Jodie Foster diz que fama precoce e Oscar aos 12 anos a protegeram de assédio sexual
Em entrevista, a atriz reflete sobre como ter poder muito jovem a blindou de predadores da indústria. Natalie Portman relata experiência similar.
Em uma indústria historicamente marcada por histórias de abuso e exploração de jovens talentos, Jodie Foster oferece uma perspectiva rara e analítica sobre sua própria sobrevivência. Em nova entrevista à NPR, a atriz de 63 anos revelou acreditar que foi “salva” do abuso sexual sistêmico em Hollywood porque conquistou poder e status muito cedo.
O ponto de virada, segundo ela, foi sua indicação ao Oscar aos 12 anos de idade, por seu papel icônico em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese. Esse reconhecimento precoce a colocou em um terreno muito mais seguro do que a maioria dos atores adolescentes.
“Eu realmente tive que examinar isso, tipo, como eu fui salva? Houve microagressões, é claro”, disse a vencedora de dois Oscars. “Qualquer mulher no local de trabalho já sofreu microagressões misóginas. Mas o que me impediu de ter aquelas experiências terríveis? O que passei a acreditar… é que eu tinha uma certa quantidade de poder quando tinha uns 12 anos.”
Foster explicou a lógica fria por trás dessa proteção: “Quando tive minha primeira indicação ao Oscar, eu fazia parte de uma categoria diferente de pessoas que tinham poder e eu era perigosa demais para ser tocada. Eu poderia ter arruinado a carreira das pessoas, então eu não estava ‘disponível’ no mercado”.
Personalidade como defesa
Além do status profissional, Foster aponta sua própria personalidade como uma barreira contra predadores. Ela se descreve como uma pessoa racional (“head-first”) e difícil de ser manipulada emocionalmente, o que dificultava as táticas comuns de aliciamento.
“Predadores usam o que podem para manipular e fazer as pessoas fazerem o que eles querem. E isso é muito mais fácil quando a pessoa é mais jovem, mais fraca, quando não tem poder. É exatamente sobre isso que se trata o comportamento predatório: usar o poder para diminuir as pessoas, para dominá-las”, analisou a atriz.
A conexão com Natalie Portman
A experiência de Foster ecoa na de outra estrela que cresceu sob os holofotes: Natalie Portman. A atriz de Cisne Negro revelou no ano passado, no podcast “Smartless”, que Foster se tornou uma espécie de mentora para ela. Após Portman discursar na Marcha das Mulheres sobre ter sido sexualizada como atriz infantil, Foster entrou em contato.
“Ela ainda é um modelo para mim”, disse Portman. Assim como Foster, Portman alcançou a fama aos 11 anos com O Profissional. Ela relatou que aprendeu cedo a projetar uma “imagem dura” nos sets de filmagem para evitar a sexualização, além de contar com a vigilância constante de sua mãe.
“Aquele tipo de projeção de seriedade me protegeu de certa forma”, explicou Portman. “Sinto que era quase um sinal de aviso tipo: ‘Oh, não faça merda com ela’. Não que alguém mereça ou esteja pedindo por isso. Mas senti que essa era minha maneira inconsciente de lidar com a situação.”