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Crítica Com Spoilers | O Esquadrão Suicida – Enxergando a Humanidade no Mal!

Um estudo de personagens e ratos matando uma estrela gigante!

Na época em quando fizeram o primeiro filme do Esquadrão Suicida, creio que a DC não estava (ainda) realmente tentando apostar em lucrar em cima de uma atual tendência comum de fazer um filme de super grupo de heróis (ou anti-heróis). Especialmente com Zack Snyder ainda na frente criativa das coisas, e as produções da DC ainda apostando nesses blockbusters mais sombrios e maduros, seguindo a trend demarcada de seus filmes na DC até então, e que com certeza David Ayer realizou, para melhor ou para pior, algo próximo disso, em qualquer que seja o resultado de sua versão final (que eu ainda muito espero ver).

Mas a Warner ficou com o saco nas mãos, facilmente temerosos diante das más críticas pelos erros que eles próprios cometeram ao realizarem interferências estúpidas na edição final de Batman V Superman para o cinema, o que os fez correr abruptamente em realizar severas refilmagens e reeditarem um filme já pronto que era o Esquadrão Suicida de Ayer, apenas para encaixar um aperitivo mais mainstream de super-heróis, o que se traduz em Marvelizar a coisa toda, e tomando como inspiração outro filme de grupo anti-heróis que rolava na competição naquela época.

Enchendo o filme com uma montagem pirotécnica desenfreada, cheio de cores granuladas e canções pop que completariam um álbum no Spotfy, tudo em grande estilo, inspirado nos trailers INCRÍVEIS que o filme teve, e aí pronto: você fez um novo Guardiões da Galáxia; ou assim pensaram os executivos da Warner Bros., prevendo um sucesso nada mais do que garantido! Bom, financeiro, com certeza, mas ao custo de terem feito um filme Frankenstein simplesmente horrível e sem coração, e mais tarde jogando toda a culpa sobre o diretor reclamão, que acusa nas redes sociais até hoje que aquela não era sua versão do filme.

Então por trazerem James Gunn para realizar um novo começo para o Esquadrão foi mais do que apropriado, dado que o resultado final da última versão foi “inspirado” por seus filmes dos Guardiões. Então, depois que ele fora injustamente demitido por causa do cancelamento de um tweet na Disney – um ritual bastante comum para muitas pessoas lá atualmente, ele foi recebido de braços abertos e recebeu total liberdade para fazer qualquer coisa que quisesse na Warner, e assim fez com O Esquadrão Suicida!

Marvelizado? Nem o cheiro disso!

Mas quando questionado sobre o quê poderia se esperar de um Esquadrão Suicida de James Gunn do que senão um subproduto do que ele já fez antes com os Guardiões da Galáxia, recheado de humor e piadotas com cocô, genitais e músicas pop para enfeitar tudo bonitinho e estiloso. E talvez com uma pitada de coração em volta dos personagens feito de modo brega para te obrigar a simpatizar com esse bando de personagens que você nunca sequer ouviu falar dos quadrinhos. Bem… praticamente sim, mas melhor realizado do que a maioria gostaria de dar crédito. E, novamente, a maioria desses comentários vem de quem só o conhecia como o cara da Marvel, ou os detratores da ideia dele vir para a DC.

Mas o pessoal esquece, ou simplesmente nem sequer sabem que o mesmo cara por trás do baby Groot, estava lá nos anos 2000 fazendo o ‘body horror’ inesquecivelmente perturbador de Seres Rastejantes (2006) e a comédia de super-herói vigilante incrivelmente violenta e narcisista que todos injustamente nunca ouviram falar Super (2010). E para esse trabalho, ele evoca todas as suas origens de filmes de Terror B e seu gosto por cinema grindhouse, para realizar sua própria versão do diretor logo na primeira tentativa e evitar qualquer experiência de dor de cabeça com a interferência de estúdio, graças a carta branca que a Warner lhe entregou cegamente, e ele realiza sem sombra de dúvidas inquestionáveis, o definitivo filme do Esquadrão Suicida, amem ou odeiem!

Retomando suas raízes originais, já que é um filme profundamente enraizado em sua natureza de história em quadrinhos à um nível quase literal! Onde cada pequena transição de cena e o ritmo não apenas dá a sensação de você estar lendo uma história em quadrinhos viva passando página por página, mas se parecendo exatamente como uma na tela, e como cada cena e momento são estabelecidos seguindo puramente uma linguagem visual de quadrinhos, cheia de prelúdios e idas e vindas de um momento para o outro. Ilustrando visualmente dentro da história os componentes internos do personagem e suas próprias pequenas histórias em meio à principal com sua própria tira visual. Gunn vem da mesma escola que Snyder nessas inspirações, mas é mais limpo e suave ao traduzir isso para a forma de um filme que não funciona por motivos de ser meramente vistoso nem apenas puramente estilístico.

Mas não melhor ilustrado do que nos próprios personagens, desde seus visuais, personalidades e até o próprio diálogo, tudo parecendo ser tirado de uma história em quadrinhos da DC dos anos 80 sendo transformada em filme. E o filme mostra constantemente estar tão autoconsciente disso, que se diverte constantemente consigo mesmo! Gunn é tão perceptivo em relação ao público e visões de personagens de quadrinhos onde, admitidamente, muitos deles são tão parecidos que você até os confunde em nome e habilidades. E o filme sabe tanto disso que coloca toas as provocações trocadas entre Peacemaker e Bloodsport serem todas girando em torno do fato de que eles têm habilidades idênticas.

Também completamente ciente do bando esquisitos e o quão descartáveis alguns desses personagens são, que ou descarta alguns deles muito rapidamente ou os realça bem na narrativa, e acaba criando personagens realmente legais no processo. O criador original do Esquadrão, John Ostrander, sempre os classificou de forma perfeita e simples: meras buchas de canhão; e isso é o que o filme de Gunn captura imediatamente, realizando o que é um puro filme de guerra Black ops, em que os personagens são descartáveis e eles sabem disso, e eles não retêm seus instintos ou natureza para cumprir essa missão, ou a que custo!

Bandido bom é Bandido…mocinho?!

Gunn cita Os Doze Condenados de Robert Aldrich como sua principal fonte de inspiração para o filme, e embora seja um comentário um tanto clichê (Ayer disse exatamente a mesma coisa sobre o seu filme) – o fator surpreendente é o quanto a inspiração é definitivamente mais do que refletida aqui. Desde o sentimento de camaradagem construído entre os membros do esquadrão mais tarde azedando facilmente, similarmente tendo dois membros das equipes tentando se matar, e o próprio resultado da missão vindo com um gosto agridoce para o massacre que se consuma no clímax, e quão impiedoso o filme é pela vida dos “heróis” no final.

Deixando você saber que seus personagens favoritos podem e provavelmente vão morrer, fortemente enfatizado pela cena intro que é tanto inesperadamente brutal, sangrenta e hilária, e o senso de humor sádico que cobre por todo o filme já deixa uma grande primeira impressão que vai te deixar com medo de rir e ir para o inferno de certas situações. Mas também lembra muitos filmes como O Desafio das Águias (1968), Os Guerreiros Pilantras (1970) ou O Expresso Blindado da S.S. Nazista (o Bastardos Inglórios original de 78) – com aquela vibe de thriller de ação e aventura admitidamente cafona, e com aquele eco de filme de heist misturado à missão.

E com a trama parecendo algo tirado de um roteiro genérico que você poderia encontrar facilmente rondando nos bastidores dos estúdios, que sempre acaba se tornando um daqueles filmes de ação old school, lembrando até muito o enredo de um filme como alguma continuação de Rambo misturado com algo como Commando ou algum filme de Chuck Norris como A Força Delta ou qualquer um dos filmes Braddock, com o determinado herói machão indo para certo país estrangeiro fictício, mata um bando de capangas militares genéricos do regime fascista genérico 2.0. Só que O Esquadrão Suicida é muito mais dramático e introspectivo do que se poderia esperar dentro dessa estrutura!

Em um mundo onde nenhuma boa ação pode vir pura e limpa de um grupo de indivíduos violentos, pois cada uma das ações dos personagens tem consequências amargas, algumas feitas para dar as enormes gargalhadas sádicas, como quando o Esquadrão limpa um acampamento cheio de inocentes pensando que são inimigos; enquanto outros, capazes de te deixar quase perturbado, como quando você percebe que todo o alto número de mortos do terceiro ato é meio que culpa da equipe. Mas o melhor sobre o estilo de Gunn sempre foi sua incrível capacidade de ser capaz de ver o bem no mal, o belo no esquisito, e aqui não é diferente!

Gunn reconhecidamente mostra de novo e novamente como ele vê o bem nas pessoas consideradas as piores das piores. Se ele tocou nisso de forma o que alguns podem considerar “superficial” nos filmes dos Guardiões, onde aqueles personagens resolviam suas diferenças e aprendiam a valorizar um ao outro em nome da família que eles formavam, O Esquadrão Suicida toca nos demônios que cada um desses personagens carrega. Eles são monstros e o filme te lembra isso repetidamente, com o pior deles sendo mostrado para nós, e isso não torna nenhum deles menos gostáveis ou identificáveis por causa do quão cobertos de humanidade eles são, e o quanto você entende de onde cada um deles vem e para onde vão no filme, fazendo com que você se importe e tenha empatia por pessoas declaradamente terríveis.

Realizando uma narrativa totalmente orientada pelos personagens, em vez de um enredo excessivamente complicado, é simples e segue a estrutura do ponto A ao B, e cada minuto se torna envolvente e divertido pela forma como os personagens são mostrados e desenvolvidos na tela, e com os atores perfeitos os encarnando, e eles próprios se tornam o foco inteiro do filme. Muito parecido com o melhor filme de quadrinhos de Gunn até hoje (e também o mais subestimado), Guardiões da Galáxia Vol. 2, onde a trama era quase apenas um quadro em branco de restos de idéias de para cenários de ação interessantes, porque a única coisa que mantém o filme unido e o leva ao status de grandeza são as pessoas que você vê na tela interagindo e formando relações estranhamente emocionantes.

Gunn de primeira já recebe pontos extras por não se desfazer completamente do filme anterior, mesmo com esse se assumindo bem mais como um reboot do que uma continuação direta do filme de Ayer, ele mantém o vinculo dos personagens que retornam já previamente estabelecidos no filme de 2016, preservando uma certa integridade do universo e serve como uma decente continuidade do que veio e fora estabelecido antes, sem se prender em nada do passado e cria suas próprias regras, e com total respeito pelos personagens que tem em mãos. E mais ainda, consegue evoluir e aprimorar os felizardos que conseguem sobreviver por tempo o suficiente no filme.

Mesmo aproveitando os “arcos” de certos personagens – se é que se pode dizer que o filme de 2016 teve, como Harley Quinn e Rick Flag que recebem uma revelação que melhora a bagagem já vinda do último filme, com Flag finalmente deixando de ser um capacho do exército e fazendo escolhas que ele considera serem as moralmente corretas, e que fazem você simpatizar com o personagem mais do que você pensava ser possível. E onde vemos Harley em sua maneira mais insana, por um lado, quando ela sopra as entranhas de capangas em uma cena, enquanto na outra uma morte específica mostra que ela tem sua sanidade e coração no lugar certo. E isso não soa forçado ou jogado na sua cara como em Birds of Prey exageradamente!

Até se aproveita de “arcos” de certos personagens – se é que se pode dizer que o filme de 2016 possuía, como Arlequina e Rick Flag que recebem um desenvolvimento que melhora com a bagagem já vindo do último filme, com Flag finalmente deixando de ser um capacho do exército e fazendo escolhas que ele considera serem as moralmente certas, e que te fazem se simpatizar pelo personagem mais do que se achava possível anteriormente. E onde encontramos Arlequina em seu modo mais insano de um lado quando ela explode as tripas de capangas em uma cena, e na outra uma morte especifica mostra que ela tem a sanidade e o coração no lugar certo, traços definidores da índole da personagem que não soam forçadas ou jogado na sua cara como Aves de Rapina exageradamente fazia.

Todos são muito bem beneficiados na tela, uns mais outros menos, mas o suficiente para que no final você sinta que conhece todos eles. E cada um com pelo menos uma cena importante para torná-los memoráveis em sua cabeça, enquanto alguns mostram mais coração e humanidade, outros são cheios de profissionalismo a sangue frio!

Os 7 Condenados

Bloodsport além do típico fodão que Idris Elba já sabe fazer de olhos fechados à essa altura, e construindo um personagem com muito sangue frio por debaixo de sua armadura, ele consegue fazer seu Bloodsport ser talvez uma das maiores surpresas do filme ao trata-lo com uma palpável leveza capaz de te pegar de surpresa com risos histéricos como sua fobia por ratos e alguma de suas reações para com as excentricidades dos personagens a sua volta, algumas dele mesmo, e que em nada estragam ou destoam da carga dramática que ele carrega, que não se rende em mostrar ele como um simples anti-herói, mas sim um vilão de verdade, com o coração no lugar certo!

Peacemaker é um que levanta a séria questão: como fazer você simpatizar, gostar e odiar um tremendo de um babaca como Peacemaker? Agradeça à caracterização PERFEITA de John Cena que mastiga suas cenas com tiradas cômicas perfeitas, e a incrível habilidade de Gunn em ter feito um personagem ambos hilário e ameaçador na mesma medida, e no final até dramaticamente complexo quando sua moral é posta em questão, mesmo que por pouco tempo em cena. Novamente provando a incrível habilidade de Gunn de pegar ex-astros de WWE e mostrar como eles são ótimos atores! E que te deixa querendo muito mais! A sua futura série spin-off nunca soou tão apetitosa como soa agora!

Harley – Se restava ainda alguma dúvida quanto à Margot Robbie como Arlequina, esse é o filme para por fim à essas dúvidas no que é facilmente a sua melhor participação nas telas da DC. Encontra o equilíbrio perfeito das excentricidades da personagem sem exageros, uma personalidade bem definida e encarnando boas tiradas cômicas aqui e ali sem sobrepor o estrelismo de Robbie acima de seus colegas de cena. E onde ela está mais hilária, letal, mentalmente INSANA, e sexy nunca é demais! E também dona da melhor cena de ação do filme!

Ratcatcher II – Basicamente o coração do filme. Daniela Melchior faz uma estrondosa estréia no cinema americano, trazendo à sua personagem uma carga de fofura e estranhismo que a fazem quase parecer um personagem tirado de um filme do Tim Burton com a sigla DC no nome. E que automaticamente quando em cena consegue carregar um ar de adorabilidade, e torna suas cenas dramáticas terem real peso e momentos pra brilhar alto, para não dizer até quase te fazer soltar uma lágrima. E claro, ao lado dela talvez o personagem mais importante do filme: Sebastian, o ratinho que vai te fazer deixar de ter medo de um e querer um como bichinho de estimação.

Rick Flag – Talvez o que menos vai ser elogiado dentre o elenco e injustamente pois Joel Kinman traz nova alma e personalidade ao seu personagem. Mais do que um mero capacho militar, Flag é um cara com índole e que não se rende fácil aos preceitos do seu governo. E que ainda encontra espaço para respeitar e gostar de seus companheiros vilões rendendo momentos de te fazer abrir um sorriso no rosto.

Polka-Dot Man – Imagine se o Norman Bates de Psicose fosse um cara amaldiçoado com bolotas coloridas dentro do corpo e as usa como armas letais. O que poderia ser facilmente ridículo e descartável se torna hilário e catártico graças à ótima atuação de David Dastmalchian, e que merecia ter muito mais cenas!

Amanda Waller – basicamente o que já era perfeita, adiciona uma carga extra de sadismo e muito sangue frio, e você tem aqui a versão definitiva de Amanda Waller nas telas. Viola Davis né…não tem muito o que dizer!

E claro, King Shark, basicamente o Animal sanguinário mais fofo que você verá na sua vida! Com a voz de Sylvester Stallone sendo a cereja no bolo em meio a toda a perfeição em volta dele! Entre outros ótimos como Peter Capaldi brilhando com um nojentinho repugnante e hilário The Thinker, que solta as verdades mais cruas ditas no filme inteiro, e também Sean Gunn como O Doninha que é…simplesmente…o Doninha.

Com Gunn fazendo o rara feito de te fazer gostar de todos da equipe principal, e isso funciona em níveis mais profundos por causa da natureza meio canalha de Gunn, usando sua grande habilidade de construir personagens, dando a esses caras tempo em tela para realmente se relacionarem como uma equipe e talvez até amigos, e instantaneamente fazendo você aumentar a simpatia por cada um deles. Só para depois usar isso contra o próprio público, quando os relacionamentos e as motivações se azedam, conflitos um pouco complexos aparecem, e as consequências que daí advêm têm seu peso realmente sentido.

E até mesmo quando certos personagens cometem atos bastante chocantes ou atitudes questionáveis, não parece forçado ou usado como efeito de choque por choque, pois corresponde à natureza de quem eles são como pessoas. A própria cena intro, embora usada principalmente como um efeito cômico ácido e chocante, carrega esse significado nela. Onde mesmo no momento em que o Esquadrão inicial é enviado para suas mortes certas, Gunn leva toma seu tempo e dá tempo o suficiente para que você possa conhecer e gostar desses personagens meramente descartáveis, e que causa o impacto agridoce de suas mortes. De todas as mortes no filme, na verdade, e tudo advêm do fato de que você não conseguiu ver e saber mais sobre eles. Onde o próprio humor tem um real propósito dramático na construção desses efeitos e dos ótimos personagens que os despertam!

Um Espetáculo de Respeito

Talvez o filme possa parecer um pouco preso no seu miolo, embora repleto de ótimos pequenos momentos ali, todos servindo novamente para o crescimento dos personagens, e com a maior parte das interações cômicas, onde o humor de Gunn ainda sendo um caso de ame ou odeie. E também para alguns segmentos dramáticos de desabafos entre os personagens que, embora com certeza piegas, partem de um cerne honesto na sua entrega performática e no roteiro, preenchido com diálogos memoráveis que você carregará por um tempo depois de ver. Tudo antes do filme engatar a primeira rumo a um território de filme de Terror B e ficção cientifica misturado com extravagância de blockbuster e filme de monstros kaiju, que tomam os minutos mais insanos do filme, e também os mais divertidos!

A ação se desenrola com uma natureza mais prática que em seus filmes GoG, com todo o sangue e violência realista que o grande orçamento permite, bem coreografadas e filmada com precisão clássica, limpa e detalhes sangrentos de sobra. E quando as grandes sequências em CGI invadem a tela a transição é limpa e natural, entregando um espetáculo blockbuster garantido, onde pequenos momentos se destacam de forma eletrizante e com uma real sensação de espetáculo. Quão raro é de um blockbuster recente realmente conseguir cumprir isso?!

A trilha sonora de John Murphy também merece elogios, pois é responsável por fazer algumas das melhores cenas do filme, elevando-as de soarem mero clichê banal. Como uma pequena cena de King Shark encarando um aquário, se torna tão bonita quanto tocante em sua simplicidade; ou quando temos um enxame de ratos matando uma estrela do mar gigante, acompanhada de uma trilha sonora que lhe dá um ar de gracioso e épico ao mesmo tempo, é extremamente bizarro como consegue ser lindo na mesma medida! E quando os membros restantes do Esquadrão literalmente correm para a luta, isso em qualquer outro filme poderia ter sido apenas brega, o que definitivamente também é aqui, mas também cheio de emoção épica e que se torna (ironicamente) realmente heroico.

Estranho para um filme de vilões, mas que também carregam uma presença antagônica que invade a tela quando Starro O Conquistador aparece. Pegue os aliens de Invasores de Corpos e misture com a rainha Xenomorfo de Aliens, e aí você tem seu vilão, algo que parece saído de um conto de Lovecraft. Até o próprio nome do lugar que ele ocupa, Jotunheim alude a isso, já que na mitologia nórdica é o mundo dos gigantes, e que ameaçava os seres humanos assim que fossem libertados.

E novamente impressionante como a presença do antagonista vem tão tarde no filme, mas deixa uma marca tanto de perturbador quanto instigante consegue ser com tão pouco, controlando pessoas zumbificadas e com sua voz ameaçadora cheia de raiva, e, de várias formas, ele muito se espelha com o Esquadrão. Assim como eles, Starro também era um ser perturbador, posto a fazer algo contra sua vontade e tendo sua natureza explorada. Seguindo a agenda militar do governo dos Estados Unidos, com suas práticas intervencionistas que deixam o país pior do que antes de sua influência entrar, e onde todas as almas dos soldados enviados e as inocentes são postas em xeque.

 

Uma Reflexão sobre o valor da Vida

Seria exagero argumentar se este filme, em sua essência, está discutindo o valor da vida ?! Como a forma como Gunn mostra a própria existência da própria vida no filme, como carcaças ambulantes de carne e sangue, mas que podem embalar alma e coração, ficar facilmente com medo e arrancar da existência, e colocá-la contra o próprio peso de sua própria natureza . Assim como o rebaixamento de Starro é que sua natureza era violenta demais para caber em nosso mundo, enquanto ele foi tirado do seu próprio, para morrer como um vilão; e Peacemaker encontrando seu fim sendo traído por seus próprios ideais extremistas. Mas também o efeito oposto: como a base literal de Ratcatcher em seu trauma de infância e o núcleo de todas as suas perdas, torna-se sua fonte final de poder no clímax.

Assim como a derrota de Starro vem do fato de sua natureza ter sido violenta demais para caber em nosso mundo, enquanto ele foi tirado do seu próprio, para morrer aqui como um vilão monstruoso; e Peacemaker encontrando seu fim sendo traído por seus próprios ideais extremistas e quebrando a fronte de herói patriótico que ele idealiza encarnar. Mas também o efeito oposto: como toda a base dos traumas de infância e o cerne de todas as perdas Ratcatcher, se mostram literalmente no clímax serem a maior fonte de seu poder.

Discute sobre o valor de cuidar uns dos outros como um, uma necessidade perceptível de nosso próprio ser e existência, de olhar para além da aparência monstruosa fabricada e da natureza que alguém pode ter, e buscar um bem aparentemente impossível que se encontra dentro de nós. Ao perceber o direito de ser vulnerável e mostrar esse lado como ser humano, e fala para se permitir alcançar e estender essa bondade interior para os outros. King Shark é uma máquina de matar pronta para comer qualquer um, mas vê bondade naqueles que o tratam com uma bondade que nele nunca se foi sentida, ou Bloodsport vindo de um fundo de masculinidade severa que o endureceu para o mundo.

É como quando Ratchatcher One diz no diálogo mais cafona do filme, e também o mais sincero:

“Os ratos são as criaturas mais baixas e desprezadas de todas meu amor. Se eles têm um propósito, todos nós também temos!”

Gunn acredita que o valor real de nossa natureza é ditado pela maneira como lidamos e respondemos aos nossos erros, demônios e traumas; mas mesmo assim, há bondade a ser encontrada na escuridão. O suficiente para deixar você em conflito quando certas mortes acontecem, nenhuma delas é realmente satisfatória. Mas, mesmo o mais cruel dos indivíduos, pode ter brilho em seus olhos e ideais, e uma bondade e valor capaz de ser enxergada.

Até o próprio Gunn talvez esteja questionando sua própria natureza deformada e a moral de seus gostos sádicos. Entregando um filme cru e brutal, a coisa mais próxima que um filme de super-herói mainstream alcançou de um filme Trash B, mas também cheio de honestidade em seus mais sinceros sentimentos transpostos na tela. Bem… talvez haja mais substância do que alguns gostariam de admitir aqui, ou o filme sequer se preocupa em explorar além de seu interesse principal, que é em volta de seu elenco de personagens incríveis.

É um filme estranho em todas as formas possíveis de definição, e incrivelmente charmoso por causa disso, sendo livre para explorar seus próprios níveis de violência com verdadeiro gosto sádico puro, enquanto carregado com muito coração e amor pela vida e pela própria humanidade. Como isso é possível? Eu não sei, apenas Gunn poderia ter feito isso! Isso não o torna nenhum visionário, apenas mostra mais uma vez como ele é bom em seu trabalho e como ele é bom em entregar filmes de história em quadrinhos muito diferenciados e únicos no mercado atual facilmente mastigável, o que O Esquadrão Suicida definitivamente não é!

O Esquadrão Suicida (The Suicide Squad, EUA – 2021)

Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: Margot Robbie, Idris Elba, John Cena, Daniela Melchior, Sylvester Stallone, David Dastmalchian, Viola Davis, Joel Kinnaman, Peter Capaldi, Jai Courtney, Flula Borg, Nathan Fillion, Michael Rooker, Pete Davidson, Sean Gunn, Alice Braga, Storm Reid, Jennifer Holland, Taika Waititi
Gênero: Ação, Comédia
Duração: 132 min

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Publicado por Raphael Klopper

Estudante de Jornalismo e amante de filmes desde o berço, que evoluiu ao longo dos anos para ser também um possível nerd amante de quadrinhos, games, livros, de todos os gêneros e tipos possíveis. E devido a isso, não tem um gosto particular, apenas busca apreciar todas as grandes qualidades que as obras que tanto admira.

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