Cinema

Crítica | Só por Uma Noite dilui sátira social em formato de comédia romântica

Crítica de Só por Uma Noite: comédia romântica de Will Gluck retrata conformidade e ausência de subversão diante de regras absurdas.

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
5 min de leitura

Se fosse um filme norte-americano dos anos 1970 sobre autoritarismo e subversão diante do exercício ilegítimo do poder, Só por Uma Noite (dirigido por Will Gluck, de Todos Menos Você e Amizade Colorida) teria um desfecho bem diferente. Nos filmes daquela época, havia uma incompatibilidade fundamental entre quem desafiava o poder e quem o exercia; era uma diferença impossível de conciliar. Não havia “adequação possível” à tirania: um dos lados teria que ceder (ainda que com a própria vida). Qualquer rascunho de distopia encontraria personagens suficientemente determinados a enfrentar as trágicas consequências de sua própria subversão.

Bem, não estamos mais na Hollywood dos anos 1970, mas na da década de 2020, e muita coisa mudou: na sociedade e nos filmes. Os estúdios precisam de viralização e aprovação. Os espectadores também mudaram e não vão ao cinema esperando o mesmo que esperavam as plateias de Sem Destino ou Um Estranho no Ninho. É preciso cuidado com “cenas de sexo” – que eventualmente ofendem ou aborrecem a geração Z. Cada lançamento é uma prova de resistência diante de uma infinidade de suscetibilidades possíveis e isso se reflete diretamente nos roteiros produzidos.

Só por Uma Noite é uma comédia romântica que parte de uma premissa provocativa, mas que é trabalhada com ambiguidade moral reveladora. O filme não é grande coisa, mas como retrato de sua época, é vívido e atraente. Assim como uma parcela significativa do próprio público, seus protagonistas são rebeldes resignados, obsessivamente esforçados em seguir regras que não entendem e com as quais tampouco concordam. Sua covardia é romântica e entediada. Não há revolução possível no universo que o filme enxerga e procura retratar de maneira cômica, mas apenas fixação por conformidade.

Na trama, ambientada na Nova York atual, Allie (Monica Barbaro) é uma cantora de jingles que sonha secretamente com uma carreira nos palcos. Owen (Callum Turner) por sua vez é um dono de pizzaria que planeja casamento com Malika (Maya Hawke). Os dois esperam ansiosos para aproveitar as 12 horas anuais em que o sexo fora do casamento é permitido, uma legislação absurda que provoca todo tipo de desentendimento cômico em boa parte da projeção. Allie e Owen vão se cruzar algumas vezes ao longo da noite, até que a porção “romântico-cômica” do roteiro irá prevalecer e o destino dramático do roteiro parecerá inevitavelmente traçado.

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A primeira metade do roteiro lembra bastante um quadro alongado de programa humorístico ao estilo Saturday Night Live ou Porta dos Fundos: é episódico e se resume a retrabalhar a mesma piada em diferentes situações e lançando mão de alguns coadjuvantes interessantes em participações mínimas (novamente como em sketches de programas de humor), tais como Bobby Cannavale, Nicholas Braun (o primo Gregg de Succession) e até mesmo uma Molly Ringwald difícil de reconhecer à primeira vista (como a mãe de Owen). 

Na segunda parte, o filme assume outra forma: o da “noite interminável”, como já vimos tantas vezes em produções como Depois de Horas, Colateral ou Noite de Crime (uma espécie de versão distópica mórbida deste mesmo roteiro), quando ele apela a lugares-comuns das comédias românticas, como as inevitáveis “transas interrompidas com parceiros errados” e o artifício de edição de cortar abruptamente do ápice de um diálogo para uma cena de pegação.

O que Só Por uma Noite tem de melhor é a crônica social que ele faz de uma sociedade tão submetida às regras impostas pelo poder governamental que todos parecem perder o senso do ridículo, aceitando docilmente as imposições mais arbitrárias e absurdas. Embora mire na onda conservadora da América trumpista, o roteiro é mais abrangente (e mordaz) que isso e aponta também para a obsessão regulatória tipicamente progressista (o slogan “Fuck the Mandate” não está ali à toa). Em sua cena na delegacia de polícia, Allie literalmente esfrega na cara da policial que ela é uma serva da ditadura e que deveria se envergonhar por isso. A funcionária pública se limita a responder que está interessada em sua pensão e pouco além. Ela só “cumpre ordens”.

Esta é uma observação social inteligente, embora o filme rapidamente desista de se aprofundar na crônica e retorne ao andamento esperado do gênero. Barbaro e Turner são um casal interessante na tela e boa parte do interesse depende deles. Mas não deixa de ser espantoso que, ao refletir as neuroses sexuais de uma geração que aprendeu a se adaptar a todo tipo de “regra”, “protocolo” e “padrão de conduta”, o filme não permita em nenhum momento que a subversão seja sequer uma possibilidade. Só por Uma Noite é, ao mesmo tempo, um retrato fiel e um dado do problema. O casal não confronta as regras, apenas trapaceia dentro do que o sistema permite. Amor, sexo e desejo estão perfeitamente assimilados por uma cultura de conformidade burocrática que o filme enxerga com acidez, admitindo ao mesmo tempo que lutar é provavelmente inútil. Triste – mas não necessariamente irreal.

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