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Crítica | Velozes & Furiosos 9 – Maior, mais ridículo e ainda divertido

É quase obsceno olhar para o título de um filme e vê-lo acompanhado de um 9. Imediatamente me faz pensar em paródias como Anjos da Lei e Todo Mundo em Pânico, que brincavam com o conceito de sequências infinitas, mas uma propriedade como Velozes & Furiosos já vem há uma década jogando o conceito de ridículo para o alto, fazendo dele seu trunfo absoluto – desde que Vin Diesel e companhia decidiram que aventuras espalhafatosas eram mais interessantes do que rachas automobilísticos e roubos de aparelhos de DVD.

O que nos leva a este Velozes & Furiosos 9 (economicamente entitulado de F9 no original), que segue investindo na construção de uma mitologia épica e melodramática, ao mesmo tempo em que parece se tornar cada vez mais auto-consciente de seus absurdos. É uma decisão que aproveita o melhor e o pior dessa proposta.

A trama do filme segue Dom Toretto (Diesel) levando uma vida normal ao lado de Letty (Michelle Rodriguez) e seu filho pequeno, Brian. Ele é forçado a reunir sua equipe de Furiosos mais uma vez quando o misterioso Sr. Ninguém (Kurt Russell) é traído por um de seus agentes mais letais: Jakob (John Cena), o irmão perdido de Dom que agora trabalha para a hacker Cipher (Charlize Theron) a fim de obter um dispositivo que ameaça a segurança do mundo.

Família Buscapé

Após oito filmes e um derivado estrelado por Dwayne Johnson e Jason Statham, é de se imaginar o que a Universal aprontaria para a franquia de Diesel. Pela primeira vez em mais de uma década sem o roteirista Chris Morgan (que ajudou a ressuscitar a franquia com o subestimado Desafio em Tóquio), o veterano Justin Lin (que comandou os filmes de 3 a 6) retorna para assumir a direção e co-escrever o filme ao lado do novato Daniel Casey. Como não poderia deixar de ser, esse novo capítulo bate ainda mais forte na tecla da “família”, com a introdução novelesca do irmão de Dom rendendo uma série de flashbacks que, de fato, ajudam a tornar o contexto geral do primeiro filme mais rico – além de garantir um arco competente para o protagonista, que prega a palavra dos laços fraternos, mas tem um irmão de sangue excomungado.

Tal decisão ganha força pelos bons flashbacks (e agradeço a Lin por não apostar em rejuvenescimentos digitais capengas), mas derrapa no quesito de antagonista. Por mais que John Cena seja um ator carismático, não demonstra um peso tão grande nem tão memorável para o grupo de Dom. Pior ainda é a figura do magnata Otto, vivido por um desinteressante Thue Ersted Rasmussen, fazendo o que pode com sua caricatura de Mark Zuckerberg – o diálogo envolvendo personagens de Star Wars é um dos pontos mais vergonhosos de sua construção vilanesca.

Essa reviravolta dramática também é refletida nas intenções maiores do que a vida de Vin Diesel. Além de astro, o ator também tem grande poder sobre as funções de produtor na franquia, e fica nítido que esses filmes precisam de um fator dramático forte. Isso acaba arrastando um tanto a já extensa projeção de 140 minutos, e ainda que seja muito louvável trazer de volta o adorado personagem Han (Sung Kang) de volta dos mortos, a justificativa é tão absurda que acaba tirando o peso de sua introdução; e a presença de Kang infelizmente é pequena demais para causar um impacto positivo.

Enter + Cima + Direita + Direita + Triângulo

Mas o que realmente importa em um filme de Velozes & Furiosos é a ação. Gosto de brincar que a saga de Dom Toretto é o mais próximo que teremos de uma adaptação de Grand Theft Auto nos cinemas, onde cada novo exemplar introduz cheats trapaceiros ainda mais absurdos. E no caso de F9, Lin não traz algo tão embasbacador quanto o tanque de guerra do sexto filme, o assalto ao cofre em Operação Rio ou até mesmo a alucinante perseguição de submarino no anterior. 

Porém, o cineasta claramente se diverte com as possibilidades divertidas de uma arma magnética acoplada aos carros dos protagonistas, o que garante a maior parte das maluquices, mas o grande destaque fica para a viagem nada convencional de dois personagens ao espaço sideral; uma cena que vale mais pelas risadas genuínas do que um fator de espetáculo cinematográfico – algo que todas as sequências de ação citadas acima tinham de sobra. Ainda assim, é difícil reclamar de um filme que não tem a menor vergonha em colocar Helen Mirren fazendo drifts enquanto despista policiais em Londres. Nada é impossível no Velozesverso.

No fim, Velozes & Furiosos 9 não oferece muito de inovador para uma franquia que tem se especializado no ridículo. A ação é divertida, ganhando mais força por se tornar cada vez mais autoconsciente em relação ao absurdo de seu universo, mas definitivamente precisa de um asterisco para não se levar a sério demais.

Velozes & Furiosos 9 (F9: The Fast Saga, EUA – 2021)

Direção: Justin Lin
Roteiro: Daniel Casey e Justin Lin
Elenco: Vin Diesel, Michelle Rodriguez, Tyrese Gibson, Chris “Ludacris” Bridges, Jordana Brewster, Nathalie Emmanuel, Sung Kang, John Cena, Charlize Theron, Kurt Russell, Helen Mirren, Lucas Black, Shad Moss, Vinnie Bennett, JD Pardo, Michael Rooker, Finn Cole
Gênero: Ação
Duração: 143 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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