O Diabo Veste Prada 2 lida cuidadosamente com o legado do filme original
Elegantemente, a continuação poupa a si mesma e ao espectador de proselitismo, tampouco exagera nas autorreferências.
O Diabo Veste Prada original, de 2006, faz parte daquele seleto grupo de “novos clássicos”, filmes produzidos pela Hollywood moderna que emulam qualidades e particularidades dos clássicos da Hollywood antiga. Entre eles, estão também filmes como Uma Linda Mulher, Jerry Maguire e O Casamento do Meu Melhor Amigo. Todos partem de uma mesma fórmula comum, que inclui um enredo provocativo mas edificante, a observação social que não compromete o espetáculo, um elenco de estrelas e pouca “autoria” no sentido estrito do termo: todos eles são produto da expertise coletiva da indústria, do “gênio do sistema”, o que faz deles espetáculos tipicamente norte-americanos, em contraposição a uma noção mais “autoral” que se identifica com o cinema europeu, por exemplo.
Retomar os personagens e algumas situações do filme original seriam um desafio natural para qualquer continuação, que demorou duas décadas e tem de lidar agora com um mundo “pós-digital” totalmente transformado. Se o primeiro filme tinha uma noção de trabalho também classicamente hollywoodiana (ou seja, romantizada), neste é preciso superar o cinismo de toda uma nova geração de espectadores, que enxergam graça e nostalgia no universo proposto pelo filme de 2006, mas que hoje precisam lidar com temas como “empregabilidade” e “carreira” em novos termos. Se o outro filme refletia o espírito de uma época em que as novas ferramentas surgiam como multiplicadoras de possibilidades para jovens audaciosas e irreverentes como Andy, hoje todos parecem ameaçados pela realidade da I.A. e do fim dos empregos tradicionais.
Tudo isso seria pesado demais se o enredo não escolhesse lidar sutilmente com essa virada de chave, bem como com a suscetibilidade da audiência atual, sempre sensível a “palavras” que não devem ser usadas, por exemplo. Miranda aparece agora engessada pelas normas de um corporativismo que é refém do politicamente correto, e precisa agir nas sombras para sobreviver.
Na trama, Andy (Anne Hathaway) retorna como uma jornalista independente premiada mas que subitamente tem de lidar com a demissão em massa que assola o jornalismo impresso. Ao mesmo tempo, Miranda (Meryl Streep) se vê às voltas com um escândalo que abala a reputação da revista Runaway, o que leva seu controlador a contratar Andy para “limpar a barra” da editora. Miranda não parece satisfeita em ver Andy novamente, mas acaba por ser convencida de suas qualidades quando esta consegue uma entrevista exclusiva com a milionária Sasha (Lucy Liu), fazendo com que ela seja aceita em seu círculo restrito de amizades. Um evento inesperado exatamente na metade da projeção fará com que as duas se aproximem de Emily (Emily Blunt) e, auxiliadas pelo constante Nigel (Stanley Tucci), tentem salvar o futuro profissional de todos quando a trama se complica durante a semana da moda em Milão.
Em quase metade do filme, Andy parece flutuar por uma Nova York novelística que lembra o ambiente imaginário de Sex And The City, por exemplo. Essa leveza esbarra em alguma banalidade até que a trama entra no eixo e é como se todos os personagens (até então incorporando mais “tipos” que “pessoas reais”) precisassem sair da adolescência profissional para a vida adulta. O roteiro é inteligente por saber lidar com uma vasta gama de tópicos e preocupações de maneira delicada, sem pesar a mão nem fazer com que algum personagem entre na rotina fácil do discurso pronto. E esta poderia ter sido uma alternativa atraente, visto que o filme esbarra em tópicos em que apareceria a saída mais fácil: “capitalismo”, “direitos do trabalhador”, “ultrarricos”, “independência profissional”, entre outros.
Elegantemente, a continuação poupa a si mesma e ao espectador de proselitismo, tampouco exagera nas autorreferências. Parece ser mais do que suficiente apoiar-se em um texto descomplicado e na qualidade evidente do elenco principal: Hathaway, Streep, Tucci e Blunt têm carisma e talento de sobra. O resto do trabalho sobra para o público, que se deleita em ver personagens queridos, num glamour discreto que enfrenta os novos “tempos sombrios” (para o trabalho, para o romance, para o jornalismo, etc.) sem perder o otimismo essencial.