Os Crawley e seus funcionários estão de volta ao cotidiano de Downton Abbey, uma espécie de palácio nobre e que tem Robert Crawley, o conde de Grantham e Cora Crawley, a condessa de Grantham como os principais nomes do local. Após o fim da série na sexta temporada, em 2015, muitos fãs se sentiram órfãos por não poder mais acompanhar a rotina cheia de acontecimentos e dramas envolvendo os personagens.

Hollywood parece estar indo para o lado de produzir filmes de séries, dando assim maior fôlego para produções já finalizadas ou que não tinham mais para onde ir. Caso recente ocorreu com El Camino: A Breaking Bad Movie (Vince Gilligan) e agora com Downton Abbey (Michael Engler) que retorna com uma história interessante e que mais parece um episódio especial que propriamente um longa.

A trama gira em torno da visita da família real britânia a Downton Abbey. A realeza considera o lugar de segunda mão, mas mesmo assim irá se hospedar ali por um dia, e para isso trazem seus próprios funcionários para realizar o serviço de seus agrados, fazendo assim com que os empregados de Downton Abbey fiquem sem função. Esse é o principal foco da história.

O roteiro não dá importância apenas para um personagem e isso é algo louvável e inteligente. A série é famosa por não ter apenas um protagonista que dite o ritmo da trama, há vários personagens principais e cada um com a sua história de vida definida. E no longa de Michael Engler há várias subtramas que ajudam a levar a narrativa adiante, casos de Lady Mary Crawley (Michelle Dockery) que tenta encontrar alguém para se casar e de Charles Carson (Jim Carter) que retorna momentaneamente de sua aposentadoria. Assim cada um dos empregados e dos Crawley não ficam sem função em cena, todos são bem aproveitados, levando em conta o tempo de tela que cada um tem.

Uma coisa que fica bem clara ao assistir ao longa, é o fato dele ser mais direcionado para os fãs. Isso fica nítido na abordagem da narrativa, ao apresentar os personagens e não dar um desenvolvimento para eles, já que todos foram belamente explorados na série, por isso não havia necessidade de mostrar quem são e quais suas funções no filme. Claro que quem não acompanhou a produção da TV não irá ficar sem entender nada, pelo contrário. A trama é de fácil assimilação e há um jeito de dizer quem são aquelas pessoas que aparecem na tela, mas fica evidente que os fãs irão entender várias das questões ali trabalhadas por terem acompanhado a série. Um exemplo é o de Thomas Barrow (Robert James-Collier) o mordomo que é homossexual, mas que não é algo debatido no filme, e sim na série.

Downton Abbey acerta em tocar em pontos que são relevantes para os dias de hoje, mas que eram tabu no período em que a história se passa. O caso da homossexualidade de Thomas Barrow é um destes temas. Na época pessoas que se relacionavam com outras do mesmo sexo eram detidas pela polícia, e isso é algo que é mostrado no filme justamente para tentar criar um elo com os dias de hoje, como a sociedade evoluiu, mas como antigamente a questão era tratada. A própria situação da visita da realeza a Downton Abbey que podemos encarar como uma crítica aos nobres, principalmente na Inglaterra em que ultimamente muitos questionam a necessidade de ter um reinado. 

Desde que a série foi ao ar o foco foi o de mostrar o dia a dia dos funcionários de Downton Abbey, algo que até então pouquíssimas produções do gênero haviam feito. E no longa não poderia ser diferente, a trama central gira em torno dos empregados que tem uma disputa particular contra os funcionários da realeza, em alguns momentos os trabalhadores do palácio são mais importantes que os próprios nobres donos do local, e também os personagens que são os empregados são mais interessantes, tendo vidas simples, mas atraentes por trazer questões do dia a dia do período.

Por utilizar um cenário que já vem pronto o longa é obviamente deslumbrante no jeito que se apresenta aos olhos do público, e muito disso se deve ao local em que é gravado. O palácio é exuberante, e traz o ar de época no qual a produção necessita. O figurino também está belíssimo, ajudando a dar maior realidade ao período em que se passa a história e dando maiores características aos personagens.

O principal atrativo de Downton Abbey está na beleza da narrativa, simples e direta como deve ser um episódio da série. O roteiro, mesmo criando várias subtramas, consegue  desenvolver sem problemas todos os assuntos que necessitavam e ainda assim conseguem empurrar a história adiante. É um filme feito para fã, mas quem não é terá ótimos motivos para começar a assistir aos episódios da série e assim se viciar neste delicioso universo.

Downton Abbey (idem, Reino Unido – 2019)

Direção: Michael Engler
Roteiro: Julian Fellowes
Elenco: Matthew Goode, Tuppence Middleton, Maggie Smith, Michelle Dockery, Elizabeth McGovern, Kate Phillips, Allen Leech, Laura Carmichael, Joanne Froggatt, Robert James-Collier, Raquel Cassidy, Sophie McShera, Max Brown, Phyllis Logan
Gênero: Drama, Romance
Duração: 122 min