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Crítica | Tick, Tick… Boom! é um musical explosivo e emocionante

Sou praticamente um analfabeto quando o assunto é teatro musical, tendo como referência apenas as diversas adaptações de obras do tipo para o cinema. É importante atestar isso, já que caí de paraquedas em Tick, Tick… Boom! sem qualquer conhecimento de Jonathan Larson ou de seu importante repertório teatral, tendo o musical Rent como uma de suas mais influentes e importantes realizações. E muito mais do que uma mera introdução ao homem e seus trabalhos, o filme de estreia de Lin-Manuel Miranda é por si só uma das experiências mas impactantes e bem realizadas do ano – fazendo jus a brilhante seu título onomatopeico.

Baseando-se na obra autobiográfica do próprio Larson, a trama acompanha o jovem Jonathan Larson (Andrew Garfield) enquanto tenta terminar seu primeiro grande musical, no qual vem trabalhando a 8 anos, antes de completar os 30 anos. Ao longo de números musicais e quebras narrativas do próprio Larson, testemunhamos seu processo criativo, suas amizades complicadas e a relação tumultuosa com sua namorada, Susan (Alexandra Shipp).

Ao mestre com carinho

Assim como muitos, conheci Lin-Manuel Miranda apenas por seu trabalho monumental com Hamilton. De lá pra cá, o porto-riquenho vem se destacando como um dos grandes nomes da música no cinema, seja nas animações da Disney como Moana e o vindouro Encanto, ou no bem sucedido Em Um Bairro de Nova York, adaptação de John M. Chu para uma de suas primeiras peças. Naturalmente, Miranda deve se ver no próprio Larson, que é creditado aqui por todas as canções e letras musicais, ao passo em que Steven Levenson (que adaptou também o recente Querido Evan Hansen) traça um texto sem grandes inovações nesse tipo de história, mas que é perfeitamente funcional.

Como diretor, Miranda não se contenta pelo convencional. Como se seguir a clássica história de um sonhador obstinado com interjeições musicais não fosse o bastante, sua narrativa é quebrada constantemente pelo próprio Larson fazendo comentários para a câmera, além de toda uma porção ambientada em um palco de teatro que serve como “coral grego” para a narrativa central – e que, ao final, revela-se como uma grande matrioska metalinguística. Sim, parece embolado e pelos primeiros minutos de projeção, realmente soa como um filme desencontrado; mas a cada virada de página, a mão de Miranda encontra o tom e os pontos de foco apropriados.

É uma intensidade narrativa que realmente coloca o espectador na cabeça de Larson, variando entre a alegria de números musicais improvisados (o uso de um plano longo pelo apartamento em “Boêmia” é bem divertido) e que mostram a imaginação estimulada de Miranda – vide a imagem de uma raia de piscina se transformando em partituras musicais – e o verdadeiro caos para cenas mais dramáticas. Há uma sequência em particular que realmente faz jus ao título do filme, onde a montagem de Myron Kerstein e Andrew Weisblum acelera o ritmo, intercala passagens e o próprio Garfield aumenta a velocidade de sua voz; logo após Larson receber uma notícia desconcertante envolvendo um amigo querido. Das mais angustiantes e poderosas sequências que vi em um filme este ano.

E se Miranda é uma boa revelação como diretor, não deve ser surpresa para ninguém o arraso que é Andrew Garfield. Há um tempinho sem entregar um grande trabalho como A Rede Social, Até o Último Homem ou o subestimado Silêncio, o astro britânico domina o sotaque americano para gritar, cantar e dançar por grande parte das 2 horas de projeção, conseguindo transmitir a energia que não parece se conter nos ossos de Larson – mas também a ansiedade e o nervosismo por trás de seus sonhos que beiram a obsessão. Pessoalmente, como alguém que também vê o relógio correndo para a chegada dos 30, confesso que a experiência chega a ser perturbadora em alguns momentos – e em todos eles, Garfield simplesmente domina a tela.

Sendo uma combinação energética entre cinebiografia e musical dos anos 50, Tick, Tick… Boom! revela o talento de Lin-Manuel Miranda como diretor de cinema. É uma experiência marcante, desafiadora e que coloca o espectador dentro de uma mente fascinante e cheia de surpresas, sendo muito bem guiada pela performance espetacular de Andrew Garfield. 

Tick, Tick… Boom! (EUA, 2021)

Direção: Lin-Manuel Miranda
Roteiro: Steven Levenson, baseado na obra de Jonathan Larson
Elenco: Andrew Garfield, Alexandra Shipp, Robin de Jesus, Vanessa Hudgens, Bradley Whiford, Joshua Henry, Jonathan Marc Sherman, Michaela Jaé Rodriguez, Judith Light
Gênero: Drama, Musical
Duração: 115 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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