Cinema

Maldição da Múmia é variação repetitiva do tema da possessão infantil

O diretor de Maldição da Múmia (o mesmo de A Morte do Demônio: A Ascensão) provavelmente imagina que sua “marca pessoal” nos filmes é tão significativa que permite colocar o próprio nome (Lee Cronin) no título original, à moda de um “Alfred Hitchcock apresenta”. Isso é apenas mais um sintoma do delírio egomaníaco “autoral” que […]

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura
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O diretor de Maldição da Múmia (o mesmo de A Morte do Demônio: A Ascensão) provavelmente imagina que sua “marca pessoal” nos filmes é tão significativa que permite colocar o próprio nome (Lee Cronin) no título original, à moda de um “Alfred Hitchcock apresenta”. Isso é apenas mais um sintoma do delírio egomaníaco “autoral” que acomete hoje o gênero de horror dentro da grande indústria, que trata repetições robóticas como exercícios imaginários de estilo. E é precisamente este o caso.

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Possivelmente, o estúdio ficou com receio de que os espectadores menos avisados confundissem esta nova produção com a franquia da Múmia dos anos 1990 (e que deve retornar agora) ou mesmo com a versão de Tom Cruise de 2017. O filme de Cronin nada tem a ver com nenhum dos dois – na verdade, está longe de ser um “filme de múmia” no sentido clássico: não é divertido e descompromissado como a variante dos anos 1990, tampouco um filme de aventuras como o mais recente. Maldição da Múmia é algo como se Sam Raimi (cineasta no qual Cronin evidentemente se inspira) fosse dirigir a sua versão pessoal de O Exorcista.

Filmes com crianças seviciadas partem de uma premissa perigosa: até que ponto é aceitável projetar imagens de crianças sendo submetidas a todo tipo de castigo físico na tela? Tal dilema foi inaugurado pelo Exorcista original de William Friedkin e persiste até hoje em exemplos como o apelativo Traga Ela de Volta. É raro que a ideia não descambe facilmente para a manipulação: tais produções não dão à plateia a oportunidade  de escolher entre se envolver emocionalmente ou não. Como ficar indiferente diante de uma criança escalpelada, ensanguentada, sufocada, etc.? Então, tal tipo de filme navega num território que é moral e esteticamente arriscado, e é preciso ser um diretor muito melhor que Cronin (um Friedkin, por exemplo) para sair de tal desafio de cabeça erguida.

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Na trama, Jack Reynor é Charlie Cannon, um correspondente estrangeiro vivendo no Cairo com a esposa (interpretada pela espanhola Laia Costa, do excelente Victoria, de 2015) e dois filhos. A garotinha é raptada por uma visitante misteriosa e passa quase 10 anos desaparecida, para ser reencontrada em estado vegetativo quando a família já retornou ao Novo México. Todos vivem na casa da matriarca latina e passam a atravessar um verdadeiro inferno quando a menina (que fora aparentemente mumificada no cativeiro) apresenta sinais de uma doença emocional grave, além de estranhos sintomas físicos. É curioso notar que o enredo é extremamente cuidadoso com a caracterização dos egípcios (uma preocupação hoje recorrente sempre que um novo filme se depara com a questão do colonialismo), mas não tem nenhuma prevenção em retratar os latinos como fofoqueiros, supersticiosos e caricatos. Coisas do politicamente correto seletivo de Hollywood…

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O roteiro abre mão de praticamente todos os expedientes esperados para um “filme de múmia”: a “expedição”, o “museu”, o “guia traiçoeiro”, etc. Isso seria válido se significasse uma abordagem original, mas não é o caso. Ele evita um conjunto de lugares-comuns caindo em outro: o do “filme de possessão”, onde se repetem as cenas costumeiras de vozes estranhas, cabeças se batendo contra a parede e outras imagens já vistas recorrentemente. Ele soma a isso a obsessão “raiminiana” (e bastante infantil) por fluidos corporais, que se alastra como uma praga pelo gênero atualmente e exerce o mesmo papel da violência contra o personagem infantil descrita acima: é quase impossível ficar indiferente a um jato de vômito despejado na direção do espectador. É evidente que isso cria o tipo de “burburinho” midiático que ajuda nos comentários de internet e na viralização. Na verdade, é mais um truque, quase uma “trapaça” de um filme que pouco se sustenta em termos de narrativa.

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Essa falta de sustentação explica também a quantidade exagerada de efeitos visuais e sonoros que tenta nervosamente preencher os vazios dramáticos do roteiro. O filme é bem editado? Claro que é: seu orçamento está na casa de algumas dezenas de milhões, o que não é pouco dentro do gênero – portanto, tecnicamente não faz mais que a própria obrigação. Porém, sua repetição que é histérica e monótona ao mesmo tempo resulta num todo cansativo, agravado pelo fato de que o filme é longo demais e ganharia em tudo se perdesse 20 minutos.

Maldição da Múmia acrescenta pouco ao subgênero, não remete aos clássicos tampouco propõe algo novo. É apenas mais uma variação barulhenta e “superproduzida” do cinema de horror recheado de efeitos, que “impressiona” e envolve pela insistência e não pela qualidade. Sentimos falta da tolice cativante de Brendan Fraser explorando uma caverna desconhecida enquanto é extorquido por um nativo traiçoeiro. Quem sabe numa próxima oportunidade.

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