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Crítica | Veneno – Três Contos Febris

O fluxo do contágio.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
20 de janeiro de 2018 · 5 min de leitura
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Elevado pelo filósofo Jean-Paul Sartre à altura de uma espécie de santo (Saint Genet – Ator e Mártir), Jean Genet, referência no universo da literatura marginal, norteia a missa bárbara rezada por Todd Haynes em seu primeiro longa-metragem: Veneno, gesto fundador de seu cinema – um passo além de Superstar: The Karen Carpenter Story, seu média-metragem anterior. Haynes regeu esse fulminante début em resposta à urgência da epidemia de AIDS, encaixando o filme no movimento conhecido como New Queer Cinema, que contou com trabalhos de nomes como Gus Van Sant, Derek Jarman e Tom Kalin.

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Inspirado na obra de Genet, em especial em três obras que contam com citações em tela (O Milagre da Rosa, Nossa Senhora das Flores e Diário de um ladrão), Veneno é dividido em três segmentos de naturezas bem diferentes intercalados na montagem. O primeiro deles, Hero, trata sobre Richard Beacon, um menino de 7 anos que assassinou seu pai a tiros enquanto este agredia sua mãe e, para fugir, pulou da janela, voou e desapareceu para sempre. Aqui, Haynes opta por adotar o mockumentary, um documentário padrão, falso, repleto de dramatizações, depoimentos e narrações em off. Essa estética seria refinada anos depois em Velvet Goldmine.

Ao dar atenção ao universo escolar e familiar de Richard, percebe-se, sob toda a ironia e o surreal da situação, sugestões sobre o porquê dessa criança ter se tornado um pária na tenra infância. Esse acontecimento e suas causas, por sua vez, contamina os depoentes: uma mãe ainda perplexa com o que testemunhou, crente na excepcionalidade do filho; vizinhas chocadas, contando causos sobre o estranho garoto; um colega de colégio que fora obrigado a participar de uma sugestiva “brincadeira”. No melhor tom de psicanálise sensacionalista, Haynes ergue a figura de um herói incompreendido, inexistente, uma lenda urbana.

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Outro episódio, Horror, é um espaço tanto de homenagem à ficção científica dos anos 50 e suas peculiaridades, quanto ao poder desse gênero ficcional para tratar do presente. Um médico descobre como condensar a libido sexual e logo em seguida ao sucesso do experimento, após conhecer sua nova assistente de laboratório, toma por acidente a tal substância. Ao contrário do que se poderia imaginar, as moléculas de instinto liquefeitas não tem quaisquer efeitos semelhantes ao de um viagra. Ou talvez tenha, só que de maneira tão explosiva que o organismo acaba desenvolvendo lepra. Infelizmente, a vida do lazarento é só uma, mas suas condições o impedem de manter relações com qualquer um, ou seja, é incapaz de praticar o amor que sente. Esse episódio mais óbvio, filmado em preto e branco e com algumas cenas claustrofóbicas, ora com lentes grande angulares, ora com câmera subjetiva, prepara o terreno para uma experiência essencialmente “genetiana”.

O espaço de Homo é aquele das obras de Genet: a homossexualidade à flor da pele em uma prisão. Encapsulado na natureza dessas relações, centrado em um protagonista introspectivo, o Poder se manifesta através da brutalidade. O prazer é sufocado pela violência e pela degradação. Homo é praticamente uma atualização e uma homenagem ao único filme dirigido por Jean Genet, o curta-metragem Canção de Amor, de 1950. Em seu balé erótico, Genet não poupou corpos esculturais, ereções e onanismo com figuras que parecem saídas diretamente de um Pasolini. Assim como não deixou de lado uma sensibilidade bem particular, sutil, com cenas idílicas, sonhos de amor e liberdade.

Haynes, por sua vez, preferiu uma abordagem menos direta, mais duvidosa, sem deixar de ser chocante. Em um momento, presenciamos um estupro, em um intenso chiaroscuro que realça apenas o mais brilhante e saliente; no outro, uma encenação teatral, às claras, revelando as memórias do protagonista em um internato. Com atores adultos representando adolescentes, as cenas revelam o teor dessa precocidade, não desmoralizante por si, mas pelas suas consequências nos momentos de humilhação – tão ou até mais sensuais quanto os da prisão. Neste segmento, Haynes também faz uma carta aberta à sua paixão por Fassbinder, aquele de Querelle – também inspirado em um livro de Genet.

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Ao intercalar essas três histórias, apostando na montagem como coluna vertebral de Veneno, Haynes busca estabelecer uma fluxo pedagógico, tentando traçar paralelos entre os contos, seja na semelhança das situações ou na repetição de técnicas visuais (as câmeras subjetivas; o olhar para uma janela; uma mão de uma criança que afana os pertences dos pais, e outra que estimular o sexo do parceiro). Fora essa intenção, o fluxo das imagens é interrompido várias vezes para dar espaço para outra narrativa, nem sempre no melhor momento, abandonando uma expectativa, exigindo a paciência e a investimento do espectador. Não me parece difícil encontrar a causa dessa falta de medida no contexto em que o filme está inserido.

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Por outro lado, no contexto da retrospectiva, Veneno revela-se quase como um microcosmo da obra de Haynes, pronto para ser decupado, estendido, transpirado. É um filme embalado pelo espírito de seu tempo e menos preocupado com a presença do Cinema (apesar da imagem do vídeo ser uma preocupação em Hero) e seus paradigmas. Diferente, por exemplo, da situação homogênea da filmografia de Aronofsky, pretensamente complexo e hipnotizante desde Pi, o qual não deixa de reter alguma semelhança com Veneno.

Em entrevista ao IndieWire em 2011, Haynes afirmou que não conseguiria para produzir algo como Poison hoje. E ele tem toda a razão. O que não impede que o filme cresça com o passar do tempo.

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Veneno (Poison, 1991 – EUA)

Direção: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes, inspirado nas obras de Jean Genet
Elenco: Edith Meeks, Millie White, Buck Smith, Anne Giotta, Lydia Lafleur, Ian Nemser, Rob LaBelle e Evan Dunsky
Gênero: Drama, Terror, Romance
Duração: 85 min.

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Tags: #Evan Dunsky #Rob LaBelle #Todd Haynes
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