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E estamos de volta à Terra!

Para aqueles que não se recordam, a segunda temporada de The Good Place terminou com um ótimo cliffhanger e diversas mudanças de comportamentos dos personagens principais. Michael (Ted Danson), o demônio arquiteto do Lugar Ruim, se afeiçoou aos pobres mortais que escolheu para participar de sua experiência de tortura eterna, passando a ajudá-los a chegar ao paraíso a partir dos episódios finais. Agora, rebootando a continuidade da vida dos personagens no mundo terrestre, eles ganham mais uma chance de fazer escolhas boas, ganhar pontos e, assim, se livrarem da condenação eterna e conseguirem passar o resto de sua pós-morte aproveitando as regalias do Lugar Bom.

No novo ano da irreverente e apaixonante série, temos um relance de como experiências mortais podem mudar a concepção sobre nosso próprio cotidiano. O primeiro episódio foca especialmente em Eleanor (Kristen Bell) que, depois de ser salva por alguém desconhecido, ela percebe que não pode continuar vivendo de um jeito egoísta e pessimista, mudando totalmente seu estilo até que, eventualmente, percebe que mergulhou em uma infeliz rotina que tirou toda a sua graça de viver. É claro, é interessante ver a repaginada Eleanor transformando seus hábitos individualistas em atitudes coletivas, seja entrando para o Greenpeace, seja tornando-se vegana – mas sabemos que a obra criada por Michael Schur nunca prezou por um “final feliz”.

Schur sempre buscou colocar temas filosóficos e teológicos dentro de seu show e, de uma forma didática e hilária, e por muitas vezes rebelde, ele nos explica que o ser humano é muito mais complicado do que aparenta ser. Mais especificamente, ele associa a vivência dos indivíduos a como a sociedade contemporânea se tornou difícil até mesmo para nós, quiçá para os seres etéreos que habitam os outros planos. Até Michael não consegue entender o que está fazendo de errado e porque seus planos de provar um ponto de vista sempre esbarram em frustrantes obstáculos – quando percebe que suas cobaias, na verdade, não funcionam por conta própria e precisam da ajuda um do outro para alcançarem sua maximização.

Vamos analisar o seguinte: as teorias antropológicas sempre afirmaram que o ser humano, em si, nunca viveu sozinho. Nem mesmo os etemitas estão livres de uma convivência social, visto que, para se exilarem de qualquer outro contato, precisaram chegar a um nível insuportável de descontentamento com a organicidade social, só então partindo para um novo estágio. Eleanor é a representação desconstruída desse ser, abstendo-se em reclusão e perdendo qualquer prospecto de um futuro que realmente a traga alguma felicidade. Mas isso perdura até que, com uma ajudinha do além-vida, ela cruza caminho com Chidi (William Jackson Harper).

Veja bem, Eleanor e Chidi não se conhecem nessa nova realidade, mas mesmo assim se reencontram. Ele precisa desesperadamente de alguém que o ajude a sair de sua rotineira e indecisa vida, enquanto ela precisa redescobrir algo para continuar vivendo (afinal, sobrevivência não é uma opção). O problema, ao menos para nós, é que já acompanhamos a cômica jornada romântica dos dois – e talvez essa seja nossa punição por “não sermos pessoas inteiramente boas”: observá-los em uma nova narrativa, na qual nunca ao menos se viram, enquanto somos obrigados a nos lembrar de algo que caiu no vazio da inexistência. É dessa forma que Schur arquiteta uma obra-prima que não se restringe apenas ao cosmos em questão, mas sim estende suas ramificações para o fiel público.

Tahani (Jameela Jamil) e Jason (Manny Jacinto) também aparecem, como já era de se esperar, mas infelizmente não ganham tanto protagonismo. De qualquer forma, Tahani retorna como a socialite egocêntrica, porém de coração puro e falho, e mostra-se mais humilde do que poderíamos lhe dar crédito. Jason funciona como um inteligente escape cômico que ajuda mais do que atrapalha nesta iteração, com conclusões inesperadas que ajudam-nos a seguir em frente ou a pensar em novos modos de conseguirem o que querem.

Entretanto, é inegável dizer que The Good Place perde um pouco de seu brilho por tangenciar, ainda que por apenas alguns episódios, na monotonia. Chidi cria um grupo experimental com os outros colegas e os ensina sobre ética, moral, preceitos filosóficos, abrindo espaço para que reencontrem seu caminho e incitando-os a achar uma espécie de auto-epifania. Porém, durante esses capítulos, Michael fica, na maior parte do tempo, como um simples observador, interferindo em apenas alguns pontos – e é nisso que a série peca mais de uma vez, afastando-se de uma narrativa frenética em detrimento de construções mais intimistas que destoam da própria premissa que nos foi apresentada alguns anos atrás.

O ritmo e a envolvência retornam quando o ex-demônio e sua fiel companheira, Janet (D’Arcy Carden), jogam tudo para cima e lhes contam sobre absolutamente tudo, levando-os em uma épica jornada contra os seres do Lugar Ruim e contra a própria Juíza Suprema de todo o universo (Maya Rudolph). Porém, mesmo que os personagens recuperem grande parte de sua glória de outrora, é Janet quem rouba toda a série. A persona é o ser mais poderoso de todos, conhecendo tudo o que foi, o que é e talvez o que será, funcionando como um robô de última geração que começa a se questionar conforme se aproxima dos humanos. Assim como Michael, ela cria laços com Eleanor, Chidi, Tahani e Jason, apaixonando-se por este último e quase entrando em parafuso conforme começa a ter dúvidas mortais sobre seu papel no mundo que conhece.

Schur não se restringe quanto a fazer um bom uso dos sacrifícios – e aqui não me restrinjo a seu sentido convencional; conforme nos aproximamos de mais um incrível season finale, Eleanor abandona ou apenas renega forçosamente seus sentimentos em prol de salvar seus novos amigos, permitindo que Chidi se esqueça novamente de tudo o que tiveram e que a experiência de Michael ganhe uma nova roupagem: provar que os seres humanos podem sim melhorar em determinadas circunstâncias.

E como se não bastasse, as discussões morais e éticas sobre a dualidade do bem e do mal ganham mais uma camada para nos levar a refletir sobre nossas próprias ações. O efeito dominó estrelado por cada uma das personas, seja principal ou coadjuvante, é o que impede as pessoas a chegarem ao Lugar Bom e perderem pontos por coisas que não conseguem controlar ou prever; em outras palavras, quando compramos um ramalhete de flores para agradar alguém que gostamos, não temos ideia do processo que levou o buquê à floricultura, e participamos de uma reação em cadeia da qual nem ao menos sabíamos que existia – e, assim, colocando nossa parcela de culpa no que está em um passado remoto.

Ademais, The Good Place mais uma vez se prova uma das melhores séries tragicômicas da televisão contemporânea, mesmo com certos deslizes ao longo do caminho. Buscando se reinventar a cada episódio, não é nenhuma surpresa que o incrível cliffhanger desconstrua mais uma vez tudo o que já conhecemos em prol de um futuro capítulo chocante e diferente do que estávamos acostumados.

The Good Place – 3ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Criado por: Michael Schur
Direção: Dean Holland, Beth McCarthy-Miller, Jude Weng, Trent O’Donnell, Morgan Sackett, Linda Mendoza, Michael Schur, Rebecca Asher, Julie Anne Robinson, Claire Scanlon, Alan Yang, Ken Whittingham
Roteiro: Michael Schur, Daniel Schofield, Andrew Law, Cord Jefferson, Kate Gersten, Christopher Encell, Kassia Miller, Joe Mande
Elenco: Kristen Bell, William Jackson Harper, Jameela Jamil, D’Arcy Carden, Manny Jacinto, Ted Danson, Maya Rudolph, Marc Evan Jackson  
Emissora: Netflix
Episódios: 12
Gênero: Drama, Comédia, Mistério
Duração: 45 min. aprox.

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