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Crítica | Sociedade dos Poetas Mortos – A Liberdade das Paixões

O descobrimento do eu.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
27 de janeiro de 2018 · 6 min de leitura
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Crítica | Sociedade dos Poetas Mortos – A Liberdade das Paixões

Um dos maiores clássicos da adolescência, é também uma das maiores realizações da vida de Peter Weir. Campeão de citações entre os tantos “Carpe diem! Aproveitem o dia, garotos!” ou “Ó, capitão, meu capitão!”, Sociedade dos Poetas Mortos é basicamente um filme obrigatório na vida de qualquer um. Não somente pela poderosíssima mensagem, mas pela performance inesquecível de Robin Williams oferecendo o melhor de si para dar vida ao professor de inglês John Keating.

Saindo do enorme fracasso que foi o ótimo A Costa do Mosquito, Peter Weir se reafirmou como artista em um filme simplesmente apaixonado pelas artes e, principalmente, a expressividade humana diante de formas moderadas de opressões conservadoras.

Os Poetas Vivos

O roteiro de Tom Schulman é um dos mais belos e trágicos já feitos. A história que acompanha um grupo de adolescentes na Academia Welton, um colégio interno extremamente rígido, é bem capaz de transformar a vida de qualquer espectador. Schulman, como todo bom roteirista clássico, estabelece o grupo com apenas um enorme conflito: a castração das paixões do período mais inquieto e incerto da vida de qualquer um: a adolescência.

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Como praticamente todos os personagens já estão acostumados com o clima que coloca a tradição acima de tudo na Academia, somos apresentados a essa atmosfera das aulas silenciosas, como se a própria morte pairasse no ar. Tudo é frio, calado e ordeiro, como se fosse uma verdadeira distopia clássica como 1984 ou Metrópolis.

Entretanto, toda a monotonia depressiva é quebrada com o calor humano do novo professor de inglês, John Keating, que apresenta aos alunos uma nova forma de ver o mundo, de aprender sobre a vida e permitir que suas paixões floresçam para que tenham uma identidade. Sua didática é completamente oposta à convencional da Academia – sua contratação é um dos maiores mistérios do filme, mas não te remove da experiência de nenhuma forma.

 

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O que Schulmer consegue captar com perfeição é o espírito desses garotos, conferindo algumas características únicas a eles, mas focando a maior parte do drama em Neil (em uma interpretação cheia de conflitos de Robert Sean Leonard) e Todd Anderson (Ethan Hawke). É bastante curioso e cruel o uso desses dois personagens, já que o destino final de ambos consegue trair as expectativas de quem assiste, tornando a maior reviravolta do filme bastante imprevisível.

Apesar de uma confusão inicial sobre quem é o protagonista, Neil acaba sendo consolidado o personagem principal. Em uma notável demora para engrenar o filme, Schulmer confere naturalidade em um jogo maniqueísta do cerceamento dos desejos de Neil diante da opressão paterna que o obriga a seguir um futuro já predestinado. Porém, com Neil descobrindo sua real vocação, esse relacionamento se complica e se torna cruel.

Crueldade que a Academia Welton também compartilha conforme a narrativa progride. Temos uma história verdadeiramente simples, centrada na realidade em um problema muito pertinente que insiste repetir em diversas gerações. Schulmer é bastante inteligente em conseguir fazer uma metáfora nada forçada sobre a “Sociedade dos Poetas Mortos”, o clube que os garotos formam para ser um pouco mais livres diante da prisão que o colégio interno representa. Usar a poesia e a crescente paixão pela arte como uma nova forma pura de expressão abraça as didáticas do Carpe Diem e de adotar diferentes pontos de vista para enxergar os problemas e desafios impostos pela vida, nunca adotando a covardia.

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Schulmer também possui uma forma belíssima de trazer naturalidade para os adolescentes. Sociedade dos Poetas Mortos é sim um coming of age, mas um daqueles que consegue trazer clichês de modo diferenciado e ainda trazer uma boa dose de humor e sinergia para os personagens com diálogos fluídos. Talvez o maior pecado que Schulmer cometa seja a enorme demora para conseguir fazer a narrativa engrenar, já ultrapassando a marca de uma hora de duração, por mais que os garotos e Keating sejam interessantes.

A Pureza da Felicidade

A magia de Peter Weir com sua câmera é simples. Existe um forte magnetismo na relação do olhar que ele estabelece tão bem e das emoções que eles suscitam, desse modo, conduzindo também a emoção do espectador sem forçar a barra. Através de uma sucessão de montagens leves, usando a relação simples de plano/contraplano, vemos um personagem olhando para determinado objeto, expressando a emoção que o diretor deseja.

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Em dois dos exemplos mais poderosos, vemos os garotos olhando os rostos do passado da Academia Welton, com faces sóbrias de vidas aprisionadas, com Keating murmurando logo atrás para aproveitarem o presente, aproveitando o dia ao máximo, afinal nunca sabemos a hora da nossa morte. Depois, quando finalmente se sente completo, olha com ternura para seus amigos e depois com profundo terror para o pai que o aguarda repleto de ira na saída do teatro.

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Essa leveza de emoções e transições simples com imagens de liberdade através da riqueza da encenação em contraste profundo com os enquadramentos fixos e imobilidade da câmera quando prepara as cenas na Academia, torna a direção de Weir bastante interessante, apesar de passar longe do seu trabalho mais inspirado.

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Apenas no ápice climático da obra que temos uma profunda sucessão de imagens inteligentes que expressam uma tristeza melancólica já prenunciando o pior que está por vir. Temos projeções com sombras, enquadramentos que superdimensionam partes do corpo – como a mão enorme que fecha uma porta, além de um delicado trabalho da fantástico iluminação de John Seale. Através do poder febril da montagem e da trilha, Weir consegue criar uma cena memorável.

Mas nenhuma supera a conclusão da obra que, apesar de agridoce, mostra como Keating conseguiu transformar a vida de alguns alunos que não resignam mais diante de uma opressão ordeira completamente boboca, acreditando que a fabricação de gênios se dá através do castigo, da padronização e da preservação de tradições ultrapassadas.

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Carpe Diem

A Sociedade dos Poetas Mortos é um filme simplesmente transformador. Apesar de lento e aparentemente desinteressante no início, a experiência evolui completamente conforme os personagens ganham mais relevância, além da presença pontual, mas fascinante de Robin Williams que transforma todas as cenas com sua completa energia usando ao máximo o poder de sua expressão corporal e sorrisos delicados para os meninos.

Como todo bom clássico, se torna bastante íntimo por tratar de um conflito que parece tão bobo aos olhos de hoje, mas tão pertinente ao exibir todas as consequências da coerção psicológica ferrenha em cima dos sonhos dos jovens. A expiação da culpa nunca tirará a responsabilidade daqueles que somente oprimem e nunca escutam. Basicamente, um resumo das truculentas relações humanas no decorrer dos séculos.

Afinal, a morte das paixões também é a morte da liberdade.

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Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, EUA – 1989)

Direção: Peter Weir
Roteiro: Tom Schulman
Elenco: Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke, Josh Charles, Gale Han, George Martin
Gênero: Drama
Duração: 128 minutos

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https://www.youtube.com/watch?v=4lj185DaZ_o

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Tags: #Ethan Hawke #Josh Charles #Peter Weir #Robin Williams
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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