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Crítica | Twin Peaks – 2ª Temporada

(Este texto contém spoilers)

Poucas pessoas odeiam a segunda temporada de Twin Peaks tanto quanto David Lynch. É sabido que ele e Mark Frost não desejavam revelar a identidade do assassino de Laura Palmer (Sheryl Lee) e tiveram de fazê-lo somente porque a emissora exigiu. Para os criadores, se o mistério tivesse sido expandido, os outros personagens continuaram sendo desenvolvidos ricamente e a série teria uma sobrevida maior. Caso contrário, a história não teria para onde ir e acabaria se esgotando. Vendo a maioria dos episódios, não é preciso ir muito longe para perceber que Lynch e Frost estavam corretíssimos.

Até o “Episódio 15”, o sétimo da segunda temporada, apesar de ter alguns pontos fracos, como a subtrama envolvendo o personagem Harold Smith (Lenny Von Dohlen), a série manteve o nível da primeira, além de conter alguns dos melhores episódios do programa. No entanto, a partir do momento em que o público descobre quem foi de fato o assassino (numa revelação que toca em vários assuntos tabus, como estupro e incesto), a história começou a oscilar e, no terço final, se perdeu completamente.

Os últimos episódios da série foram uma mistura infrutífera de indecisão artística e tentativas fracassadas de recriar as bizarrices de David Lynch. Mas uma coisa é ter um sujeito genuinamente “estranho”, ou seja, alguém que realmente tenha uma mente que funcione de uma maneira totalmente única e peculiar, outra é ter um grupo de roteiristas tentando criar coisas excêntricas para recriar o estilo de um outro artista. A diferença é grande, e os últimos capítulos do programa provam isso resolutamente.

O mistério acerca de Windom Earle (Kenneth Welsh) até teve o seu charme e reservou alguns bons momentos ao espectador, mas tolices como a superforça de Nadine (Wendy Robie), os segredos sobre atividades alienígenas e outras subtramas jogaram o programa para baixo, e, de lá, ele não conseguiu mais sair. Nem mesmo o retorno de Lynch à direção no último episódio, os mistérios do Black Lodge e um cliffhanger descarado sobre o destino do agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan) foram capaz de salvar a série do iminente cancelamento. Após uma primeira temporada magistral, Twin Peaks era tristemente encerrada pelo canal ABC.

Os motivos para esse triste fim foram vários, desde o “abandono” de Lynch, que teve de sair do dia a dia da produção para dirigir o filme Coração Selvagem, até as escolhas equivocadas dos roteiristas que se tornaram responsáveis pelo desenrolar da história, passando pelo fato de que Frost também não esteve tão presente como na primeira temporada, mas é difícil fugir da constatação de que o fim prematuro do mistério que dava fôlego à série foi o grande culpado. De uma hora para a outra, a atração principal do programa tinha sido retirada dos olhos do público e não havia mais nada a ser acompanhado.

Sim, os personagens continuavam cativantes e um ou outro mistério mantinha a atenção do espectador, mas não dá para negar que a revelação da identidade do sujeito (ou ente) que tinha matado Laura Palmer foi o ponto final da história. É importante lembrar que o mote do seriado era o assassinato de Palmer, e que a aparente perfeição dos moradores e da cidade na qual habitavam se diluía em razão desse acontecimento. Era como se a morte dessa jovem garota tivesse sido o estopim para que todas as máscaras e todos os véus caíssem, e as verdadeiras identidades das pessoas aparecessem no lugar.

Depois que isso foi solucionado, realmente, não havia mais o que fazer. Aconteceria a mesma coisa se Arquivo X tivesse revelado os seus seus maiores segredos ainda na segunda temporada, ou os criadores de Lost tivessem explicado o que era a Ilha logo nos três primeiros anos. A história não mais se sustentaria, e os programas seriam cancelados imediatamente. Mais uma vez, uma imposição impensada dos estúdios colocaram a perder toda uma criação artística. Não é à toa que depois Lynch voltaria a ter relações conflituosas com os executivos da indústria cinematográfica.

Mas, agora, anos após o lançamento de Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, um filme que frustrou muitos fãs por não ter dado seguimento à trama e sim mostrado a última semana de vida de Laura Palmer, estamos próximos da estreia da nova e aguardada terceira temporada. 26 anos depois, descobriremos, enfim, o que aconteceu com Dale Cooper e quais foram os caminhos trilhados pelos outros personagens. Para Lynch e Frost, que retomam as rédeas do programa que nunca deviam ter abandonado, é a tentativa de apagar a mancha que foi o último ano da série.

Pois, como o próprio Lynch disse em uma entrevista recente, a segunda temporada de Twin Peaks é uma “droga”.

Twin Peaks – 2ª Temporada (EUA, 1991)

Criado por: David Lynch e Mark Frost
Direção: David Lynch, Mark Frost, Duwayne Dunham, Tina Rathborne, Tim Hunter, Lesli Linka Glatter e outros
Roteiro: David Lynch, Mark Frost, Harley Peyton, Robert Engels e outros
Elenco: Kyle Maclachlan, Michael Ontkean, Sheryl Lee, Sherilyn Fenn, Ray Wise, Everett McGill, Russ Tamblyn, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Dana Ashbrook, James Marshall, Warren Frost, Mädchen Amick, Peggy Lipton, Jack Nance, Billy Zane, David Lynch, Heather Graham, Kenneth Welsh, Lenny Von Dohlen, David Duchovny
Emissora: ABC
Gênero: Suspense
Duração: 990 minutos

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Publicado por Miguel Forlin

Comentários

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  1. Twin peaks é, de muito muito longe, a pior coisa que tive o desprazer de ver em toda minha vida.

    Devido a ser cinefilo desde mais jovem, fui inflamado a assistir tamanho o elogio que me foi passado por cada amigo. Diziam: “vc que curte de cronenberg a jodorovsky, de scorcese a bergmann, vai amar!”
    Quase como me desculpando e garanto que sem arrogancias, nao sou alguem distante de temas impopulares, exoticos, bizarros ou etc… de certa forma sao meus favoritos. Nao tenho dificuldades em compreensao ou com metalinguagem, tenho sensibilidade pra pacientemente buscar significados e tudo o mais. De kurosawa a kubrick e Argento, fui praticamente empurrado por decadas a assistir, pois todos diziam que “fora feito pra mim”.

    Comecei a assistir e somente por um tipo de vicio torturante continuei pra ver ate onde ia.

    Poderia citar dezenas de adjetivos, sentimentos e criticas, de piegas e prepotente a broxante e lixo toxico incrivelmente ridiculo, mas transpareceria um odio que gostaria de nao demonstrar muito.

    A 1a temporada é ultrajante de tao pedante e brega, a 2a ate sua metade piora em certos elementos e cria catividade em outros pra simplesmente jogar tudo no esgoto coisa de duas cenas adiante.

    Atuaçoes sofriveis, um senso de humor patetico quase beirando ao pastiche, textos menos inspirados do que de pornos dos anos 70, trilha que de incrivel e bela passa a virar uma tortura de tao repetitiva, invasiva nas cenas e esteriotipada, executada à exaustao, incansavel e pateticamente infrutiferas quando percebe-se que este desencaixe com as cenas é proposital para o efeito noir, ironico, sombrio.. sem ser nada disso. As vezes é uma puta carga dramatica numa gota de cafe caindo, noutra a poesia tao melosa que por pouco nao .e fizeram vomitar. Posturas e closes dos mais canastras possiveis, cenas muito alem de telenovelas paraguaias.

    No entanto, alguns pouquissimos personagens sao carismaticos apesar de ridiculos e caricatos, e todo o chorume que a serie apresenta por duas temporadas servem pra dar algum antecedente pro episodio 22 da 2a temp.

    Ideias incriveis pela metade ou nem isso, personagens que somem, voltam, e vc preferia q nem existissem, subtramas dignas do picapau, enigmas por enigmas, misterios so pra soar estranho e dar um ar nonsense, tudo isso arrastado ate vc querer se suicidar de tao maçante. Salvando quase que exclusivamente as cenas e conceitos dos sonhos e do black lodge.

    Me sinto ultrajado de perceber o quao cafajeste esta serie é e como podem tantos adorarem isso.

    Essa serie é uma aberraçao de tao mequetrefe.
    Pior que agora vou ter q ver a 3a d o filme pois quero ver ate onde isso leva.

    Nao veja isso como uma ofensa ao gosto peculiar de quem escreveu o artigo ou à sua inteligencia e sensibilidade. Tampouco vim pra fazer ofensa gratuita a lynch, seus fãs e etc.

    independente de tudo que despejei, reconheço a importancia seminal e a ideia de se fazer arte alem dos moldes predeterminados ou esperados. Respeito o sentimento nostalgico, os temas interessantissimos e ate mesmo uma direçao muito paternal, que transborda carinho de lynch pelas pessoas envolvidas, as vezes ate deixando que escolhas empaticas adentrassem na serie.

    Hoje, de ouvir onome twin peaks, ja tenho que trabalhar pra nao passar raiva.

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