 

Muito do tempo da segunda temporada é dedicada para resolver um problema desinteressante, os elementos sobrenaturais se tornam raros e os clichês começam a pipocar em todos os cantos. 

Como toda a narrativa se centra na casa dos Turner, a encenação também começa a se tornar repetitiva com personagens gritando uns pelos outros a cada andar diferente da casa – faça um jogo de bebidas e tome uma dose para cada vez que alguém grita “Sean!” em algum episódio. 

Felizmente, há algum desenvolvimento interessante para Leanne, mostrando um arco de libertação promissor para a próxima temporada que, com certeza, não vai cumprir o potencial que a personagem possui.

Ao mesmo tempo que Leanne passa por essa jornada de rebeldia, ela aceita os abusos vindos de Dorothy e dos Turner em geral, ignorando a natureza vingativa que ela possuía na temporada anterior. 

Mais triste ainda é quando há a tentativa de revelar mais do passado de Leanne abordando a relação difícil que ela tinha com sua mãe abusiva – o que é um paralelo óbvio com Dorothy na 2ª temporada.

Tudo isso resulta no clímax mais canastrão da série, com Leanne comendo um bolo de modo animalesco enquanto olha com ódio para um manequim que, em cena e psicologicamente, representa a sua mãe cruel para provar que ela é sim “especial”. Claro, tudo isso acompanhado de relâmpagos e uma trilha musical exagerada. É simplesmente ridículo.

Todos os problemas aferidos já na primeira temporada se tornam piores na segunda com o desenvolvimento de diálogos beirando o risível. Todos os personagens aceitam as transgressões de Dorothy e, mesmo com a oportunidade de impedi-la de cometer mais loucuras ou de se salvarem da situação, nada fazem. 

As coisas simplesmente acontecem e se repetem exaustivamente. Boa sorte tentando prestar atenção quando Dorothy faz alguma chantagem ou insiste em negociar com personagens insanos como George. 

Tem que beber muito para aguentar essa série

À Espera de um Milagre

Mesmo com o nome de M. Night Shyamalan na produção executiva e na direção de alguns episódios, Servant não vale o tempo nem mesmo dos fãs mais ferrenhos do cineasta repleto de altos e baixos. 

Basgallop teve a chance de provar que tinha uma história interessante para contar, mas certamente não é o caso. Ele teve uma ideia que sustentaria um bom filme de até duas horas, mas nunca uma série que agora já conta com dez horas e ainda tem mais duas temporadas programadas para encerrar essa narrativa. 

Servant é mesmo surreal e não vale o tempo nem mesmo durante seus momentos mais inspirados. A sensação que permanece é de tempo perdido pela demora e repetição de eventos que ocorrem para inflar temporadas que poderiam muito bem ter somente cinco episódios. 

A esse ponto, crer que Servant entregará algo satisfatório em suas próximas temporadas é realmente estar à espera de um milagre. E, aqui, não há igreja dos santos menores que resolvam esse verdadeiro desastre.

Servant (EUA, 2019-2020)

Showrunner: Tony Basgallop
Direção: M. Night Shyamalan, Nimrod Antal, Ishana Shyamalan
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Lauren Ambrose, Toby Kebbell, Nell Tiger Free, Rupert Grint, Boris McGiver, Tony Revolori
Gênero: Drama, Suspense
Emissora: Apple TV+
Episódios: 20
Duração: 30 min.

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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