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A experiência adquirida em filmar com Godfrey Reggio o excelente Koyaanisqatsi transformou Ron Fricke profundamente. Outrora diretor de fotografia, Fricke dedicou anos em um projeto seu bastante inspirado na estética revolucionária que Reggio havia estreado na colaboração anterior entre os dois: um documentário puro, sem narrativa, sem narração, sem idioma, apostando apenas no poder das imagens para transmitir uma mensagem poderosa e universal a todos espectadores.

Entretanto, ao contrário dos documentários centrados em trazer uma moral revelada somente na conclusão do longa, Fricke fez de seu Baraka um experimento visual intenso mais alinhado a diversas esferas que podem tornar a experiência geral menos coesa do que os filmes de Reggio. Aqui, o diretor é interessado em trazer o sagrado, a natureza e as diferentes formas do nosso viver.

Contemplando a Existência

Fricke começa seu longa com a natureza já mostrando o poderio visual impressionante dos enquadramentos majestosos sempre movimentados com muita elegância por uma câmera firme e toda majestade do formato absurdo do fotograma de 70mm permitindo imagens de resolução espantosa e profunda nitidez.

Através desse jogo de imagens de tirar o fôlego, logo vemos alguns temas que ele pretende trabalhar ao longo do filme com maior ênfase: a relação dos homens e mulheres com a religião. Essa certamente é a maior pérola do filme, pois temos apresentações de rituais fabulosos desde tribos afastadas que herdaram costumes milenares até aos ritos mais conhecidos pelo espectador como as cerimônias especiais budistas, muçulmanas e judaicas.

O diretor realmente captura imagens espetaculares, além da trilha musical ser bastante adequada para cada ritmo exibido em tela – isso quando não usa os ritmos propriamente diegéticos vistos em tela. Enquanto essas imagens transmitem um fascínio cheio de personalidade também funcionando como registros valiosos dessas civilizações, Fricke opta por escolhas um tanto dúbias que tornam Baraka um longa mais desconjuntado.

Enquanto focado na religião, costumes, etnias, exotismos, tabus e na natureza exibindo pequenos segredos do nosso mundo sob um olhar fotográfico milagroso, realmente Baraka é excepcional em sua proposta. Porém, passado esse grande segmento, Fricke tenta mimetizar Reggio ao criar um Koyaanisqatsi em miniatura. Seu olhar, justamente por ter sido o diretor de fotografia próximo a Reggio no trabalho anterior, por vezes é muito similar às composições visuais de outrora.

Apesar disso, há insights realmente muito únicos nessa repetição temática tão exótica no próprio longa. O cineasta mostra imagens mais opacas para a cidade, perdendo a explosão de cor que havia trazido até então. Tudo isso para exibir a sujeira da questão de moradia em uma metrópole com alta densidade populacional que se amontoa em apartamentos sempre diminutos. Em uma poderosa transição, Fricke compara os prédios tão apertados com o último apartamento da vida de cada um: os jazigos que amontoam milhares de gavetas em diversos cemitérios.

Há também bastante cinismo nesse miolo de Baraka que revela um teor mais idealista e mão pesada do diretor, desviando a proposta de ser um cinema de testemunho totalmente livre para o espectador interpretar como lhe convém. Isso ocorre por conta de imagens muito explícitas sobre desmatamento, impacto ambiental e de cenários pecuários nada agradáveis envolvendo o destino miserável de diversos pintinhos tratados de modo tão desumano e indiferente.

Com imagens tão poderosas e impossíveis de interpretar de modo mais abrandado, logo Baraka se torna também um filme claramente político, favorecendo as primeiras imagens de contato com a natureza e simples vidas tribais isoladas. Isso se torna ainda mais explícito quando Fricke exibe imagens do Museu do Holocausto e outras envolvendo pesada artilharia de guerra. Depois desse miolo pessimista e pouco sutil, o diretor novamente decide retomar o tema da religiosidade, mas agora focado em religiões mais conhecidas, com maior foco no hinduísmo.

Mesmo que a curiosa relação da população indiana com o Ganges tenha sido muito bem tratada por Reggio em Powaqqatsi, Ron Fricke traz um detalhamento ainda maior com imagens mais interessantes exibindo pessoas se banhando, enquanto outras lavam roupas ou simplesmente rezam. Mas o mais fascinante certamente surge com os cortejos funerários das cremações que também ocorrem nas margens do rio enquanto outros cidadãos agem com a maior naturalidade possível, apesar de observarem a rápida deterioração de um cadáver pelo intemperismo do fogo.

A Eterna Dualidade da Vida

É uma pena que mesmo trazendo tantas imagens valiosas sob um olhar fotográfico fascinante repleto de time lapses e slow motions certeiros, Fricke cometa o pecado da vaidade ao ser valer de uma montagem que, de fantástica, se torna maniqueísta em diversos pontos ao apostar na dualidade eterna do viver: o bem e o mal. Com proposta exageradamente naturalista, Fricke captura seletas belezas da vida, mas sempre de modo desequilibrado e, portanto, tendencioso.

Mesmo assim, com esse flerte muito equivocado a Koyaanisqatsi, Fricke consegue tornar Baraka uma peça cinematográfica fantástica sobre religião, energia e natureza. Só que apenas um pouco desconjuntada.

Baraka (Idem, EUA – 1992)

Direção: Ron Fricke
Roteiro: Ron Fricke, Mark Magidson, Bob Green
Gênero: Documentário
Duração: 96 minutos.

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