Cinema

Crítica | O Fim da Rua recicla ideias e situações para entreter o público

Crítica de O Fim da Rua: com Ewan McGregor e Anne Hathaway, filme de dinossauros de David Robert Mitchell é leve, derivativo e esquecível.

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura

O Fim da Rua, dirigido por David Robert Mitchell (que fez seu nome com o terror barato Corrente do Mal, em 2014), é uma diversão relativamente garantida para quem espera pouco de uma matinê cinematográfica com movimentada ação física e algum suspense. Ao revisitar o tema dos dinossauros com uma premissa inconsistente e que resiste mal a questionamentos de lógica interna (mas que aqui deixaremos de lado por causa dos spoilers), seu roteiro nos faz lembrar como a ideia original de Parque dos Dinossauros, do falecido escritor norte-americano Michael Crichton, era simples e poderosa: bastava aceitar que “dinossauros haviam sido recriados em laboratório” para embarcar em todos os desdobramentos subsequentes. O cérebro do espectador não precisava ser “desligado” depois disso, como parece ocorrer em alguns momentos por aqui.

Na trama, ambientada numa região suburbana de Michigan, em meados da década de 1980, Greg Platt (Ewan McGregor) e Denise Platt (Anne Hathaway) formam um casal em crise com dois filhos adolescentes. Tanto o pai quanto a mãe têm seus segredos, o que mantém o ambiente familiar em estado de crise latente. Enquanto ele faz bicos para completar o orçamento, ela ambiciona secretamente uma carreira como escritora. Um dia, essa rotina é quebrada por um acontecimento completamente fora do horizonte: seu bairro inteiro é magicamente transportado para a era dos dinossauros, e todas as preocupações cotidianas são deixadas em segundo plano, quando pais, filhos e vizinhos precisam lutar pela sobrevivência em um ambiente totalmente hostil e desconhecido.

O elenco se apoia na dupla de protagonistas e dá pouco espaço para os coadjuvantes (entre eles, o ótimo P.J.Byrne, inesquecível em O Lobo de Wall Street, aqui fazendo o vizinho chato que remete diretamente ao personagem interpretado por Michael McManus em Poltergeist: O Fenômeno, de 1982, outro filme no qual o ambiente do subúrbio é perturbado por acontecimentos que desafiam o senso comum). O trabalho da direção é essencialmente ligeiro, vago e superficial. Certamente McGregor e Hathaway prosseguiriam normalmente suas carreiras muito bem-sucedidas se dispensassem Greg e Denise. Como não o fizeram, o filme pode contar com a presença naturalmente reconfortante, familiar, do ator escocês, enquanto a atriz norte-americana sofre mais com momentos de antipatia como a Penélope implicante e frustrada – embora ao longo da trama ela tenha sua própria oportunidade de redenção. É como se assistíssemos a versões confiáveis (no entanto, genéricas) de ambos. 

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Porém, de alguma maneira, talvez a superexposição de Anne Hathaway de um ano para cá, sua presença marcante em produções grandes e que, por isso, rapidamente são incorporadas à cultura de memes e redes sociais, já aconteça um desgaste de sua imagem cinematográfica – porque, a despeito da diversidade dos filmes, é difícil resistir à impressão de que ela já repete uma personalidade de “princesa amadurecida” na tela que vai se tornando repetitiva com a sucessão dos filmes e personagens nem tão “diversos” assim no uso que fazem da atriz (sempre o mesmo cabelão, a mesma polidez calculada). Uma pausa talvez lhe fizesse bem em 2027.

O fato é que, de forma geral, o que O Fim da Rua tenta fazer é um apanhado leve (e inteligentemente curto na metragem, de pouco mais de 90 minutos) de uma lista de outros filmes de sucesso tendo o interesse por “dinossauros” e “física teórica” (portais dimensionais, buracos de minhoca, etc.) como um passeio turístico que o roteiro faz, novamente sem se aprofundar em nada e tampouco conceder aos temas uma abordagem mais original. Se a própria franquia Parque dos Dinossauros encontra dificuldade em sair da rotina “seres humanos fugindo de dinos” em suas produções mais recentes, o que o roteiro de David Robert Mitchell poderia fazer, quando ele também está ocupado em prestar um tributo tímido à América gloriosa dos anos 1980, à familiaridade da vizinhança e àquele sentimentalismo tão spielberguiano em relação ao subúrbio, o qual por sua vez já emprestara ambientação para Super8 (por exemplo), do aqui produtor J.J.Abrams – no caso, com Ohio no lugar de Michigan e a década de 1970 no lugar da de 1980?

O que temos finalmente é uma superposição de camadas sobre camadas, de referências sobre referências e de filmes sobre filmes, num jogo de espelhos onde aparentemente Mitchell presta tributo a Abrams, que prestara anteriormente o seu tributo pessoal a Spielberg e sabe-se lá onde isso iria parar. Se mais filmes com dinossauros virão no futuro, talvez uma nova perspectiva seja necessária – algo que supere a rotina da fuga e do jogo de esconde-esconde tantas vezes já filmado. Michael Crichton não está mais aqui para auxiliar. Até lá, produções como O Fim da Rua oferecerão sobre o tópico nada além de uma diversão leve, bem produzida e facilmente esquecível.

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