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Crítica | Vende-se Esta Casa – (Mais) Um Filme Ruim

O gênero terror preza pela completa catarse por parte do público, normalmente submetido a eventos de pura angústia e falta de esperança, despertando descargas de emoção que perduram durante toda a duração de determinada obra e até mesmo mais. Normalmente, essa vertente narrativa traz uma ambientação sombria ou que, olhando de modo mais profundo, oferece o necessário para que eventos sobrenaturais ou inesperados possam acontecer de forma crível e até mesmo para permitir que nós duvidemos da segurança de nossos próprios lares – e também é de modo quase previsível associar essas ambiências a, por exemplo, casas mal assombradas e milenares que carregam histórias de tirar o fôlego.

Não é nenhuma surpresa que contos considerados reais, como as entidades de Enfield combatidas pelo casal Ed e Lorraine Warren e até mesmo o secular e sangrento pano de fundo da mansão em Amityville tenham sofrido adaptações para os cinemas e para a televisão em franquias que ou penderam para o sucesso e para a originalidade, ou então para o fracasso total que reafirmaram mais uma vez a saturação do gênero. E de forma quase dolorosa é isso o que justamente em Vende-se Esta Casa – uma obra que não tem direção, identidade ou funcionalidade dentro de um escopo extremamente desgastado.

A trama tem um início interessante, porém com uma premeditação quase certeira: uma família equilibrada e feliz logo sofre com a trágica morte do patriarca (interpretado por Aaron Abrams) e é obrigada a enfrentar uma série de fluxos emocionais que impactam dia após dia em seus cotidianos, levando-os inclusive a não conseguir permanecer na casa em que vivem por motivos financeiros e psicológicos e a procurar um novo lugar para morar – que é oferecido por um parente em comum. O novo lar fica localizado em uma cidade interiorana, no alto de uma montanha isolada de qualquer centro urbano e que naturalmente pede por obstáculos dos mais variados. Naturalmente; isso não quer dizer que a história criada por Matt Angel e Suzanne Coote faça o que se espera, tentando atirar para outra direção e errando todo e qualquer alvo visível.

O grande problema do filme é talvez o desejo dos diretores, que coincidentemente fazem pontas no filme e são responsáveis pelo roteiro, de transcrever um conto vazio para as telas da Netflix – e talvez essa seja a única coisa que o afaste de ser um simulacro ainda pior que Amityville – O Despertar, outro longa-metragem totalmente desnecessário e que em nada inova. E mesmo que ambos carreguem essa semelhança, o dirigido por Franck Khalfoun ainda consegue utilizar-se de algumas sacadas cômicas para mostrar sua completa falta de preciosismo; já a nova produção original do serviço de streaming é irritantemente presunçosa e deseja se tornar algo que não irá ser nem com todas as investidas possíveis dentro de gênero que explora.

O filme é monótono; superficial; permanece em uma zona de conforto que não ousa e nem busca ousar pelo simples fato de não saber aonde ir. Essa permanência dentro de um cosmos fechado é movido apenas por objetivos que não fazem o mínimo sentido e quebram qualquer possibilidade de conexão e coerência narrativa. A complexidade dos personagens, que também não insurge em nenhum momento, reafirma a inexistência de qualquer fatos humanitário e ínfimo que seja para se tornem palpáveis o suficiente e passíveis para que possamos compreender suas angústias, suas aspirações e seus traumas. É claro que não podemos exigir muito de um filme de pouco mais de uma hora e meia e que busca nas premissas mais antigas dos thrillers uma saída menos burocrática; mas é absurdo pensar que não há tratamento, seja na história, seja na concepção estética, que o faça ter uma faísca sequer de brilho ou de originalidade.

Não há nem mesmo os pressupostos laços entre mãe e filho, os únicos remanescentes de uma filha conturbada. Dylan Minnette e Piercey Dalton encarnam respectivamente Logan e Naomi Wallace e, se o primeiro ato do filme dá a entender que seu relacionamento tem possibilidade de ser explorado, até mesmo para os eventos que ocorrem ao decorrer do longa, esse foco logo se perde para diálogos sem qualquer nexo. Em determinado momento, no auge do que se entenderia como “suspense psicológico”, ambos os personagens atacam um ao outro buscando encontrar uma forma de não se martirizar e canalizar a raiva e a angústia que sentem desde a morte do marido/pai. Mas tudo é conduzido de forma tão asséptica que a inexpressividade e as atuações canastronas nos colocam num estado forçado de letargia pura – em outras palavras, permanecemos tão inexpressivos quanto aqueles que performam bem diante de seus olhos.

As coisas não param por aí: esse escopo interno insurge também na figura de um assassino desconhecido, que não sabemos de onde veio, para onde vai ou qual a sua real motivação para os novos residentes da casa na montanha. Isso sem falar que a narrativa se vale de um pano de fundo ridículo, por falta de outra palavra – a visitação aberta para possíveis compradores. Não é possível compreender a inserção de tal subtrama na obra, visto que ela não impacta em nenhum momento na organicidade dos protagonistas e do enfrentamento de seu adversário.

Angel e Coote também falham miseravelmente na construção da atmosfera de terror. Não sabemos o que esperar, e não pelo fato da história ser intricada o suficiente para se tornar ambígua e subjetiva, mas sim pela inexistência de algo para ser aguardado: tudo ocorre na mais perfeita paz – ora, o filme nem se quer se reverencia para os clichês do gênero com os jump scares – e só engatam de forma frenética no terceiro ato, onde uma sucessão de eventos sem sentido também coloca um fim para o arco de todos os personagens de forma brusca e desnecessária, e que não causa nenhuma reação aparente no espectador.

Vende-se Esta Casa é uma obra podre e nem pode ser considerado como um simulacro dos filmes de terror ou dos thrillers psicológicos nos quais tenta se inspirar. Sua pretensão exacerbada o transforma em algo vazio e que não é digerível por absolutamente nada, nem pelos fãs do mais gore ou do mais caricato. E se houvesse uma lista prematura dos piores longas do ano, garanto que este estaria nas primeiras posições – sem sombra de dúvida.

Vende-se Esta Casa (The Open House, EUA – 2018)

Direção: Matt Angel, Suzanne Coote
Roteiro: Matt Angel, Suzanne Coote
Elenco: Dylan Minnette, Piercey Dalton, Sharif Atkins, Patricia Bethune, Matt Angel, Suzanne Coote, Aaron Abrams
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 91 min

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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