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Crítica | True Detective – 3ª Temporada: Desacelerada busca implacável

O fardo da genialidade e do sucesso inesperado é algo que poucas pessoas conseguem lidar com plenitude psicológica. Ninguém esperava que em 2014, uma série de orçamento modesto contando com um bom elenco provaria que ainda existe novas formas de contar histórias de crime que conseguem assombrar e perturbar o espectador.

Nem mesmo o próprio criador de True Detective, Nic Pizzolatto, esperava o sucesso expressivo da série planejada apenas para contar aquela densa história dos detetives Rust e Hart. A audiência foi expressiva, a crítica consagrou de modo universal, as indicações ao Emmy e suas subsequentes vitórias aconteceram. A HBO encontrou um novo sucesso e um novo gênio em seus contratos. 

Com o fardo do sucesso e a oferta muito generosa da HBO em dar sequência à série, a transformando em uma antologia – contando histórias fechadas a cada temporada, Pizzolatto cedeu à tentação e impôs a si mesmo um peso monumental: afinal como superar o brilhantismo da escrita da primeira temporada? Da elegância do conteúdo e da forma apresentada?

A inspiração veio através da pressão de curto prazo. No decorrer de meros meses, Pizzolatto se obrigou a entregar o que foi pedido e assim nasceu a história da 2ª temporada da série. Trazendo uma narrativa expansiva, muito mais ousada, com um mistério mirabolante e quatro personagens principais para desenvolver, infelizmente Pizzolatto teve que lidar com críticas bastante agressivas reclamando sobre a queda brusca de qualidade da série. 

A lição foi dura e o contraste, cruel. Alçado como gênio, viu ser classificado como medíocre em um espaço de apenas um ano de intervalo. Afastado da HBO e sem inspiração, Pizzolatto passou um período expressivo sem escrever, mas a necessidade move o homem e a HBO também não queria perder uma de suas marcas mais importantes. Em 2018, foi anunciada a terceira temporada de True Detective e tudo indicava que as coisas sairiam diferentes desta vez.

De fato, as coisas são diferentes e também familiares, mas ainda assim não se trata da repetição do acontecimento que foi a primeira temporada dessa ótima série. 

Em uma cidadezinha esquecida por Deus

Assustado pela repercussão negativa da 2ª temporada, é bastante compreensível que Pizzolatto tente contar uma nova história em um cenário mais contido e familiar. Em uma cidadezinha no interior do Arkansas, na região dos Ozarks, os detetives David Hays (Marhershala Ali) e Roland West (Stephen Dorff) são imbuídos da inglória missão de encontrar duas crianças desaparecidas da problemática família Purcell. 

Na busca, elementos bizarros são encontrados, assim como o corpo do garoto Purcell, Will, em uma pose perturbadora. Mas não há o menor sinal da irmãzinha, Julie, nos arredores. Enquanto lidam com a burocracia de comunicar a morte de uma criança da comunidade, os detetives trabalham exaustivamente em busca de evidência para encontrar o paradeiro de Julie. O que eles não imaginam, é que esse caso marcará completamente as suas vidas como o derradeiro fracasso de suas carreiras. 

É inevitável que quem já acompanha a série desde sua primeira temporada, faça paralelos constantes com ela. Até mesmo Pizzolatto, em certo momento, aborda diretamente os acontecimentos vistos nela na narrativa dessa história, as situando no mesmo universo. Temos novamente uma dupla de detetives íntegros em uma cidade pequena em busca de justiça para solucionar um crime bastante desconcertante. 

Muito pouca coisa da 2ª temporada é reaproveitada aqui – apenas alguns entraves e indícios de corrupção dentro do departamento policial de Hays e das ambições políticas do promotor do condado. Pizzolatto realmente quis distância do trabalho anterior. O ritmo de acontecimentos e reviravoltas é extremamente lento. Acredite, é preciso de um café para ficar mais atento aos eventos desta temporada. 

Não só pelo ritmo lento, mas por conta da escolha de como Pizzolatto decide contar essa história. O grande diferencial dessa temporada é sua estrutura não-linear, trazendo três momentos da vida do protagonista Hays. A primeira narrativa envolve a primeira investigação envolvendo os Purcell nos anos 1980. 

A segunda acontece nos anos 1990 quando a polícia descobre uma pista importante envolvendo Julie. E a final nos anos 2010 trazendo Hays com 70 anos contando sobre o caso para uma equipe de documentaristas intrigados pela história. A narrativa principal é a que aborda a terceira idade de Hays, com a série funcionando fundamentalmente em flashback. 

Pela escolha criativa, a tensão sobre o destino de alguns personagens se esvai, principalmente sobre a segurança dos protagonistas. O espectador descobre em questão de minutos que a investigação foi um fracasso e que o drama principal é como isso incomoda profundamente Hays em sua velhice. Embora eu ache a proposta extremamente corajosa, ela tem esse enorme porém que não colabora em deixar o espectador tenso e intrigado. 

Os momentos mais intensos da temporada ocorrem, portanto, justamente na linha narrativa do “presente”. Inclusive, é uma pena que Pizzolatto não explore um pouco mais as questões sobrenaturais sempre presentes nas temporadas. Aqui, é indicado que, por vezes, Hays consegue interagir consigo mesmo em outras linhas temporais, causando um suspense muito criativo, além de conversar com sua falecida esposa, a escritora Amelia (Carmen Ejogo). 

O roteirista concentra seus esforços muito mais no estudo do personagem protagonista do que na história em si que é mesmo o elo mais fraco da temporada. Porém, enquanto ele é feliz em mostrar o quão obstinado é Hays, de sua integridade e busca incansável por justiça, assim como o começo do elo romântico com Amelia que é fruto da investigação Purcell, há falhas injustificáveis sobre o protagonista. 

Nesse vai e vem nos espaços narrativos, Hays nitidamente é perturbado por algumas questões e passa a se tornar um homem mais difícil, menos compreensivo e mais mandão. Principalmente em relação com Amelia. Ele a julga continuamente por ter escrito um livro sobre a investigação, por ter feito fortuna através da miséria dos outros e se recusa a escutar as dicas importantíssimas que ela tem a oferecer para solucionar o caso. 

Fica sugerido que Amelia seja uma investigadora mais competente que Hays e que isso o frustre intensamente, mas isso nunca fica claro na trama. As explosões contidas de Hays, que mais se assemelham com birras, também parecem ser justificadas por traumas do passado envolvendo a Guerra do Vietnã, mas Pizzolatto também não se aventura muito nisso. 

É irônico que em uma narrativa não-linear, tão pouco seja de fato desenvolvido para tornar Hays mais complexo, embora ele seja sim um bom personagem – só não muito bem escrito. Felizmente, há a presença ilustre de Mahershala Ali encarnando o protagonista, conseguindo fazer essas falhas da escrita se tornarem menos expressivas aos olhos do espectador, já que seu carisma é inegável. 

Sua atuação chega em novos patamares quando traz Hays já na terceira idade, trazendo uma presença diferente na movimentação e expressões faciais, afinal seu personagem já começa a sofrer com a demência de Alzheimer, esquecendo de coisas importantes de sua vida e também da investigação. É ótimo que Pizzolatto saiba aproveitar muito bem essa questão da demência, a incorporando de modo magistral no final da trama, dando uma conclusão satisfatória para a história. 

A natureza trágica de um crime

Mas não é só de protagonista que vive True Detective. O mistério e o decorrer da investigação são partes importantíssimas que, felizmente, não são negligenciadas aqui, embora não seja a melhor história já contada pelo roteirista. Trazendo os desenlaces, consequências e reviravoltas de uma investigação que atravessa décadas, Pizzolatto consegue apresentar elementos muito interessantes. 

Um deles é justamente a amizade entre Hays e West, do aprendizado do parceiro e realmente se empenhar em uma investigação e encontrar justiça, encontrar a verdade e tomar um rumo na vida. É polêmico, mas acho West um personagem melhor escrito que o protagonista. Ele supera a todo momento as negligências e irreverências de Hays, sempre acreditando no parceiro, tentando trazê-lo para a triste realidade de um sistema policial que, muitas vezes, é falho, imperfeito. 

Em West, fica maximizado o elemento genial de mostrar como Hays consegue impactar negativamente a vida de uma pessoa. Através dessa amizade, West acaba fazendo uma imprudência completa e se vê abandonado pelo amigo duas vezes no decorrer da investigação. Pizzolatto primeiro mostra essa característica cruel de Hays na vida de um suspeito adolescente durante as investigações entre 1980 e 1990. 

Também é corajosa a forma de mostrar que os dois não são detetives geniais, mas competentes apenas. Provas são negligenciadas vez ou outra, buscas de suspeitos são interrompidas, suspeitos acabam pouco monitorados, há falhas de comunicação dentro do departamento, eles são manipulados por provas incidentais. Não se trata, no caso, de falhas da narrativa, mas para mostrar o quão impulsivos são os investigadores e como isso acaba afetando o caso. 

Nas duas linhas temporais do passado, há estruturas similares de investigação culminando em um clímax violento. Neles, Pizzolatto consegue trabalhar temas bem-vindos como a destruição psicológica diante da perda da família, do abandono dos veteranos retornados de guerras, do preconceito à minorias, de como o racismo afeta diretamente Hays e também a West e do quão problemática pode ser uma comunidade que decide fazer justiça pelas próprias mãos resultando em violência despropositada – e como a polícia aproveita essas ocasiões para finalizar casos que são uma pedra no sapato. 

São conceitos que ajudam a preencher melhor as reviravoltas da série, além de injetar um pouco de ação em uma temporada exaustivamente monótona. Apesar do mistério não ser muito difícil de ser desvendado, encontrando os culpados rapidamente – pelo menos para o espectador atento, a história envolvendo o contexto do crime é curiosamente original trazendo um mistério digno de um thriller de Hitchcock

A circunstância do crime é bastante única e difere tremendamente das outras temporadas nas quais eram movidas pelo mal, corrupção, luxúria, poder e ganância. Aqui se trata de uma história de natureza verdadeiramente trágica onde, no final, há um sentimento de tristeza e arrependimento bastante presente. Felizmente, Pizzolatto guarda uma surpresa satisfatória para os momentos finais do último episódio amarrando com perfeição todo o legado da investigação de Amelia. 

O roteiro é eficaz, mas não atinge o potencial prometido, além de ser prejudicado pela enrolação de diálogos que não dão a lugar algum e também até mesmo na criação de subtramas que só prejudicam o texto como o caso entre o filho de Hays e a diretora do documentário que entrevista o personagem. 

O mesmo, felizmente, não pode ser dito da direção da série. Trazendo um time de apenas três diretores, incluindo a estreia de Pizzolatto como diretor, fica claro que todos trabalharam exaustivamente para conseguir trazer a atmosfera sombria, fria, de abandono e desespero que marcaram todo o visual criado por Cory Fukunaga na primeira temporada. 

Os clássicos planos aéreos mostrando a vastidão rural do interior do Arkansas, do isolamento dos protagonistas diante de um perigo desconhecido, estão presentes, assim como as fusões que dão o charme noir da série. Ainda que não haja momentos de encenação realmente impressionantes, a direção se destaca pelas transações sempre muito criativas entre as três linhas temporais. 

Uma delas, aproveitando a moldura do para-brisa do carro, mostrando os personagens e suas mudanças entre os três tempos, é extremamente criativa e muito bem executada. Já os momentos mais marcantes de encenação inteligente, ficam para mostrar as interações paranormais entre Hays em linhas temporais diferentes, também nos “apagões” de sua memória e nas vezes que é confrontado por seu passado nas quais toda a iluminação se torna mais teatral. 

Visualmente, é muito eficaz para complementar algumas deficiências do texto para dar sustância a alguns momentos e comportamentos dos personagens. O mesmo se aplica a sempre eficaz trilha musical. 

O fogo que nos consome

Por algumas vezes, a personagem Amelia, em suas aulas, cita o poema de Delmore Schwartz que afirma que o tempo é o fogo que nos consome. O poema é basicamente a síntese da terceira temporada de True Detective, servindo tanto como metáfora para a jornada exaustiva de Hays quanto a própria jornada profissional de Nic Pizzolatto. 

Como criador, nota-se a estafa criativa para elaborar mais uma vez uma história de crime que realmente surpreenda e seja satisfatória. Com alguns problemas e bastante arrastada, é uma temporada boa, com bons personagens e uma boa história, mas o cansaço intelectual é presente e, honestamente, me entristece. 

True Detective é a prova que algumas histórias já são boas o suficiente pela sua unidade. Por mais que a 2ª e a 3ª temporada sejam boas, ao meu ver, não são histórias essenciais. São acima da média, com certeza, mas a que custo? Poucas pessoas devem ter essa resposta. 

No fim, é possível até mesmo interpretar que a revolta de Hays com a exploração comercial da história da tragédia seja uma revolta de Pizzolatto em permanecer escrevendo algo que o faz, no fundo, se sentir explorado. Tanto que agora, na possibilidade de uma vindoura 4ª temporada, a HBO esteja procurando outro roteirista. As histórias de crime de Pizzolatto, por ora, terminam aqui. 

True Detective – 3ª Temporada (EUA, 2019)

Criado por: Nic Pizzolatto
Direção: Nic Pizzolatto, Jeremy Saulnier, Daniel Sackheim
Roteiro: Nic Pizzolatto
Elenco: Mahershala Ali, Stephen Dorff, Carmen Ejogo, Ray Fisher, Scott McNairy, Mamie Gummer
Emissora: HBO
Episódios: 8
Gênero: Suspense, Crime
Duração: 60 min

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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