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O bizarro costume soviético de anunciar produtos que nunca existiram

Dos quase 6.000 filmes comerciais rodados, apenas cerca de 300 filmes sobrevivem hoje. Um deles até apareceu no filme de Borat.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
3 min de leitura
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Na Rússia soviética, durante o período entre 1967 e 1991, os comerciais serviam a um propósito singular e peculiar. Em uma economia planificada, onde o Estado controlava todas as indústrias, a publicidade parecia ter um papel deslocado. Entretanto, a Eesti Reklaamfilm (ERF), a única agência de publicidade da União Soviética, produzia milhares de comerciais para produtos que nem existiam, revelando um aspecto surreal da economia planejada.

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A economia soviética estabelecia metas fixas para produção, consumo e publicidade. Mesmo que os produtos fossem fictícios, a alocação de orçamento para publicidade deveria ser cumprida. Essa abordagem absurda resultou na criação de anúncios para itens como frango picado, chuveiros de ar quente e assentos sanitários de dupla camada, todos inexistentes.

Lyubov Platonova, produtora de TV, destaca que, na maioria das vezes, os comerciais soviéticos não promoviam produtos reais, mas refletiam a agenda e a ideologia oficiais. Os anúncios eram usados como ferramentas de propaganda, projetando narrativas de abundância em uma sociedade acostumada à escassez.

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A ERF operava sob um sistema peculiar, onde os chefes das empresas estatais entregavam roteiros à agência, que os utilizava como guias. Os criativos da ERF produziam anúncios sem preocupação com a eficácia, já que não havia produtos reais para vender. A qualidade ou funcionalidade dos comerciais era irrelevante, pois a alocação de recursos era o único objetivo.

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Apesar da falta de produtos tangíveis, os comerciais tornaram-se populares entre os espectadores, que os aguardavam ansiosos entre a programação regular. A rede de televisão chegou a introduzir um bloco de 20 minutos dedicado exclusivamente à reprodução consecutiva de anúncios aos sábados à tarde.

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Os anúncios soviéticos desafiaram a noção tradicional de venda de produtos, transformando-se no próprio produto consumível. A abordagem da ERF era categorizada como “documentária”, uma estratégia financeira para contornar os preços fixos estabelecidos para produtos e serviços na economia planejada.

O sucesso da ERF chamou a atenção internacional, resultando até mesmo em um Leão de Bronze no Festival de Publicidade de Cannes em 1985. Contudo, com o colapso da União Soviética e a abertura do mercado, a agência faliu em 1992.

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Dos aproximadamente 6.000 filmes comerciais produzidos pela ERF, apenas cerca de 300 sobrevivem. Esse legado peculiar da publicidade soviética destaca não apenas a incongruência entre a economia planejada e a publicidade, mas também a capacidade surreal de adaptar-se às peculiaridades de um sistema que desafiava a lógica tradicional do mercado.

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