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Carlos Saldanha sempre teve a habilidade de pegar ideias e piadas aparentemente sem qualquer chance de sucesso e consegui-las colocar dentro de um escopo narrativo que realmente funcionasse. Temos, como exemplo, as franquias Rio e A Era do Gelo, que buscam explicações irracionais e inverossímeis para resgatar uma cultura própria e que são, em sua maior parte, pautadas na comédia escrachada – e mesmo com a irrefreável decadências de tais animações, não se pode negar que elas fizeram um sucesso estrondoso o qual já se mantém por quase duas décadas.

Como novo projeto, Saldanha resolveu canalizar seus esforços e sua considerável capacidade artística para animação a uma das obras infantis mais famosas de todos os tempos – O Touro Ferdinando. Baseando-se no livro de Munro Leaf, ilustrado pelo icônico Robert Lawson, a narrativa gira em torno do personagem-título, um pacífico animal que nunca teve a predisposição de seus companheiros e semelhantes a lutar nas famosas arenas espanholas contra a aparente invencibilidade dos toureiros, preferindo muito mais misturar-se ao odor e à beleza das flores, utilizando-as como forma de escape da cruel realidade em que vivia.

Seguindo um padrão coming-of-age da maioria das jornadas do herói, Ferdinando (dublado originalmente pelo incrível John Cena), está em uma “zona de conforto” forçada; em outras palavras, ele se vê dentro de um cosmos que conhece, mas com o qual não se identifica, sendo motivado apenas pela figura do pai (Jeremy Sisto), um exuberante touro respeitado, reconhecido – e obviamente odiado – pelos outros animais adultos dentro do rancho principal da trama. É claro que o pai espera que seu filho se espelhe nele, mas seu tenro coração compreende as angústias do pequeno Ferdinando acerca de aventurar-se nos perigos das touradas. Entretanto, emergindo como o principal ídolo do protagonista, ele tenta convencê-lo de que o destino está traçado, de forma cândida e protetora. As coisas mudam drasticamente quando o pai é escolhido como o touro a ser enfrentado pelo famoso El Matador em uma incrível luta, nunca retornando para casa e deixando-o sozinho dentro de um ambiente hostil.

Fincando-se à mesma ideia vista em Quem Quer Ser um Milionário? ou até mesmo os convencionais clichês em Lion – Uma Jornada para Casa, Ferdinando acaba escapando de seu cárcere, tentando encontrar um jeito de encontrar seu pai. O resultado é sua chegada não predestinada a uma pequena fazenda na qual vivem a pequena Nina (Julia Saldanha) e seu pai, resgatando o então bezerro da morte certeira e dando-lhe um lar muito mais pacífico e paradisíaco. E é justamente aí que a jornada do herói começa a ganhar ainda mais forma, principalmente se levarmos em conta que a narrativa inteira é permeada por obstáculos a serem enfrentados pelo personagem principal como forma de encontrar uma reviravolta epifânica para sua vida – a qual, de modo infeliz, nunca realmente ocorre.

Acontece que o touro sempre teve em mente um objetivo, e ele o encontra ao final do primeiro ato. Logo, é de se esperar que Ferdinando mantenha e proteja o refúgio pelo qual tanto sonhou e viva sua vida sem preocupações – isso até ser capturado e levado para o mesmo rancho do qual escapou, mas agora repaginado com algumas mudanças e a entrada de mais touros e rostos não familiares. O “retorno às raízes” mais uma vez desencadeia traumas no protagonista, que tem que lidar com inseguranças e até mesmo as ameaças de seus companheiros, mesmo que sua formosura e imponência sejam de extrema necessidade para o ambiente determinista em que vive. Ferdinando não é violento por natureza – e assim que percebe a vontade de retornar para sua real casa, ele mais uma vez se vê lutando pela mesma coisa de antes. É claro que a história eventualmente torna-se repetitiva, ainda mais por se tratar de uma arquitetura voltada para o público infantil e que precisa das infames e clichês mensagens de apoio e autoestima para construírem sua personalidade.

É interessante notar, talvez de modo pejorativo, que quase todos os personagens seguem o mesmo arco: Valiente (Bobby Cannavale), o arqui-inimigo de Ferdinando, logo entra numa subtrama de redenção que o torna um dos aliados mais próximos e de extrema importância para a resolução final, incluindo a salvação dos outros companheiros do iminente abate – afinal, esse é o destino que os aguarda caso não alcancem o status de “lutador” apto para as arenas. O único a não passar por esse processo é o personagem-título, visto que o endossamento de sua personalidade é realizada no começo do longa, sofrendo nada mais que algumas lapidações e ápices de altruísmo, transformando-o no herói utópico.

Sem sombra dúvida, é Kate McKinnon quem rouba a cena na animação: dando vida à irreverente e completamente insana cabra Lupe, uma figura que realmente é a definição de escape cômico. Resgatando inúmeras referências da cultura pop e até mesmo dos costumes espanhóis, ela rende-se às desconstruções estereotípicas e insurge como um deleite para os olhos. Lupe rouba todas as sequências de pura quebra de expectativa quanto mais dramáticas, e talvez seja uma das únicas a realmente ter um arco diferenciado dentro do escopo de Saldanha: a busca pela aceitação e pelo amor, negando a “tarefa” à qual foi designada para mostrar um lado não conhecido por aqueles que convivem consigo.

Os clichês não se restringem apenas ao escopo narrativo, expandindo-se até mesmo para a composição estética. Todas as delineações animadas estão enraizadas em algo que não parece pronto, e sim em vias de ser finalizado – e essa despreocupação imagética deixa margem para que a fotografia, ao invés de prezar pelo intimismo entre os personagens, seja mais panfletária que qualquer outra coisa, mostrando a atmosfera paradisíaca da fazenda em que Ferdinando mora em contraste com o gradativo locus horrendus do rancho de treinamento.

Em suma, O Touro Ferdinando é um filme fofo, com uma mensagem fofa que é transmitida por personagens fofos. Mas não passa disso: toda a sua premissa com grande potencial eventualmente não faz jus à obra de Leaf, deixando a desejar em sua própria completude. Essa é uma investida interessante para a carreira de Saldanha – e mesmo com o esforço que depositou no longa, não é a certa para alavancar toda a sua habilidade.

O Touro Ferdinando (Ferdinand, EUA, 2018)

Direção: Carlos Saldanha
Roteiro: Robert L. Baird, Tim Federle, Brad Coperland, baseado na obra de Munro Leaf
Elenco: John Cena, Kate McKinnon, Bobby Cannavale, Jeremy Sisto, Jerrod Carmichael, Julia Saldanha, Raúl Esparza
Gênero: Animação, Comédia
Duração: 108 min.

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