O terror italiano já tinha em Mario Bava (A Máscara de Satã) um dos grandes nomes do cinema em seu país antes que, em 1977, Dario Argento (Prelúdio Para Matar)  lançasse sua obra-prima Suspiria. Com o passar do tempo a produção ganhou ares de produção cult, mas não perdeu seu charme nem sua história deixou de ser esquecida pelos fãs do gênero, que hora ou outra incluem o longa em listas de melhores filmes já feitos, e não estão errados, pois Suspiria é sim um filme de horror fantástico. 

A beleza do longa italiano está justamente em sua história, em que trata sobre uma garota chamada Suzy Bannion (Jessica Harper) que vai estudar dança em uma consagrada escola artística na Alemanha. Lá se vê envolvida em situações macabras e bizarras e descobre que há uma aliança de bruxas seculares na escola e que estão ali apenas para causar o mal em quem atrapalha seus planos. 

O principal fator que deixa Suspiria tão envolvente e maravilhoso é a abordagem escolhida por Dario Argento para desenvolver toda a trama. Coloca a protagonista descobrindo aos poucos o que está acontecendo no lugar, vai dando pitadas de que há algo de errado no local, colocando acontecimentos estranhos envolvendo outros personagens, como o homem cego que é atacado por seu cão, ou a amiga de Suzy que se torna paranoica por achar que algo a está perseguindo. Todos esses fatores são feitos com base em um roteiro muito bem estruturado, que sabe quais caminhos tomar e Argento o faz com maestria, instaurando pânico e terror ao passo que a trama é apresentada. 

Esse universo construído por Argento leva a um terror espontâneo. Não é preciso forçar para deixar o telespectador intrigado no que irá acontecer. A construção do terror se dá em primeiro momento pelo ambiente mostrado, a protagonista está em um lugar que aparentemente não tem saída e que se apresenta bastante sombrio, ainda mais com os acontecimentos que vão surgindo enquanto sua estadia se estende por lá. Esse ambiente é usado como um personagem secundário e com efeito visual incrível, criado pela equipe de direção de arte da produção.

Quem for assistir Suspiria e ficar esperando sustos sairá bastante chateado, mas esse não é o foco principal do longa. Nem sempre é necessário causar sustos e medo para que seja denominado como um filme de terror. O medo aqui está em saber que há uma associação de bruxas que mata as pessoas usando magia. É um horror que mais parece um pesadelo que a protagonista se vê envolvida e que parece não haver um jeito de acordar dele. É daí que vem a importância do final, quando Suzy consegue fugir do local e se sente então livre, é como se estivesse acordando desse sonho ruim. 

Dario Argento faz uma bela crítica ao tratar sobre o tema do mundo da arte, mais especificamente sobre o mundo da dança, um lugar cheio de vaidades em que alguns estão lá para dançar, enquanto outros estão lá apenas pensando em riqueza. Isso é mostrado no filme, logo quando Suzy entra para se trocar para sua primeira aula encontra algumas garotas que vão falar com ela, mas sempre sobre dinheiro, e mais para frente um homem especialista em magia também fala sobre esse tema, que as bruxas buscam riqueza pessoal, ou seja, o intuito das bruxas é de se apoderar de grandes riquezas para assim manter seu poder ao longo dos anos. 

É uma crítica fascinante sobre o universo da arte que seria um local em que o importante é a riqueza material que propriamente a exposição da arte como fator para elevar a alma. Muitas produções já trataram a respeito desse tema e a referência a Suspiria fica bastante nítida como influência para esses filmes. Um exemplo bastante recente é o interessante Demônio de Neon (Nicolas Winding Refn) que lembra bastante o longa italiano por abordar uma história muito parecida, até mesmo a fotografia tem uma certa semelhança. 

Suspiria é uma obra atemporal, feita para durar e ser apreciada por gerações. Não é um terror pensado em impressionar ou em deixar o telespectador preso e angustiado com o que irá ocorrer. O horror apresentado nele é de difícil reprodução e foi muito bem desenvolvido por Dario Argento. É tão bem trabalhada a trama e feita com tanta sinceridade que nem se percebe o tempo passar, quando repara já está no grande final que apenas engrandece o espetáculo recém assistido. 

Suspiria (Suspiria, Itália – 1977)

Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Daria Nicolodi
Vozes originais: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Miguel Bosé, Barbara Magnolfi, Susanna, Susanna Javicoli, Alida Valli
Gênero: Horror
Duração: 98 minutos