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Crítica | Voyeur – A Anatomia de um Sociopata

As consequências de um jornalismo desleixado.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
22 de dezembro de 2017 · 4 min de leitura
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Pode parecer algo vindo diretamente de um episódio estranho de Scooby-Doo ou de algum seriado sobre mistérios ruins, mas o que temos aqui é um breve estudo sobre um sociopata que foi até o limite para saciar seus desejos. Voyeur, novo documentário da Netflix, traz a história de Gerald Foos, um idoso que deseja revelar o maior segredo de sua vida: espionar pessoas por trinta anos.

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Para isso, Foos comprou um hotel inteiro e construiu um túnel que conectava todos os quartos dando a possibilidade de bisbilhotar a vida privada de seus hóspedes desavisados. Mantendo um diário completo de todos os anos de atividade, Foos testemunhou coisas que iam muito além do sexo.

A fim de tornar sua história conhecida para o mundo, o bisbilhoteiro entrou em contato com um dos maiores jornalistas dos EUA: Gay Talese. Mantendo o contato por mais de vinte anos, os dois decidem que finalmente chegou a hora de contar o maior segredo da vida de Foos. Porém, no decorrer do filme, as coisas não saem tão bem como planejaram.

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Rotas emergenciais

Dirigido pela dupla Myles Kane e Josh Koury, temos diversas abordagens técnicas em Voyeur para manter o espectador interessado na tela. Nitidamente temos dois filmes em um, devido a uma mudança brusca de estilo no meio do documentário.

Kane e Koury começam apresentando a vida dos dois objetos de estudo de sua obra, já fazendo que o espectador compreenda quem são essas figuras, principalmente Talese. Definindo suas conquistar profissionais, o jornalista, já muito idoso, deseja contar sua melhor história antes de morrer. Logo, é imposta uma tremenda importância nesse projeto e no personagem que marcarão para sempre a vida de Talese.

Essa primeira metade é concentrada no modo mais convencional de filmar documentários: entrevistas posadas e planejadas com alguma encenação dos casos que Foos expõe para os diretores e Talese. O filme inteiro poderia ser concentrado nisso, nas histórias que Foos deseja contar enquanto o jornalista realiza a matéria e o livro, porém a realidade bate à porta rapidamente quando o ego dos dois começa a inflar.

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Nisso, temos o imponderável agindo diretamente sobre os rumos do documentário, o transformando completamente. Se antes tínhamos os relatos de Foos como objeto de estudo, agora temos a terceira idade do personagem como foco, além da aparente amizade dele com Talese.

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O fato é que algumas das coisas que Foos conta não são verdade. Provas materiais contestam alguns de seus relatos deixando a credibilidade de Talese no chinelo, já que o jornalista não checou os fatos como deveria. Nisso, Voyeur se transforma em um documentário sobre as problemáticas que Foos causa para ele próprio e Talese que vê seu trabalho indo pelo ralo.

Com um conflito poderoso desses, os diretores acertam em mudar de abordagem e seguir pela linha de cinema direto, já que realmente o assunto do filme saiu totalmente de controle. Assim, com nítido afastamento de Talese com a produção, os diretores passam a conviver com Foos e sua esposa, participando de suas vidas monótonas e de uma perturbadora melancolia solitária.

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Com muitas faces, Voyeur acaba ganhando mais uma ao trazer um retrato doloroso da terceira idade, da solidão e das amizades desfeitas. Foos omite detalhes importantes da história e se sente culpado por ter ferido o ego frágil de Talese. Temos também as consequências da publicação da polêmica matéria e da aparente calma que cerca Foos.

Pureza da realidade

Voyeur claramente é um documentário para poucos. Os cineastas fazem apostas arriscadas ao desviar tanto do objetivo original do longa ao focar em aspectos muito mais complexos sobre os dois personagens que apresentam. Ainda ousam se aventurar mais ao acompanhar o retrato da terceira idade e dos diferentes tipos de solidão, do ego e das consequências da ambição desnecessária que atropela até mesmo a própria ética do jornalismo.

Sua mensagem é forte ao trazer descobertas sobre a anatomia de um sociopata que gosta mais de ser observado do que de observar, aparentemente. Uma relação fascinante sobre o olhar, a câmera e o filme.

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Voyeur (Idem, EUA – 2017)

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Direção: Myles Kane, Josh Koury
Elenco: Gerald Foos, Gay Talese
Gênero: Documentário biográfico
Duração: 96 minutos

Tags: #Gay Talese #Netflix #Voyeur
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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