Diretor de South of Midnight diz que não financiaria o próprio jogo se comandasse o Xbox
Diretor de South of Midnight diz que o modelo do Xbox era insustentável e elogia a saída da Compulsion.
David Sears dirigiu um dos jogos mais premiados de 2025. Mesmo assim, se estivesse no lugar dos executivos do Xbox, provavelmente teria cortado a verba antes de South of Midnight sair do papel. A confissão foi feita em entrevista ao programa MinnMax, meses depois de a Microsoft se desfazer da Compulsion Games.
Sears deixa claro que queria fazer o jogo e que a experiência foi positiva. O problema, para ele, era o modelo. Olhando para trás, o diretor acredita que o Xbox financiava projetos demais de forma insustentável, e que o desfecho traumático era só uma questão de tempo.
Dinheiro sem fim, até acabar
O diretor conta que via a gastança com desconfiança. A Microsoft bancava muitos jogos e muitos estúdios, como se tivesse dinheiro infinito. Ele mesmo dizia preferir algo menor, sem o peso de um orçamento gigante ou de uma equipe de 600 pessoas sob sua responsabilidade.
Na visão de Sears, a estratégia só funcionaria se todos os projetos virassem clássicos de custo contido ou sucessos comerciais estrondosos. Como isso quase nunca acontece, uma grande empresa sempre acaba cortando as partes menos lucrativas. Ainda assim, ele reconhece que muita gente gosta de games sem gostar de Call of Duty, público hoje atendido em boa parte pelos independentes.
Sears chegou a citar o complexo de Cassandra, a figura mitológica que previa desgraças sem ser ouvida. Ele torcia pelo sucesso do jogo, mas avisava colegas que um dia alguém fecharia a torneira. Entre diretores, a pergunta era como tinham tido tanta sorte. A resposta dele vinha com ressalva: sempre existe uma noite em que Roma queima.
O corte que veio em julho
A previsão se cumpriu. Em julho de 2026, a Microsoft anunciou cerca de 3.200 demissões e a saída de cinco estúdios dentro do seu plano de reestruturação do Xbox. A Compulsion estava na lista, mas não foi fechada. Em agosto, a diretoria do estúdio concluiu a compra da empresa e manteve os direitos de Contrast, We Happy Few e South of Midnight.
Sears já tinha deixado a Compulsion em março de 2025, um mês antes do lançamento, e não acompanhou a separação. Mesmo de fora, elogiou a Microsoft por permitir que o estúdio voltasse a ser independente em vez de simplesmente encerrá-lo. Para ele, a empresa de hoje é bem mais humana do que a que conheceu nos anos 1990 e 2000.
O diretor lembrou o caso da Ensemble Studios, criadora de Age of Empires. Comprada pela Microsoft em 2001, ela foi fechada em 2009, frustrando quem sonhava com uma fonte inesgotável de continuações da série de estratégia.
Um jogo premiado que ficou sem dono
Lançado em abril de 2025 para Xbox e PC, South of Midnight acompanha Hazel, uma jovem que enfrenta criaturas do folclore numa versão mágica do sul dos Estados Unidos. O jogo reuniu mais de um milhão de jogadores em três semanas, contando vendas e Game Pass, e chegou ao PS5 e ao Switch 2 em março de 2026.
A coleção de prêmios inclui um BAFTA, um Peabody e o título de jogo do ano no festival Games for Change. Na época do lançamento, o CEO da Compulsion, Guillaume Provost, dizia que o papel do estúdio no Xbox não era fazer blockbusters, mas trazer diversidade ao catálogo. Agora independente, a Compulsion busca parceiros para novos projetos e publica o próprio jogo na Steam.
Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema.
Apaixonado por histórias que transformam.
Contato: matheus@nosbastidores.com.br
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