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O Início do Fim de Um Sonho – O Final Explicado de Vivarium

Spoilers

O sonho da casa própria tão poucas vezes foi tão bem apresentado de forma tão realista como o mostrado no longa Vivarium, o segundo trabalho do diretor Lorcan Finnegan, que trabalhou no roteiro em parceria com Garret Shanley.

A produção que não tem uma pegada sobrenatural, mesmo sendo do gênero de horror e também não apela para o sangue nem para a violência, traz uma história original e interessante a respeito dos valores da família, e tem por traz uma sacada a respeito de um plano megalomaníaco de alienígenas em estudar o comportamento humano.

A narrativa soa bastante superficial em não desbravar alguns elementos e não se aprofundar em desenvolver certas situações, até porque há certa necessidade em deixar tudo em aberto para fazer com que o espectador quebre a cabeça e pense a respeito do conteúdo assistido. E por isso mesmo, nos tópicos abaixo, iremos explicar os momentos mais complicados do filme.

Viveiro

Gemma (Imogen Poots) e Tom (Jesse Eisenberg) são um casal que têm o sonho de adquirir a casa própria e assim, no futuro, ir morar juntos e ter uma família, com tudo o que tem direito, até mesmo ter um filho planejado no meio desse seio familiar que pode ser estruturado.

Logo no início, quando Gemma sai do seu trabalho na escola e encontra Tom descendo da árvore já há indícios do que viria pela frente. Um pássaro cai da árvore, não pela ação de Tom que está aparando as folhas e sim por outro motivo. E é esse motivo que irá funcionar mais como uma metáfora para o que os dois irão encontrar pelo caminho, e que na realidade é algo bem complicado de se entender, que acaba por traçar uma das grandes sacadas do roteiro.

O diretor foi buscar a sua inspiração na natureza para pensar muitas das reflexões do filme, até mesmo o título da produção em si, o Viveiro que será debatido mais adiante como um experimento em si.

O casal sai à busca da casa própria e acaba por cair na imobiliária de um homem bastante extravagante. Ele os leva para um local longe da cidade com a promessa do lugar ser um paraíso, onde poderão viver o resto de suas vidas em tranqüilidade. Ao chegar percebem que todas as casas são simétricas, tanto a arquitetura quanto as ruas, o silêncio se iguala, as dimensões também, algo de estranho há naquele bairro, mas o casal não percebe e continua a visita pelas ruas adentro até conhecer a sua casa, e ironicamente, ficar preso da própria casa, não no sentido literal, pois podem sair dela, mas não conseguem sair daquele bairro, pois ele não tem fim, e sempre vão parar na mesma casa: a deles.

Ali recebem a missão de cuidar de uma criança, mas o filme não dá muitos detalhes da origem dessa criança, quem é ela, de onde veio e o porquê eles precisam fazer isso para poder sair de lá, nem o motivo de não conseguirem ver nenhum de seus vizinhos e do por que não conseguirem sair do local.

Sequestro Alienígena

Na realidade, Vivarium tem como tema principal a ideia de seqüestro alienígena, e isso fica bastante claro com o passar do tempo. Voltando para a cena inicial, aquela da árvore que parecia não ter importância nenhuma, do pássaro que caiu da árvore quando Tom a aparava. Ela tem muita importância para entender a criança como sendo um alienígena e também um corpo estranho no relacionamento e no âmbito familiar que havia se criado entre Tom e Gemma, ou uma tentativa de família e também para entender todo o sistema alienígena que se emprega no filme e a ideia de seqüestro alienígena.

Na natureza existe um pássaro chamado cuco, ele tem uma estratégia que pode ser considerada maléfica, coloca no ninho de outros pássaros um de seus ovos junto com o de outro pássaro que não está tomando conta do ninho no momento. Quando a ave retorna não percebe que tem um ovo diferente de outra junto com a sua. O problema é que o ovo do cuco é maior que o de muitas outras aves e geralmente nasce também antes que a ninhada do pássaro que está chocando. A mãe não distingue a diferença entre filhotes e vai alimentando ele que vai crescendo, crescendo, e os outros filhotes que vão nascendo vão sendo jogados para fora do ninho e morrendo pelo filhote do cuco que é maior. Em suma, o filhote do cuco que é cuidado por outra ave se torna um inquilino que obrigatoriamente precisa ser cuidado por outro pássaro e esse pássaro acaba ficando desesperado por ter que cuidar de uma ave gigante que se torna um incômodo para ela.

Vivarium então se utiliza deste comportamento da natureza para tirar a relação da criança com os agora pais no filme. O menino que é um espécime alienígena foi colocado ali com os mesmos ideais do cuco, ele cresce rapidamente, ele incômoda, cresce rápido igual ao cuco, seu comportamento irrita, e até mesmo os gritos da criança são parecidos ao do pássaro. É uma sacada interessante do diretor também a de colocar uma criança no filme e forçar os dois a se tornarem pais e mostrar o quão difícil é paternidade e a maternidade e como essa não é uma tarefa nada fácil.

Uma das perguntas a serem feitas é se aqueles seres da imobiliária e até mesmo a criança esquisita realmente eram alienígenas e a resposta mais razoável e aceita é que sim. A criança se comunica com os supostos aliens pela televisão, ou pelo menos tem algum tipo de aprendizado por ela, em uma cena interessantíssima em que ela parece ter alguma conexão com algo do outro mundo, em uma clara referência de que ela está sim se conectando com algo de outro cosmo. Há também as várias saídas dele já adulto para algum lugar incerto que não se sabe bem para onde era provavelmente algum local que iria aprender algo para utilizar no futuro contra os humanos, mas isso o roteiro não deixa claro, tudo fica muito vago, faltam informações para completar o que realmente eram aquelas saídas.

Outra falta de clareza fica por parte do roteiro em relação de não definir quem são os alienígenas. O roteiro não dá uma importância em dizer que os personagens são realmente aliens, dão apenas alguns indicativos e cabe ao espectador buscar indícios de tentar descobrir se aquilo é realmente o que se imagina ser verdade ou não.

O Experimento

Se a criança e o homem da imobiliária são alienígenas, surge outro questionamento que deixa muitas dúvidas para quem assiste Vivarium, que é em relação ao significado do experimento em si e seu objetivo. Isso o roteiro do filme não dá um real significado e não dá uma ideia clara do que seria tudo aquilo, mas dá para se ter um entendimento de que aquele experimento na verdade, é utilizado pelos aliens com o intuito apenas de analisar o comportamento humano e ver como a raça humana se sai em diversos momentos, entre eles, ao cuidar de uma criança que não é delas ou até mesmo a paternidade e maternidade forçada.

Portanto, o objetivo dos aliens seria apenas o de analisar como os humanos iriam se sair nas tarefas do dia a dia tomando conta de um bebê alienígena, assim como um pássaro qualquer surta tomando conta de um filhote do cuco.

Outro questionamento é o porquê de Gemma e Tom não conseguirem ver os seus vizinhos, já que existem inúmeras casas por lá e é muito bizarro que não se consiga ver ninguém pelo território. Uma observação a se fazer nesse tópico fica em relação ao porque desses seres serem alienígenas, pois fica claro que cada casa é uma dimensão paralela.

É possível tirar essa conclusão devido ao acontecimento do último ato, devido ao que ocorre na cena final quando Gemma corre atrás do seu filho alienígena já crescido e encontra várias pessoas chorando, em várias casas diferentes, elas estão tristes e algumas estão mortas. Estas cenas que parecem estar desconexas e sem relação umas com as outras, na realidade, são de Gemma entrando em várias dimensões diferentes. É como se Gemma estivesse entrando em várias residências, visitando os experimentos que os alienígenas estavam analisando na Terra.

O Relacionamento

Ainda no campo do experimento, é interessante analisar que a relação dos dois, Tom e Gemma, desde o momento da entrada no bairro novo passam a discutir mais, até que começaram a se ignorar com o passar do tempo, e viver como totais estranhos, como se o amor tivesse acabado entre o casal.

Tom sempre foi apresentado como um cara não tão maduro, que parecia não estar pensando no futuro, diferente de Gemma. Fica claro que com o passar do tempo, na casa, Tom começa a ficar cansado de tomar conta do bebê, e depois da criança que cresceu, mas não está cansado de criar apenas da criança. Tom está cansado daquilo tudo, do simulacro da vida de casado, da vida em família, tanto que não à toa ele cava um buraco no terraço em desespero para fugir do lugar, não apenas porque quer fugir daquele lugar sem fuga, mas também para tentar fugir do relacionamento e do compromisso firmado.

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Publicado por Gabriel Danius

Jornalista e cinéfilo de carteirinha amo nas horas vagas ler, jogar e assistir a jogos de futebol. Amo filmes que acrescentem algo de relevante e tragam uma mensagem interessante.

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