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As vezes creio que classificar alguns filmes de Guillermo Del Toro, principalmente os seus primeiros, como sendo filmes pertencentes ao gênero de terror, seja algo devidamente inapropriado. E até acaba sendo algo de inerte para com à essência individual de cada um deles. Claro que, com isso, não procuro ignorar o fato de que cada um deles possuírem sim elementos consumados em seus sernes individuais, temáticos e estruturais, que os assim permitem serem classificados como obras de terror, de forma muito que merecida. Seus já famosos toques góticos e macabros, o lidar com criaturas místicas e demoníacas, dentre outros fatores. Mas, com isso estou tentando dizer que o horror e o assustar nunca foram o principal foco de seu diretor, enquanto ele sempre buscou algo muito mais além e profundo que isso.

Se Cronos, seu primeiro longa como diretor, lhe serviu para projetar uma desconstrução, humanizada e trágica, do mito da criatura do vampiro, se usando do meio familiar e drama existencial para criar um verdadeiro estudo de personagem catártico sobre o vício e a auto-destruição, então A Espinha do Diabo se mostrou como um passo além que Del Toro daria em suas técnicas criativas e fórmulas narrativas de contar uma história. Usando da velha história de assombrações fantasmagóricas e a transforma em um drama alegórico sobre o pior que a humanidade pode chegar em seu estado mais vil de frieza e crueldade: de guerra.

A história começa com a chegada do jovem órfão Carlos (Fernando Tielve) a um orfanato improvisado em um antigo armazém com uma bomba desativada caída em seu pátio principal, local coordenado pelo bondoso e firme doutor Casares (Federico Luppi) e a professora matriarca Carmen (Marisa Paredes), que também serve como local secreto de armazenamento de provisões e esconderijo do tesouro financiado do exército Republicano. Tesouro esse que atiça a ambição do órfão mais velho do local, agora um cruel instrutor do orfanato, Jacinto (Eduardo Noriega). Mas no meio da tensão crescente entre os adultos, medo da guerra e o início de sua rixa e desentendimento com Jaime (Iñigo Garcés), o menino mais velho que atormenta os mais jovens, Carlos descobre uma presença nefasta no orfanato. Depois de ouvir sobre o desaparecimento de um dos meninos, Santi (Junio Valverde), logo após a queda da bomba, e ser assombrado com visões macabras e misteriosas de um menino com rachas no rosto e um contínuo sangramento em sua cabeça, formando uma aura negra a sua volta, Carlos descobre não só uma assombração fantasmagórica, como também um prenuncio de algo terrível que está para acontecer a todos no orfanato.

Não sei se foi possível perceber, mas puderam notar uma certa familiaridade nessa sinopse da trama do filme com a de outro bem conhecido filme do diretor? Uma criança chegando em um local afastado do resto do mundo em meio à guerra; a presença de uma figura masculina opressora e ditatorial em seu meio; a criatura fantástica que só se revela aos olhos da criança e serve como uma figura alegórica para revelar a cruel realidade do palco de guerra em que seus personagens habitam. Pois é, um certo Fauno acena de longe de seu labirinto! O fato é que hoje é quase inevitável não ter que recorrer aos filmes atuais mais conhecidos do diretor para poder citar os seus trunfos do passado.

Aliás, nem é a primeira vez que vemos Del Toro equiparando A Espinha do Diabo com O Labirinto do Fauno. Não só por serem seus dois filmes favoritos de todos em que dirigiu, como também sempre os descreveu como partes de sua trilogia sobre a Guerra Civil Espanhola, com um terceiro filme ainda não produzido até hoje. Filmes com a interessantíssima proposta de demostrar os cruéis efeitos destruidores da guerra na História e no povo do país, usando como disfarce filmes de monstros, criaturas místicas, mundos imaginários, os elementos chave de uma perfeita fantasia gótica, sendo usada para se criar um alicerce alegórico dentro de sua trama. Assim foi com o sombrio mundo dos contos de fadas em O Labirinto do Fauno e fora aqui antes com o mundo dos fantasmas em A Espinha do Diabo, o nosso mundo!

Uma História Fantasmagórica

Deve ser por isso que Del Toro, apesar de ter tudo para isso, nunca foi um diretor que conquistou uma apreciação ou atenção do grande público, tendo assim grande parte da sua fama baseada no boca a boca, que seus filmes criavam e nos seus grupos legionários de fãs, assim como Tim Burton, de certa forma. Mas também porque ele nunca se preocupou de verdade com a expectativa do que o público quer ver, fazendo, desde cedo, os filmes que ele queria ver. Então, se essa for a sua primeira incursão em A Espinha do Diabo, ou em algum filme do diretor, pode ter a certeza de que você não terá o filme que espera aqui. Principalmente se o que você espera for um filme de terror que assuste, como o título e a colocação no gênero podem sugerir.

Talvez seja por isso que ouvi tantas rudes críticas sendo feitas à Colina Escarlate, outro recente filme do diretor, sobre este não ser um filme nem um pouco assustador ou sobre ser um filme de terror falho e genérico. O que de certo é, se você for o encarar dessa forma, mas, se for parar para analisar com atenção a verdadeira intenção do diretor, verá que é algo que vai para além de sua superfície rasa de um dito filme de terror genérico como qualquer outro. No caso de Colina, nota-se a grande inspiração e influência que Del Toro toma da narrativa gótica estabelecida pelo seu mestre, Mario Bava, diretor visionário insano e ousado do terror gótico italiano, e recria um verdadeiro romance de casa assombrada à moda antiga, que lembra filmes como Lisa e o Diabo e Ciclo do Pavor.

Este último que também serviu de influência para o filme aqui em questão. Que, de maneira semelhante à Colina, ao lidar com o conto fantasmagórico, Del Toro mostra que quer explorar o “horror” na presença de seu(s) fantasma(s) na trama, de forma semelhante com a que Bava fazia em seus filmes como Ciclo do Pavor, no qual as “criaturas” do além túmulo vêm do passado mal resolvido, representam segredos sombrios e ocultos, são feridas abertas na alma dos personagens que rondam na história, trazendo consigo difíceis provações que eles terão que enfrentar ainda em vida.

Não é por nada que o filme abre com uma misteriosa narração em off, assim como todos os filmes de Del Toro, citando uma frase que, além de meter um belo calafrio na espinha (do Diabo?), impõe um questionamento que irá rondar a trajetória sombria e misteriosa de todos os personagens aqui.

“O que é um fantasma? Uma tragédia condenada a repetir outra e outra vez? Um instante de dor, talvez. Algo morto, que ainda parece estar vivo. Uma emoção suspensa no tempo. Como uma fotografia borrada. Como um inseto preso na âmbar”.

Um questionamento que parece simples, mas que, ao longo do filme, percebemos que a demanda de uma resposta para tal é mais complexa do que parece. É por isso que reafirmo que Espinha do Diabo não se trata mesmo de ser um filme de terror como outro qualquer, que envolve fantasmas assombrando o protagonista em seu novo lar. Se for realmente encarar por essa perspectiva, certamente irá se decepcionar, já que esse é o (único) elo mais fraco do filme, quando Del Toro tenta disfarçar, em momentos, seu filme com um desenvolvimento de trama fantasma feita de forma familiar e cunho clichê, contendo elementos como ranger de portas, sussurros misteriosos, formato de sombras e pegadas revelando uma presença invisível, barulhos altos e aparições repentinas para ocasionar um susto, etc. Tudo que você já viu antes.

Com um ou dois momentos que realmente funcionam graças à destreza de Del Toro, acompanhado pela bela fotografia de Guillermo Navarro, que se usa de um perfeito tom soturno gótico nas cenas noturnas e uma paleta amarela calorosa nas cenas diurnas. Criando essa discrepância metamórfica entre os diferentes estágios do cotidiano daquele orfanato, que permite assim também a construir o sentimento de antecipação e suspense, do que poderá acontecer nas próximas horas ou o que o fantasma de Santi virá a fazer. É realmente quando se mostra a figura do fantasma, que a suposta construção de medo e susto “falha”. Mas talvez, essa nunca foi a real intenção do diretor.

E se a criatura do fantasma não for o real provocador do medo propriamente dito do filme? Por isso reintegro o que disse antes sobre a forma com que Del Toro procura, aqui, lidar com o terror de forma semelhante com a que Bava realizara, e até se comunica de várias formas semelhante com Os Inocentes de Jack Clayton. O fantasmagórico sendo usado como uma intrínseca metáfora sobre o ser humano. Afinal, o que poderia suprir a definição imposta na introdução do filme se não o próprio fantasma? Talvez o “criador” de vários deles. Quem seria este se não a morte? E a morte reina na guerra.

Uma tragédia da humanidade que se repetiu na história humana como uma maldição, outra e outra vez sem nunca cessar; uma causadora dor, doenças, e feridas mortais; que se move como a morte viva, ceifando almas diariamente; uma memória carregada de mágoas e tragédias para sempre inesquecíveis; marcada na história como uma fotografia borrada ou um filme de imagem chamuscada, mas que servem como prova de uma história esquecida ou ignorada; como um vírus, uma praga para sempre contaminada no estado natural do ser humano, o seu estado de pura violência, para sempre mortal e nunca esquecida!

O Pior da Humanidade

Pode até parecer ressaltar o óbvio, em vista do que o diretor já fez com o tema de forma semelhante em O Labirinto do Fauno, mas esse foi o primeiro filme onde Del Toro ousou tocar em uma ferida antiga da Espanha e ainda aberta em seu meio social, e explora fervorosamente o teor histórico da Guerra Civil Espanhola impregnada dentro de seu filme dito de fantasmas. Sem se preocupar com uma certa amenização ou relativização do tema descrito em suas entrelinhas. Ao invés disso, escancara o trauma, a violência e as dolorosas cicatrizes que esse conflito deixou para uma nação inteira.

Se a Guerra da Coréia é reconhecida hoje como a guerra esquecida do século XX, me pergunto como então a Guerra Civil Espanhola é reconhecida na História. Se passando entre 1936 e 1939, esse conflito foi talvez o maior aglomerado de difusões políticas, que se perpetuam até hoje espalhados pelo mundo. De um lado nacionalistas militares e monarquistas de direita apoiados pela Alemanha e Itália fascistas, e posteriormente liderados pela força fascista de Francisco Franco. Do outro a frente popular republicana formada pelos comunistas e anarquistas lutando contra o golpe econômico e social de 1936. Junte aí nessa mistura um pouco de genocídio em massa, perseguição religiosa e deterioração interna de um país inteiro.

A partir disso, o que Del Toro faz com o cenário do orfanato onde o filme se passa, é criar uma verdadeira retratação microscópica do brutal conflito, que assombrava o país e ceifava tantas vidas. Um cenário no formato de um pesadelo vivo, uma prisão no purgatório que questionará a moral das almas de seus personagens, seus feitos e pecados se tornam pesos a carregar e a pagar por eles.

Se seu sucessor espiritual O Labirinto do Fauno era sobre a infância e a inocência buscando uma fuga da violenta realidade no mundo da magia, dos sonhos, Espinha é sobre enxergar esse mal e as feridas presentes como parte da nossa realidade. Se o Fauno era a fuga, Santi é esse retrato, um espelho dessa realidade para se encarar os ferimentos causados pela essência do mal, cravados no perispírito da alma humana. Santi, a suposta criatura monstruosa, é talvez a maior vítima do filme, assim como todo filme de Del Toro. Com seu rosto chamuscado em um véu negro com moscas voando ao seu redor, e sua pele pálida com rachaduras parecendo porcelana partida, e o sangue que flutua da ferida mortal em sua cabeça, ele carrega em si todas as cicatrizes que o mundo lhe fez passar.

Mais uma vez vemos Del Toro se utilizando da conexão entre a figura do monstro e a criança, tirado da antológica cena de Frankenstein, de James Whale, entre a criatura e a jovem menina, que tanto lhe inspirou em Cronos e mais uma vez aqui. Onde nasce uma atração entre opostos: o morto-vivo, o ser que ainda vaga pelo mundo dos vivos e o menino protagonista Carlos. Nem é preciso salientar o quanto isso se mostra ser um perfeito quadro desconstruído já que a criatura também não passa de uma criança inocente, uma vítima como já dito.

Para Del Toro, o olhar infantil, o inocente e o puro é o único capaz de enxergar além da realidade material. Apenas as crianças parecem aceitar com facilidade o universo místico, o outro lado, sem duvidar de sua existência ou lutar contra ele. Talvez exatamente por encararem tal espaço como a única esperança possível, a única resposta verdadeira em um lugar e mundo tão cheios de segredos e dúvidas.

Nesse mesmo retrato, tempos difíceis onde a religião abominava o lado republicano e, no fundo, flertava com o fascismo opressor dos nacionalistas, é quando a inocência tentava sobreviver se apegando ao que tinha de mais próximo, a criança volta a flertar com o “monstro”, sentiam-se fascinadas pelo grotesco, pelo mítico e irreal. As crianças representam a esperança, tocam bombas sem que estas explodam, tocam monstros sem medo que estes partam para o ataque. Com o jovem Carlos, sonhador por histórias fantásticas e míticas, tão curioso pelos segredos do seu espaço, percebe logo que chega no orfanato a presença do espírito de Santi. Em seus primeiros encontros sente medo, mas depois de experienciar tanta crueldade nas mãos do ímpio Jacinto, tenta se aproximar e descobre seu trágico destino e suas dívidas a pagar ainda no mundo dos vivos. Habitado por adultos, que tentam sobreviver a guerra com seus próprios métodos diferentes, talvez alguns bem questionáveis.

Crédito seja dado a Del Toro e ao belo roteiro aqui assinado por ele, Antonio Trashorras e David Muñoz, que criam uma narrativa bem prosaica com cada um dos personagens da trama. Deixando claro o protagonismo do filme focado no jovem Carlos, mas também consegue dividir o foco narrativo de forma tão igualmente importante, ao delinear os arcos dos outros personagens. Como do jovem Jaime, que inicia o filme como um garoto carregado de violência e medo graças ao que já viu de mal na guerra, e no próprio orfanato, mas que, ao acompanharmos seu desenvolvimento, o vemos como outra das crianças ali, inocente e perdido, com suas ações sendo reflexo do meio em que viveu.

Os personagens adultos também partilham do mesmo resultado. Assim como as crianças, eles são reflexos do cenário de guerra em que vivem. E mesmo com a presença dos jovens como protagonistas, Del Toro já mostrava não se preocupar nem um pouco em demonstrar a violência gráfica da realidade das suas histórias e na criação de personagens bem complexados e alegóricos. Vide a personagem de Carmen, da ótima Marisa Paredes, que conta com os serviços sexuais de Jacinto e cobre sua mente com a poesia e o conhecimento de Casares. Sem saída, ela vive um inferno de incertezas, ao lado de uma guerra, de crianças inocentes e de espíritos a rondando sem nunca notar.

Vivendo em um local afastado e cercado por um deserto árido, sem aparente fim, onde Del Toro volta a atenção de sua câmera às grandes portas e janelas como pontas de fuga trancadas. Onde para fora só há incertezas e para dentro, em oposição, há o desejo de fuga, intrigas, medo, presença de espíritos e da ciência. Ciência essa comandada por Casares, um soberbo Federico Luppi em seu segundo filme com Del Toro. Voltado para seus experimentos de caráter quase místico, onde manufatura esse bizarro líquido, chamado de “águas do limbo”, onde segundo ele pode, há quem acredita ajudar a rejuvenescer. Que creem que no sangue das crianças há remédio para prolongar a vida. 

A nova base de vida se torna se alimentar na inocência de uma criança. Não à toa, a criatura de vida imortal no filme é um fantasma de uma criança, com o corpo físico flutuando em um reservatório de água amarelada de quase cor sanguínea. Daí se origina o título do filme, que se refere às crianças que não conseguiram nascer, ou que não deveriam ter nascido. Crianças condenadas, utilizadas pela ciência, presas a experiências humanas, conservadas em líquido para usufruto de adultos cegos pela sobrevivência e que Casares usa para vender para os partidários nacionalistas e usa o dinheiro para financiar seus aliados republicanos.

Pois enquanto Casares e Mercedes representam uma força que luta com seus métodos secretos contra a opressão nacionalista a partir de seu subterfúgio do orfanato, o misterioso Jacinto encorpora uma força do mal, movido pela sua ganância cega e inescrupuloso. Que a partir da ótica de Del Toro, o faz assumir essa quase encarnação de um poder fascista de um ditador como Francisco Franco, oprimindo as crianças com violência à seu bel prazer, procurando a riqueza escondida por Mercedes, e acredita ser alguém melhor e superior que a todos ali. Acaba sendo ele quem é o verdadeiro monstro coberto de imprevisibilidade, prestes a explodir à qualquer momento.

O Terror da Realidade

A partir do estabelecimento desse perigo iminente na forma da crueldade humana, é daí que o terror propriamente dito do filme se origina. O medo se torna nossa constante preocupação com a sobrevivência de cada individuo do orfanato. Todos humanos com suas falhas, mas que o filme até então nos fez compreender quem é cada um e porque são como são, e nosso apego é facilmente criado para com Carlos, Jaime, as outras crianças e o casal Mercedes e Casares. E depois completamente mutilado quando se culmina o grande clímax que, para não entregar muito, envolve sim uma grande explosão e várias mortes.

Com Del Toro mostrando desde cedo uma notável construção de suspense, que já mostrava a sua influência de Hitchcock, que se utiliza de uma montagem muito bem costurada e foco em cada componente, que vai ocasionar o feito de forma quase coreografada. E quando implode, é uma forte catarse gráfica e emocional tanto para os personagens quanto para o público. Com o terror se tornando o que vemos em cena, com crianças ensanguentadas por todo o lado, nos fazendo desviar os olhos até que termine. Eis que o horror da guerra finalmente chega até os personagens.

Está aí outra possível resposta para o questionamento feito no início do filme. As próprias crianças, representam o ser fantasma, seus destinos são frutos daquela guerra, condenadas a viver pela eternidade em um meio em que as imagens religiosas que carregam dentro de seu orfanato, seu único templo, não resistem às bombas que habita entre si, em que os homens da ciência mostram-se cegos a realidade à sua volta. Um filme de pé fincado na realidade, mas também com uma das auras mais lúdicas com que o diretor já trabalhou até hoje. Onde as crianças se tornam a última esperança de salvação; onde elas parecem os meninos perdidos das histórias de Peter Pan, para sempre presos ali na sua infância cercada pelo mal e são obrigados, no final, a sobreviver pelas próprias mãos (em uma cena gráfica catártica bem prazerosa, diga-se de passagem).

E o fantasma, Santi, a primeira verdadeiramente incrível criatura que Del Toro criara, que nos mete um calafrio ao encararmos de frente pela primeira vez, seguido depois de uma contemplação de uma figura trágica. Ele, assim como os outros e até o próprio Jacinto, são apenas vítimas de um mal maior, se tornam as únicas marcas e cicatrizes perdidas de uma época outrora esquecida e de milhares de vidas ceifadas não mais lembradas. Nada mais aterrorizante e mortal do que a nossa própria mera existência em um mundo reinado pelo caos. É no meio desse caos que brota nas crianças de Del Toro a última fagulha de esperança, de amor e de fé. Os que eram no início rivais como Carlos e Jaime, partem como amigos e aliados graças à união que fizeram.

Duas personagens estas que aliás, voltaríamos a ver novamente em O Labirinto do Fauno, de forma muito sutil, mas de forte essência e carga dramática quando notados. Apenas reparem na cena do ataque à colina, liderado pelo impetuoso coronel Vidal e você notará dois rostos familiares em uma dupla de soldados rebeldes na beira da morte, prestes a serem friamente executados. Os mesmos atores e em talvez os mesmos personagens, após anos lutando para sobreviver, sucumbiram à guerra que os assombrava. Se você assistir A Espinha do Diabo e depois Labirinto e reconhecer esses rostos, a cena e o filme só se tornam mais trágicos do que já são, e percebe as sutis conexões narrativas que Del Toro criara entre ambos os filmes, para além de suas essências temáticas se comunicarem de nível igual.

Só espero que um dia lhe seja permitido concluir essa trilogia sobre a tentativa de destruição da inocência, da infância, em pleno cenário da Guerra Civil Espanhola. Imagino talvez homens invisíveis, lobisomens, alienígenas invasores de corpos, aranhas gigantes, o chupacabra, as possibilidades são infinitas para que Del Toro possa vir adaptar de sua própria maneira, e desconstruí-la na sua forma autoral criativa e dramática como sempre lhe pareceu capaz de realizar. Como já provara aqui em sua primeira digna e esquecida obra-prima. Uma obra de terror clássico, real, transcendental e humano!

A Espinha do Diabo (El espinazo del diablo – México – 2001)

Direção: Guillermo Del Toro
Roteiro: Guillermo Del Toro, Antonio Trashorras, David Muñoz
Elenco: Fernando Tielve, Federico Luppi, Marisa Paredes, Eduardo Noriega, Íñigo Garcés, Junio Valverde, Irene Visedo
Gênero: Drama, Terror
Duração: 106 min.

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