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Crítica | Black Mirror – Temporadas 1 e 2

O formato da antologia é uma das formas de narrativa mais vantajosas e eficientes do meio audiovisual. Às vezes, uma história é longa demais para um formato mais curto, ou simples demais para algo que transcenda a definição de longa-metragem ou múltiplas temporadas. Além da Imaginação foi o ápice dessa coleção de histórias, onde cada episódio apresentava uma trama fechada que mantinha a assinatura de Rod Serling ao longo de suas reviravoltas e personagens marcantes.

Agora, ainda que o formato tenha se espalhado por diversas produções da televisão mundial (notavelmente, por Ryan Murphy e seu American Horror Story), a série que carrega o manto de Serling mais honradamente e serve como a definitiva versão contemporânea de sua obra prima é Black Mirror, do britânico Charlie Brooker. O título da série vem da esperta sacada com aparelhos eletrônicos, mas especificamente os smartphones e monitores de computador, já assumindo que sua antologia é centrada na influência da tecnologia na sociedade, jogada em um cenário de ficção científica que flerta com a distopia e o cyberpunk.

Tamanho o sucesso da série, a Netflix lançará uma nova temporada este ano, então é o momento perfeito para conhecer pela primeira vez a criação de Brooker.

Aqui, vamos dar uma olhada nos episódios que compoem as duas temporadas.

1ª Temporada

1 – Hino Nacional

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nota-4,5

O piloto da série apresenta a trama mais “simples” e contemporânea da série, passando longe de grandes inovações tecnológicas ou ficção científica pesada. Aqui, o Primeiro-Ministro Michael Callow (Rory Kinnear, excelente) é chantageado quando a princesa Susannah (Lydia Wilson) é sequestrada por uma figura misteriosa, que ameaça matá-la a menos que o político vá na televisão ao vivo e faça sexo com um porco vivo.

Isso mesmo. Essa ameaça absurda e os vai-e-vem do governo britânico para evitá-la tomam boa parte de Hino Nacional, que concentra-se principalmente no furor midiático e ameaças invisíveis, que garantem um episódio intenso e corrido nesse quesito. É também a primeira amostra do que é Black Mirror: uma sátira perturbadora que não tem medo de explorar decisões extremas e levar seus personagens aos mais obscuros e bizarros cantos de suas mentes, e por essa linha de raciocínio, não é preciso entrar em território de spoilers para descobrir o que acontece no desfecho do episódio.

O que mais importa, porém, é o motivo pelo qual tudo isso ocorre. O sequestrador tem um ponto a provar, algo digno do Coringa de A Piada Mortal e do John Doe de Seven – Os Sete Crimes Capitais, e é realmente desconfortável assistir ao que ocorre, ainda mais quando temos a revelação dos motivos que levam o soturno antagonista a armar esse circo midiático. Todos os roteiros tem a assinatura de Charlie Brooker, e cada uma das histórias mira um elemento tecnológico para desenvolver sua visão perturbadora.

A mídia aqui é o primeiro alvo, mas Brooker ainda iria mais longe nos episódios a seguir.

2 – 15 Milhões de Méritos

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nota-5

A grande distopia da série, 15 Milhões de Méritos abraça o espírito de George Orwell e Aldous Huxley ao nos apresentar a uma sociedade que está sempre pedalando. Seja assistindo aos mesmos programas de televisão ou jogando os mesmos jogos repetitivos de sempre, todas as pessoas nesse ambiente pedalam em bicicletas a fim de gerar créditos pessoais e energia para a instalação, controlada por autoridades nebulosas. Nunca aprendemos nada sobre o mundo exterior ou algo além, mas fica implícito ser uma realidade alternativa.

Nesse cenário, conhecemos Bing (Daniel Kaluuya), um “pedalante” entediado que acaba se interessando por uma colega, Abi (Jessica Brown Findlay), e parece decidido a ajudá-la a ser selecionada pelas autoridades para participar de um show de talentos popular e escapar da rotina das pedaladas.

Pode parecer uma premissa boba, mas basta pensarmos no incidente com o porco para lembrarmo-nos que Black Mirror tem a capacidade de ser incrivelmente sombrio. Aqui, vem na forma de humilhação pública e a obsessão da sociedade do espetáculo, que é bem representada através do show que é um misto de The Voice e Masterchef, com jurados ainda mais sarcásticos e impiedosos do que os da vida real. A jornada de Bing é outra grande virada do texto de Brooker, que brilhantemente vira do avesso suas intenções de tornar-se um símbolo revolucionário após a irônica conclusão, que revela como absolutamente tudo pode tornar-se comerciável.

Em um nível técnico, é a maior produção de todos os episódios, e que ainda assim, surpreende pela simplicidade. O design de produção de Joel Collins e Daniel May aposta em paletas de cor cinza e imagens chapadas, dando espaço certeiro para todas as gigantescas telas de televisão e adereços simplórios, assim com o figurino de Jane Petrie é sábio em apostar em trajes de moletom para todos os “pedalantes”. A direção de Euros Lyn também aproveita bem o espaço para criar enquadramentos estranhos e inventivos, como o plongée invertido para as tomadas do elevador ou as luzes ameaçadoras do gigantesco palco do talent show.

3 – Toda a Sua História

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nota-5

Enter the cyberpunk.

Um dos temas no qual Black Mirror se sai excepcionalmente bem é ao misturar tecnologia com relacionamentos (que renderia outra obra-prima, no premiere da segunda temporada), e aqui somos apresentados a um futuro onde a maioria da humanidade registra todos os seus acontecimentos diários com uma câmera instalada em seus globos oculares – uma tecnologia conhecida como Grain – e os armazena em vídeo, podendo literalmente acessar suas memórias instantaneamente e até mostrar projetá-las em televisores e hologramas.

É o setting perfeito para uma trama de suspense, ação e principalmente, espionagem moderna, mas o que torna este episódio tão especial é o fato de nos concentrarmos no mundano e nas situações cotidianas. Nada mais envolvente do que pegar essa premissa cabeluda e lhe inserir no clássico cenário da traição, no caso a suspeita de Liam (Toby Kebbell) de que sua esposa Ffion (Jodie Whittaker) esteja envolvida com um antigo namorado, Jonas (Tom Cullen).

Essa paranóia e obsessão que lentamente se apoderam de Liam são interessantíssimas, sendo um excelente exemplo de drama humano que ganha força extra através do elemento fantástico. O Grain é um mero instrumento que ajuda a tornar a situação mais extrema e desesperadora, ainda mais quando a narrativa nos surpreende com a dimensão que a história alcança, tendo início de uma observação tão minúscula durante um jantar entre amigos. A performance de Toby Kebbell é fantástica ao transmitir a obsessão quase psicopata de Liam, e somos capazes de ficar ao seu lado mesmo durante os momentos mais sombrios e tristes.

A ideia do Grain é outro elemento sensacional. O recurso de acessar memórias para rever tiques faciais em uma entrevista de emprego, mostrar uma festa incrível para amigos ou o deprimente momento em que Liam e Fion transam enquanto revivem memórias de outros eventos são apenas alguns dos momentos que o fabuloso texto de Brooker nos traz aqui. É também, por incrível que pareça, um dos poucos episódios da série que termina com uma catarse otimista e necessária, ainda mais quando percebemos que o abuso do Grain foi um dos grandes responsáveis pelos problemas dos personagens – na lógica da série, a ignorância seria uma benção para o atormentado Liam.

2ª Temporada

1 – Volto Já

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nota-5

Ainda que todos os episódios tenham uma relação próxima, Volto Já é praticamente uma sequência espiritual de Toda a Sua História. A segunda temporada começa com o pé na porta naquele que definitivamente é um dos melhores e mais envolventes episódios de toda a série, com Charlie Brooker já demonstrando um amadurecimento estilístico e temático muito mais forte aqui.

A história começa nos apresentando ao casal Martha (Hayley Atwell) e Ash (Domhnall Gleeson), que vivem bem quando o moço não está totalmente mergulhado em seu smartphone. Após um acidente, Ash é morto e Martha entra em um processo de luto terrível, o que leva sua amiga a lhe apresentar um aplicativo experimental que permite manter o contato com um falecido. Não exatamente, na verdade, já que o aplicativo coleta todas as informações e dados online que a pessoa um dia compartilhou, criando assim uma cópia comportamental, vocal e até física de seu referencial. 

Basicamente, é uma versão mais dark, complexa e corajosa de Ela – e dado o fato de que este episódio foi exibido no começo de 2013, não duvido que Spike Jonze tenha se inspirado aqui para seu romance sci-fi. É o tema mais delicado que Black Mirror toca até então, com a performance sensacional de Hayley Atwell demonstrando as mudanças em Martha e seus sentimentos complicados em aceitar uma cópia virtual de seu falecido namorado. A relação entre a viúva e o que começa como um mero aplicativo de smartphone é fascinante, com diálogos honestos e inteligentes de Brooker e a direção delicada de Owen Harris garantindo uma experiência marcante.

Por tratar-se de Black Mirror, é de se esperar que a situação tome voltas sombrias, e é justamente o que ocorre quando esta nova versão de Ash começa a revelar suas imperfeições, mas matenho a zona livre de spoilers para um maior aproveitamento do espectador. Resta dizer que é uma história importante, bem contada e imprevisível.

Charlie Brooker em sua melhor forma.

2 – Urso Branco

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nota-4,5

Se as duas temporadas de Black Mirror fossem Game of Thrones, este seria o episódio 9. O mais ambicioso, grandiloquente e épico de todos os episódios, Urso Branco é também um dos mais chocantes. Quanto menos se souber sobre, melhor. Por isso, tentarei descrever o mínimo possível, mas podemos começar dizendo que tem início quando Victoria (Lenora Crichlow) acorda em uma casa bagunçada sem saber o que aconteceu ou quem é, apenas para ser surpreendida na rua por assassinos a perseguindo enquanto multidões de estranhos acompanham a situação fotografando e gravando tudo em seus celulares.

Temos indícios do que parece ser um “apocalipse de smartphones” quando a situação revela ter desolado uma porção da cidade, e agora Victoria precisará descobrir o que diabos está acontecendo. É uma sensação que toma conta do espectador também, dada a natureza bizarra da situação e os flashes de memória que fornecem pequenas pistas para Victoria, que parece ter lembranças fundamentais para a resolução desse ataque que parece um misto de Uma Noite de Crime com os longas de George A. Romero.

Mesmo que perdidos quanto ao significado de tudo isso, já é brilhante a crítica explícita de Brooker à sociedade do espetáculo e de uma população viciada em seus smartphones e a mania de registrar tudo, completamente alheios ao fato de termos pessoas lutando pela vida em um cenário hostil. É um universo verdadeiramente bizarro que Brooker criou neste episódio, e que definitivamente vai chocar o espectador quando enfim revelar a real natureza de suas ações e eventos, que envolve a presença de um paradoxo perturbador.

Não é um episódio perfeito (ainda que chocante, não é a mais original das reviravoltas), mas é certamente o mais ambicioso e desafiador.

3 – Momento Waldo

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Mesmo que seja o episódio mais fraco da série, ainda é uma obra de qualidade e muito eficiente em sua proposta. É o episódio em que Brooker finalmente resolve falar um pouco de política, apresentando-nos ao personagem de animação Waldo, que é dublado e atuado via motion capture pelo comediante Jamie Salter (Daniel Rigby). Uma mistura entre o ursinho Ted e os personagens de South Park, Waldo ataca candidatos ao Parlamento inglês durante um período de eleição, e seus discursos chulos e apelativos são tão bem sucedidos que ele próprio acaba tornando-se um candidato inesperado à eleição.

É um episódio que carece do ritmo agitado e das ideias mais mirabolantes que Brooker utilizava tão bem com a ficção científica, tendo aqui como principal elemento do gênero, a animação de Waldo. Há uma questão muito bem trabalhada quanto à personalidade dupla de James e Waldo, assim como seu sentimento de vazio por sua maior realização profissional ser um boneco animado que poderia ser controlado por qualquer um, mas é o mais próximo que temos do espírito dos demais episódios – sem mencionar a sensacional cena pós-créditos, claro.

De resto, Momento Waldo é uma eficiente sátira política. A falácia agressiva e apolítica de Waldo garante momentos hilários, ainda mais pelo fato de termos uma animação interagindo grosseiramente com políticos comportados. A forma como a trama se desenrola, com os produtores do programa de TV do Waldo sendo contactados pela CIA, que veem nisso uma oportunidade nebulosa, garante um dos pontos mais altos do episódio.

Especial – Natal Branco

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nota-5

Que sorriso cínico o showrunner Charlie Brooker deve ter esboçado ao ter sido liberado para fazer um especial de Natal de Black Mirror. De todas as séries por aí, essa é a mais improvável para ganhar um especial dedicado a ceias natalinas, reuniões de família e trocas de presente sobre a luz de uma lareira. Fico feliz que isso de fato tenha acontecido, já que Natal Branco é um desfecho absolutamente excepcional para a fase britânica da antologia.

A história começa com dois homens, vividos por Jon Hamm e Rafe Spall, isolados em uma instalação no gelo. Sem contato com o mundo exterior, os dois preparam uma ceia de Natal enquanto começam a compartilhar contos sobre suas vidas passadas. Primeiro, vemos o passado de Hamm como um misterioso analista de relacionamentos, um orientador que acompanha jovens tímidos via transmissão de vídeo enquanto estes vão a festas conhecer garotas e se dar bem nos flertes. Hamm acompanha tudo por vídeo, enquanto transmite a visão de seu “orientado” para um seleto grupo de outros homens.

A segunda história também é centrada no personagem de Hamm, que relata ao colega seu bizarro emprego. Nele, vemos uma tecnologia conhecida como Cookie, que permite criar uma cópia virtual da mente de uma pessoa, com o único propósito de fazê-la cuidar de tarefas domésticas e organizar a agenda de seu empregador, e os métodos utilizados por Hamm nesse “treinamento” são horrorizantes, e essenciais para o desenrolar do restante da trama. 

Por fim, finalmente o personagem de Rafe Spall se abre. Em sua crônica, vemos a melancólica situação em que sua namorada se viu surpreendida por uma gravidez inesperada. Ainda que Spall fique maravilhado com a notícia, ela o rejeita e o bloqueia de sua vida através de um aplicativo chamado Olho Z, que impede que Spall a veje em absolutamente qualquer lugar, seja pessoalmente ou por fotos, vídeos ou qualquer outro meio virtual com sua imagem.

A melhor maneira de descrever Natal Branco seria compará-lo com uma boneca matrioshka. Cada uma dessas histórias é exibida e narrada numa sequência específica que vão deixando diversas pistas sobre o quadro maior da trama; seja pelo comentário aparentemente vago sobre um relógio na parede ou a própria introdução de todas essas diferentes formas de tecnologia, que convergem-se num clímax impressionante que finalmente esclarece ao espectador o contexto no qual os personagens de Hamm e Spall se encontram. Brooker reclica muitas das ideias exploradas anteriormente, especialmente as de Toda Sua História e Urso Branco, mas nunca soa como uma repetição dado o novo contexto e o ponto de vista alternativo aqui.

Sem dúvida, um dos melhores episódios da série.

Através do Espelho Quebrado…

Black Mirror é algo realmente especial. Não só é o perfeito sucessor e a evolução natural de Além da Imaginação, mas é uma das obras audiovisuais que melhor fez uso de conceitos de ficção científica ambiciosos e que oferece um olhar sociológico necessário e assustador sobre o avanço da tecnologia na Humanidade.

As histórias de Charlie Brooker são criativas e originais, e mal posso esperar para explorar mais desse universo quando a nova temporada chegar na Netlix…

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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