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Lady Gaga talvez seja a cantora mais versátil do mundo pop contemporâneo. Não apenas por seu alcance vocal e pela tecedura nas notas que proclama com tanta destreza e habilidade, mas sim por ser capaz de criar uma identidade nas mais diversas vertentes musicais que existem, desde o electro dance, passando pelo jazz e culminando, em 2016, em um primaveril folk intitulado Joanne. E mesmo que tenha sofrido duras críticas por suas investidas cada vez mais severas e mais transgressoras quando pensamos no endossado classicismo da construção de músicas – vide ARTPOP -, ela permaneceu verdadeira ao momento em que estava vivendo e aos seus valores e ideais.

Seu mais recente álbum de estúdio também emergiu como um divisor de águas, principalmente por ser muito bem recebido pela crítica especializada ainda que tenha desapontado alguns fãs. É fácil tomar as dores dos little monsters quando estes aguardavam ansiosamente o retorno da Mother Monster para o pop, mas a ideia aqui não é agradá-los, por assim dizer. Nesse novo disco, a artista permite-se finalmente explorar seus demônios interiores e intimistas de uma forma tão singela e sutil que fica difícil não se emocionar com as inúmeras odes à sua família e até mesmo aos seus amores passados. Em Joanne, ela se vê em um beco sem saída, do qual só conseguirá sair quando finalmente colocar em jogo exatamente o que lhe aflige, o que lhe impede de seguir em frente e o que mais lhe importa: aqueles que a cercam.

O título da obra não é escolhida ao acaso, assim como todos os outros. Se suas composições anteriores tratavam de forma aberta sobre ambição, desejo e criatividade, aqui Gaga resolve repousar em seu antro de criação e desvendar os mistérios de um passado marcado por mágoas e traumas, principalmente no que concerne à sua tia, Joanne Germanotta. Para aqueles que não estão familiarizados com o nome, ela foi a tia que a cantora nunca conheceu, cujo trágico desfecho emergiu após ser diagnosticada com lúpus e que lhe impediria de usar as mãos, ou seja, seus únicos instrumentos de trabalho – afinal, ela era uma artista plástica. E apesar das dores, sua mãe e avó de Gaga entendeu que a filha não poderia continuar vivendo sem fazer o que amava.

Ame as pessoas ao seu redor. E essencialmente essa premissa que resume a triste história acerca de Joanne. E é a partir disso que a cantora se lança em um território complicado que culmina em mais uma obra-prima, tão importante que se torna passível de incompreensão por grande parte do público. Talvez a música que empresta o nome para o título seja a mais tocante de todas – eu mesmo não pude deixar de segurar as lágrimas ao ouvir a composição fincada nos acordes suaves do violão, perscrutadas pela crueza da voz de Gaga: “pegue a minha mão. Fique Joanne. O céu não está pronto para você”. A letra inicia-se já com um impacto tremendo que não permanece em uma linearidade clássica, mas expande-se para um clímax que dialoga diretamente com a dolorida alma da artista.

E se o disco fala de pessoas, ele não se mantém apenas num âmbito saudosista, permitindo criar uma amálgama positiva e negativa, de lembranças memoráveis e carinhosas contrapostas e desilusões amorosas e “problemas do coração”. É com isso que emerge a trilogia principal de Joanne. Iniciando a saga, temos Perfect Illusion, uma investida que fala basicamente de um devaneio tido pelo eu lírico, o qual acreditou piamente no amor de seu parceiro, mas que depois percebeu, ainda que tarde demais, que tudo não passava de uma “perfeita ilusão”; mesmo dilacerada, Gaga ainda tenta resgatar algum sentimento bom do que teve com essa pessoa em Million Reasons, uma rendição quase onírica e que muda os solos de guitarra para a composição abrandada do violão (mais uma vez) em um louvor por algo que a faça mudar de ideia.

Não é nenhuma surpresa que, eventualmente, ela decida seguir em frente. Com um pé atrás e decidindo que irá viver a vida – ou seja, cometer mais erros que a levarão em um caminho diferente do que esperava. Em John Wayne, uma investida bem mais country para seu CD, ela utiliza-se de referências até mesmo cinematográficas, como o nome do ator que serve de inspiração para a faixa, para chegar à conclusão de que todo homem é um “John Wayne”, ou seja, um galanteador perigoso. E ao invés de se proteger de possíveis e futuras ilusões amorosas que outrora quebraram seu coração, decide simplesmente mergulhar de cabeça.

Sua maturidade psicológica e emocional emerge com Diamond Heart. Usando e abusando de suas habilidades vocais, que mantém-se em um nível esplendoroso e aplaudível principalmente por sua arquitetura rouca e ao mesmo tempo natural, Gaga diz que ela tem um coração tão impenetrável feito diamante, mas que brilha com um potencial a ser explorado. E essa dureza e frieza é fruto de um “cruel rapaz que me deixou mais forte”, provavelmente referindo-se àquele em que acreditou piamente, mas que lhe decepcionou. O brilhantismo desse álbum é a capacidade de conversar, nas mais inúmeras instâncias, com os anseios e medos das pessoas: o medo de amar e não ser correspondido, o medo de ficar sozinho, o medo de perder aqueles que ama sem realmente tê-los conhecido.

Angel Down é a música que mais abrange a dualidade entre caos e ordem, esperança e desconsolação: mudando bruscamente para o profundo ímpeto do piano clássico, com alguns toques folk (principalmente no tocante aos vocais), Gaga fala sobre a guerra. Não necessariamente referindo-se às grandes batalhas bélicas, mas também abraçando as crises interiores que todos nós temos ou um dia teremos, e como nos sentimos ao perceber que teremos que lidar e enfrentar isso mais cedo ou mais tarde, de modo solitário e que muitas vezes nos faz desistir de continuar. E ainda que busquemos um refúgio em nossas crenças e rezas, o anjo caído ainda está lá, esperando para ser resgatado ou notado por aqueles que, mesmo indiretamente, foram responsáveis pela trágica queda.

Pensar que o disco é essencialmente depressivo é cair em uma observação muito externa e superficial; a composição completa também está recheada com criações de reafirmação de amizades, fraternidade e até mesmo apoio nos lugares em que menos se espera encontrar. Se em Hey Girl, dueto feito entre Gaga e Florence Welch, preza pela sororidade e pelo empoderamento através de um discurso feminista, Come to Mama é basicamente um apelo pelo famigerado ombro amigo que tem como principal ideia consolar o inconsolável.

Não há como negar que a principal base para Joanne são as sensações: sejam melancólicas ou prazerosas, mundanas ou transcendentais, são as pessoas que Lady Gaga ama que mantêm as engrenagens do álbum girando, e que o transformam numa investida tão íntima que chega a ser difícil não se conectar com a sutileza das composições e a visceralidade de letras ao mesmo tempo emocionantes e complexas.

Nota por faixa:

  • Diamond Heart – 4/5
  • A-YO – 5/5
  • Joanne – 5/5
  • John Wayne – 4,5/5
  • Dancin’ in Circles – 4/5
  • Perfect Illusion – 4,5/5
  • Million Reasons – 5/5
  • Sinner’s Prayer – 5/5
  • Come to Mama – 4,5/5
  • Hey Girl – 4/5
  • Angel Down – 5/5
  • Grigio Girls (lançado na versão deluxe) -3,5/5
  • Just Another Day (lançado na versão deluxe) – 4/5

Joanne (Idem, EUA – 2016)

Gravadora: Interscope
Lead: Lady Gaga
Composição: Stefani Germanotta, Mark Ronson, Josh Homme, Hillary Lindsey, Michal Tucker, Beck Hansen, Kevin Parker, Florence Welch, Emile Haynie, Nadir Khayat, Josh Tillman
Gênero: Soft-rock, Dance-pop
Faixas: 11
Duração: 39 min.

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