Há alguns meses, os estúdios Disney declararam que estavam com escopos iniciais de adquirir as propriedades intelectuais da 21st Century Fox. Em outras palavras, a companhia visava ao recolhimento dos direitos de criações que, essencialmente, pertenciam a si própria: afinal, sabe-se que essa grande indústria tem suas inúmeras divisões incluindo a Pixar, com a qual foca na realização de animações, a Lucasfilm, parceira com a qual produz a franquia Star Wars, e a Marvel, cujos direitos de alguns personagens haviam sido vendidos para a Fox – incluindo o panteão acerca de Quarteto FantásticoX-Men.

Hoje, 14 de dezembro, o acordo finalmente foi fechado ao escandaloso preço de quase 60 bilhões de dólares, e já recebeu inúmeras críticas a respeito do monopólio cinematográfico e da clara “eliminação a concorrência”, visto que as duas empresas representam seis dos maiores conglomerados midiáticos da indústria do entretenimento mundial. A guilda de escritores conhecida como Writers’ Guild of America West inclusive fez uma pesada declaração dissertando acerca das leis protecionistas de livre-concorrência e de contrapor-se à fusão.

A negociação feita entre as gigantes hollywoodianas não representam apenas o começo de uma nova era para o cinema e para a televisão. É válido lembrar que os estúdios Disney são carregados com um estigma claro e cada vez mais endossado em relação a suas produções: é inegável dizer que a companhia traz um enfoque muito grande e limitador em narrativas de super-heróis ou aos moldes da ficção fantástica. Se pensarmos nas últimas produções lançadas – Thor: RagnarokViva – A Vida É uma Festa e, para 2018, Uma Dobra no Tempo -, é fácil traçar um paralelo atrofiador para o real potencial com o qual o público lida. Tudo gira em torno do impossível e da certeza de um sucesso de bilheteria estrondoso.

Apesar das declarações que reforcem a liberdade criativa de roteiristas, produtores e diretores, seria ignorante pensar que não existiriam limites – limites esses que inclusive tornariam ainda mais difícil encontrar um lar para filmes que não se enquadrem nesse saturado padrão.

Os estúdios Fox, em comparação à Disney, possuem uma gama muito mais extensa de gêneros fílmicos e televisivos. Apenas em 2017, os longas-metragens atravessaram os extremos entre o drama baseado em fatos reais de Depois Daquela Montanha e retornaram para o mistério tragicômico de Assassinato no Expresso do Oriente – isso sem falar nas memoráveis e icônicas obras que a companhia permitiu chegar às telonas, como Arquivo X: Eu Quero AcreditarO Diabo Veste PradaO Fantástico Sr. Raposo. Os elementos dentro desses produtos audiovisuais são extremamente complexos e diferentes entre si – e, querendo ou não, seriam padronizados por uma recorrência over-the-top de sua mais nova compradora. Em outras palavras, filmes com indicação para maiores e que teriam uma potencialidade interessante até mesmo aos circuitos de festivais, sofreriam um brusco corte para permaneceram na “zona de conforto”.

Mesmo com esse cenário aparentemente caótico, alguns produtores declararam que a fusão Disney-Fox emerge como um alerta de que a desbotada e antiga forma de fazer negócios está desaparecendo. Em entrevista ao site VarietyMike Medavoy, CEO da Pheonix Pictures, declarou que “o modelo atual não consegue se sustentar. A Disney é que a está na melhor posição já faz alguns anos”. De acordo com Medavoy, menos pessoas vão aos cinemas, e as companhias estão lucrando mais com a televisão; a indústria fílmica parece cansada e ultrapassada.

Mas nem todos estão “em luto” pelo acordo. John Sloss, fundador a Cinetic Media e agente de negócios, não espera que a fusão afete o cenário midiático com tanta força, visto que a imersão de companhias como NetflixAmazon possibilitou o número de compradores de projetos audiovisuais, auxiliando inclusive a preencher uma lacuna com filmes como MudboundThe Big Sick, cuja possibilidade de serem abraçados por estúdios tradicionais seria bem menor. Além disso, ambos estúdios possuem dinheiro para gastar e uma sede por conteúdo original que atraia usuários. A grande ansiedade que se apossa de Hollywood agora é baseado na incerteza da consolidação da grande mídia, ele diz, que é infundada.

O grande ponto-chave da questão resume-se à gama a ser explorada pela Disney. Afinal, a Fox detém franquias de estrondoso sucesso mundial, incluindo Avatar X-Men. Entretanto, a companhia também é responsável por longas-metragens que tem uma idealização muito mais volta para a corrida às premiações, como o recente The Post, dirigido por Steven Spielberg, e A Forma da Água, de Guillermo del Toro. Quem consegue imaginar esse robusto número de produções mais independentes ou que não se encaixem nos blockbusters sendo continuamente produzido pela idealização utópica do Magic Kingdom?

“Parece que haverá uma chance a menos de descobrir a magia de filmes que não seguem uma fórmula”, declarou um produtor que se recusou a ser identificado. “O medo é que tudo se torne mais leve e adocicado”.

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