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Crítica | Toy Story 4 – O epílogo da perfeição

Pode ser o capítulo mais fraco da franquia, mas Toy Story 4 mantém o nível de qualidade de seus preciosos antecessores.

Lucas Nascimento
Lucas Nascimento Redação
21 de junho de 2019 · 6 min de leitura
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Não precisávamos de um quarto Toy Story. A Pixar havia executado uma tarefa quase impossível em 2010, quando o terceiro filme da mais celebrada franquia de animação concluiu uma trilogia praticamente perfeita, trazendo a mensagem ideal para um grupo de filmes e realizadores que enxergou as emoções e o coração de brinquedos de maneiras que nem imaginaríamos que seria possível. A ideia de Toy Story 4 parecia desnecessária, e pior do que isso, perigosa.

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Isso se tornou ainda mais problemático quando a Pixar passou por sua fase mais controversa ao ter o afastamento de um dos fundadores, John Lasseter. Acusado de assédio sexual, o envolvimento de Lasseter no quarto filme foi diminuído, assim como o da roteirista original da produção, Rashida Jones, e o texto acabou passando por inúmeras mãos na fase de concepção. Diante de todos esses fatores, é surpreendente que Toy Story 4 seja não apenas eficiente, mas um belo filme que justifica sua existência, ainda que como o capítulo mais fraco.

Passando-se alguns anos após o terceiro filme, a trama começa com a pequena Bonnie (Madeleine McGraw) tendo seu primeiro dia de aula. Na escola, ela constrói um brinquedo com um talher de plástico e outros objetos, dando origem ao neurótico Garfinho (Tony Hale), que logo se junta ao grupo de Woody (Tom Hanks), Buzz Lightyear (Tim Allen), Jessie (Joan Cusack) e os demais brinquedos de Bonnie. Quando Garfinho tenta fugir por não se considerar um brinquedo, Woody inicia uma busca para recuperá-lo, e seu caminho novamente se cruza com o da amada Betty (Annie Potts).

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Ser ou não ser

Por muitos anos, o padrão de qualidade da Pixar foi insuperável. É um fato que o premiado estúdio tem encontrado certa dificuldade em suas mais recentes continuações e prelúdios, com obras como Carros 2, Universidade Monstros, Procurando Dory e o remake de Os Incríveis sendo bem inferiores aos longas originais. Felizmente, Toy Story 4 parece ser a última continuação do estúdio por um tempo, já tendo anunciado os novos Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica e Soul para 2020 – duas produções originais, sem serem derivativas ou continuações. Se for de fato o caso, Toy Story 4 encerra essa fase de sequências com muito louvor, e novamente a valorizo por conseguir se provar como relevante.

A introdução de Garfinho permite que a franquia volte a explorar a questão do existencialismo, que foi forte no desenvolvimento de Buzz no primeiro filme. O pequeno talher de plástico não foi fabricado para ser um brinquedo, e seu desejo de voltar a ser lixo no primeiro ato é algo fascinante e até meio sombrio, por termos um ser vivo rejeitando a existência – mas que, claro, é usado pelo roteiro de Andrew Stanton e Stephany Folsom para garantir risadas proveitosas. Mas a temática do “quem sou” ou, no caso de Garfinho, “sou lixo” também é muito bem aproveitada pela maioria dos personagens: Buzz, a antagonista Gabby Gabby (Christina Hendricks) e principalmente Woody estão em jornadas de reinvenção e redescoberta espiritual, e aí não entraremos em spoilers, mas Toy Story 4 sabe muito bem o que está fazendo ao levar essas linhas narrativas para desfechos merecidos – e garante nossas inevitáveis lágrimas no processo, mesmo que não seja difícil quando estamos lidando com esses personagens.

Em quesitos técnicos, os brinquedos nunca estiveram tão deslumbrantes. O diretor estreante Josh Cooley faz um trabalho impressionante ao imaginar enquadramentos marcantes e cinematográficos, além de sequências de ação que encantam pela engenhosidade. Ver como a animação se tornou mais detalhista e vívida ao longo dos anos é algo impressionante, e – principalmente no clímax – garante um poderio visual surreal, quase como se esses personagens estivessem sido fotografados de forma real, dado os níveis de detalhes na iluminação de uma roda gigante e até desfoque de lente. Tecnicamente falando, é um dos trabalhos mais impressionantes da Pixar, e Cooley não deixa a desejar perto de John Lasseter ou Lee Unkrich.

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O fim da linha

O problema se encontra em algumas soluções do roteiro. Muito do que move Woody neste quarto filme envolve a personagem Betty (Annie Potts), que infelizmente nunca teve todo o desenvolvimento necessário na franquia – estando até mesmo ausente no terceiro. Betty ganha uma reinvenção badass e que praticamente a transforma na Rey de Star Wars: O Despertar da Força neste novo filme, e por mais que seja muito divertido ver Betty finalmente se tornando uma figura marcante e carismática, soa apressada e pouco para o que o longa almeja para Woody. E o roteiro acaba perdendo tempo em uma estrutura cíclica que parece não ter para onde ir, com os personagens indo e voltando de forma arbitrária para o antiquário que une todos os brinquedos no segundo ato, carecendo também de um bom antagonista – a Disney novamente aposta na tática previsível e batida de redimir os personagens que menos esperamos.

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No que diz respeito a seus novos personagens secundários, há adições que definitivamente gostaríamos de ver mais no futuro. A dupla cômica de Key & Peele, Keegan Michael-Key e Jordan Peele (sim, de Corra! e Nós) diverte ao dublar Patinho e Coelhinho, trazendo muito do humor de esquete e nonsense para os bichinhos de pelúcia com planos mirabolantes. Mas o grande atrativo fica com Keanu Reeves e seu impagável Duke Caboom, dublê motociclista canadense fortemente inspirado na figura de Evel Knievel, e que permite ao ator trazer sua dicção pausada para efeitos cômicos certeiros – e também, em um ano que o trouxe repetindo uma das frases mais icônicas de Matrix em John Wick 3: Parabellum, resgatar mais um meme de sua carreira de forma marcante.

Pode ser o capítulo mais fraco da franquia, mas Toy Story 4 mantém o nível de qualidade de seus preciosos antecessores. Traz ótimos conceitos e novos personagens divertidíssimos, ao passo em que leva os brinquedos para novos caminhos, com resultados inesperados. Serve tanto como conclusão como recomeço, e qualquer uma dessas alternativas é válida para a Pixar, que parece infalível com esses brinquedos.

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Toy Story 4 (EUA, 2019)

Direção: Josh Cooley
Roteiro: Andrew Stanton e Stephany Folsom
Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Annie Potts, Madeleine McGraw, Wallace Shawn, John Ratzenberg, Blake Clark, Tony Hale, Keegan Michael-Key, Jordan Peele, Keanu Reeves, Christina Hendricks, Carl Weathers, Patricia Arquette, Mel Brooks
Gênero: Aventura, Comédia
Duração: 143 min

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Tags: #Annie Potts #Carl Weathers #Christina Hendricks #Joan Cusack #John Ratzenberg #Jordan Peele #Keanu Reeves #Keegan-Michael Key #Madeleine McGraw #Mel Brooks #Patricia Arquette #Tim Allen #Tom Hanks #Tony Hale #Wallace Shawn
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Lucas Nascimento
Escrito por

Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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