Emilia Clarke teve seu grande papel de destaque na aclamada série de ficção fantástica Game of Thrones, interpretando a rainha Daenerys Targaryen e, depois de ter conquistado o coração dos fãs com sua incrível performance, ela se aventurou em na comédia romântica Como Eu Era Antes de Você ao lado de Sam Claflin. Ainda que sua enorme envolvência conseguisse superar o fato de que os protagonistas não compartilhavam de qualquer química, levaria três anos até que Clarke voltasse para as telonas com Uma Segunda Chance para Amar, filme que, ironicamente, traz atuações impecáveis de um elenco apaixonante, mas falha em construir uma narrativa com coesão significativa.

Aqui, a atriz dá vida a Kate, uma jovem com grandes dificuldades de compreender que é uma adulta e que se submete e uma vida que nunca desejou para sobreviver. Logo de cara, a nossa anti-heroína é expulsa da casa em que mora e vaga pelas ruas de Londres até chegar ao seu trabalho – uma loja de decorações natalinas que pertence à austera e materna Santa (Michelle Yeoh). E isso não é tudo: fica bem claro desde o começo que Kate é infeliz em basicamente tudo o que faz, e o que a livra de se transformar em apenas mais alguém que é movida pela força do ódio é o sonho de trabalhar com o que realmente gosta: cantar.

Como todas as rom-coms, o enredo que se apresenta é dividido em três partes: na primeira, a força-motriz que é encarnada por Clarke está no fundo do poço e sem qualquer prospecto para um futuro diferente em que alcance seus objetivos; já na segunda, Kate cruza caminho com um estranho, que no caso se chama Tom (Henry Golding), e, apesar de se conhecerem da pior e mais bizarra forma possível, acabam se reencontrando outras e outras vezes e desenvolvem uma espécie de relação que poderia ou não se transformar em algo romântico; na terceira, após passar pela brusca quebra da idealização, ela mergulha em sua autorredenção e junta as forças necessárias para ascender ao outro extremo de seu arco inicial.

Se pensarmos bem, praticamente todos os filmes do gênero se valem dessa fórmula; ainda que Paul Feig tente fugir dos convencionalismos apresentados no parágrafo acima com elementos críticos e reviravoltas que insurgem da própria interação dos personagens, o resultado final é morno demais para representar uma quebra considerável em relação a outras produções. Na verdade, o roteiro assinado por Emma Thompson, Greg Wise e Bryony Kimmings arquiteta uma trama que tangencia o sobrenatural do modo mais incrível possível e então desengata em um intangível finale que é, em suma, frustrante.

Kate não apenas lida com o fato de estar descontente com o rumo que sua vida está levando, mas também com sua desconjuntada família: de um lado, sua mãe Petra (Emma Thompson) lida com o fato da filha estar longe de tudo e de todos e com o crescente movimento anti-imigratório que toma conta da Inglaterra; de outro, a irmã Marta (Lydia Leonard) tenta ajeitar os problemas que há muito tempo vêm influenciando na organicidade de um núcleo outrora unido e agora afastado, enquanto luta para aceitar a si mesma; e, de um terceiro ponto de vista (o principal, no caso), a personagem principal se recusa a aceitar seus defeitos e crê de todas as formas possíveis que o que faz é para um bem maior.

Eventualmente, a bonança trazida pela presença de Tom é o empurrão que Kate precisava para colocar na balança seus deslizes como pessoa e como profissional. Após receber um ultimato de Santa, que tentou ajudá-la o máximo que conseguiu, ela se aproximou da presença irradiante do charmoso rapaz e começou a fazer bom uso de suas habilidades: de fato, ela percebeu que Tom vivia sumindo pelas estreitas ruas do centro londrino e, como modo de canalizar a raiva que sentia por ser constantemente “abandonada”, resolveu se voluntariar num centro para indigentes e orquestrar um incrível show de fim de ano para arrecadação de fundos.

Fica óbvio que a narrativa, por mais pura que sejam suas intenções, é saturada de subtramas desnecessárias e que apenas pesam para algo que deveria ser confortável para o público. Em vez de escolher seguir um padrão cinematográfico já conhecido pelos espectadores, Feig opta por ampliar seus horizontes a partir de uma estrutura engessada e limitada a si própria – e talvez seja por esse motivo que o principal twist da obra peque em sua naturalidade. Mesmo que surpreendente, a revelação de que Tom estava morto o tempo todo e que teve seu coração doado para que Kate fosse salva de um trágico acidente é forçada demais até para os mais crédulos. Na verdade, a existência de uma backstory de situações de vida e morte é melodramática em excesso (e isso se tratando de uma comédia romântica de Natal).

Uma Segunda Chance para Amar, do mesmo jeito que outras produções conterrâneas, acerta seus holofotes para extrair o máximo de candidez de seu competente elenco e, por tal razão, se esquece de voltar a atenção para a estória. Se Feig, Thompson e o restante da equipe técnica tivessem se preocupado um pouco mais com esse aspecto, o longa-metragem seria, de longe, um dos melhores do ano.

Uma Segunda Chance para Amar (Last Christmas – Reino Unido, 2019)

Direção: Paul Feig
Roteiro: Emma Thompson, Greg Wise, Bryony Kimmings
Elenco: Emilia Clarke, Henry Golding, Emma Thompson, Michelle Yeoh, Boris Isakovic, Maxim Baldry, Lydia Leonard
Duração: 103 min.