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Ocasionalmente nos deparamos com um filmes que nos deixaram com boas recordações, mas que, na realidade, não chegam à altura dessas saudosas memórias. Quando lidamos com clássicos – modernos ou não – algo similar ocorre, muitas vezes determinada obra é classificada como tal não pela sua qualidade, mas pela sua popularidade, seu impacto na cultura como um todo – bom exemplo disso é Os Caça-Fantasmas. Ouso dizer que, na mesma situação, encontra-se o longa de Michael Mann, O Último dos Moicanos.

Não que essa obra, baseada no romance de James Fenimore Cooper e, também, no longa de George B. Seitz, de 1936, seja péssima ou algo assim. Mas, certamente, ela apresenta perceptíveis deslizes, os quais, de uma forma geral, não impactaram sua receptividade, fruto de grandes acertos que quase eclipsam os seus defeitos, fazendo dessa uma experiência falha, porém muito proveitosa, justificando, pois, as boas recordações que permanecem conosco.

De fato, não podemos deixar de desconsiderar o corajoso roteiro de Michael Mann e Christopher Crowe, que coloca como grande antagonista um nativo-americano, questão problemática, dependendo da abordagem, considerando o massacre das populações indígenas nos EUA. Estamos falando de um filme de 1992 e não de meados do século XX, quando abordagens similares eram menos problematizadas. De toda forma, Mann e Crowe acertam na forma como lidam com o assunto, antagonizando a figura de Magua (Wes Studi), mas fazendo dele mais uma vítima da colonização da América do Norte pelos europeus.

critica o ultimo dos moicanos

Aliás, essa vilanização de Magua ocorre por duas razões bem claras. A primeira porque ele é uma figura presente do início ao fim – atazanando a vida dos “mocinhos” sempre que possível. Desde que intercepta Cora (Madeleine Stowe), filha do coronel Munro (Maurice Roëves) na estrada, sendo impedido por Hawkeye (Daniel Day-Lewis) e sua família, até a perseguição final, ele é demonstrado como uma figura inabalável, implacável, fazendo com que tomemos nítido desgosto por ele, por mais que entendamos sua simples sede por vingança – revelada já na metade do filme. 

Claro que Mann não tenta esconder essa vilania em momento algum, deixando bem claro quem é o antagonista já em sua primeira aparição, com ele saindo das sombras do quartel-general das tropas inglesas. Wes Studi, evidentemente, merece elogios pela maneira como apresenta o olhar impiedoso de seu personagem, provocando medo no espectador pela simples certeza de que ele não irá desistir enquanto não obtiver sua vingança.

Já Hawkeye, ou Nathaniel Poe, é o completo oposto – não há vingança ou algo assim em seus olhos, basicamente ele vive ao lado de seu irmão e pai (adotivos) e decide ajudar Cora, sua irmã e o oficial inglês, Duncan (Steven Waddington), simplesmente porque esse é o correto a se fazer. O Último dos Moicanos se passa durante a Guerra dos Sete Anos, mas, quando se trata de seu protagonista, a obra facilmente poderia se passar na Idade Média – trocaríamos esse branco, criado por índios, por um cavaleiro (ou algo assim) e teríamos o mesmo resultado. Esse contraste entre o personagem de Day-Lewis e Magua é deixado bem claro quando o grupo principal se depara com os cadáveres de inocentes em uma fazenda – silenciosamente ele sofre com isso, mas se preocupa em tirar os ingleses do perigo e jamais pensa em ir atrás dos responsáveis por aqueles atos – completo oposto do vilão, que busca se vingar pela morte de sua família.

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Nesse cenário, que toma várias liberdades artísticas, claro, a fim de criar a história mais dramática possível, é interessante observar como o texto se distancia o máximo que pode de conceitos como o bem ou o mal. Sejam franceses, ingleses, hurões, ou até mesmo os moicanos, todos tomam decisões dúbias, preocupam-se com seus próprios interesses, enquanto o grupo principal acaba sofrendo com as consequências – não há, de fato, como dizer quem está certo ou errado, sabemos apenas que o foco está na sobrevivência de Hawkeye, Cora e os outros.

Assim sendo, o romance entre o protagonista e a filha do coronel Munro prova ser essencial para o funcionamento dessa estrutura dramática – trata-se da segunda razão para a vilanização de Magua, que falei lá em cima. Por mais artificial que seja – ambos se apaixonam, literalmente, do dia para a noite, da mesma forma que Uncas (Eric Schweig) e Alice (Jodhi May) – é esse ponto do texto que faz com que nos importemos com a trajetória do grupo. Não conhecemos Cora o suficiente para nos preocuparmos com sua vida ou morte, mas criamos um vínculo com a relação entre ela e Nathaniel, fazendo com que, imediatamente, sintamos maior aversão a Magua, que tenta, ao máximo, matar as filhas do coronel.

Claro que grande parte disso se deve ao trabalho de Daniel Day-Lewis, que, como sempre, se entrega plenamente ao papel. Mais de uma vez sentimos como se ele estivesse, de fato, correndo e lutando para salvar a amada – há cansaço em seu olhar, determinação, permitindo que o vínculo com o espectador seja firmado. Sua dedicação é tamanha, que chega a fazer funcionar o constante uso da câmera lenta por parte de Mann, recurso claramente exagerado, desnecessário para esse filme em particular, mas que consegue ser digerido pela veracidade das ações representadas por Day-Lewis.

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Existe, no entanto, um limite do que um ator pode fazer para um filme e, por mais talentoso que seja, não há como esconder as péssimas escolhas tomadas por Michael Mann em sua decupagem, especialmente durante as sequências de ação. Mann mostra o que não deve e esconde o que deveria mostrar, a tal ponto que chegamos a dar risadas – bom exemplo é o clímax, que conta com alguns planos de pessoas (bonecos) caindo de um desfiladeiro, da maneira mais artificial possível. Não bastasse isso, ao intercalar planos mais abertos, com closes no rosto dos atores, ele acaba fazendo com que não entendamos plenamente o que está acontecendo, ou onde está cada pessoa. 

Aliás, é importante notar como o diretor simplesmente não sabe criar sequências dramáticas através dos seus enquadramentos, muitas vezes prejudicando consideravelmente nosso envolvimento com determinada cena. Não que Mann seja incapaz de nos presentear com alguns belíssimos enquadramentos – notadamente, muitos planos dessa filme merecem ser enquadrados, mas eles ficam perdidos em meio à tamanha bagunça, que quase nos esquecemos deles.

Felizmente, dois fatores cruciais escondem, um pouco, essa tragédia cinematográfica. O primeiro é a fotografia de Dante Spinotti, que, evidenciar o contraste entre a escuridão e as poucas fontes de luz, cria verdadeiras pinturas, especialmente durante a sequência do ataque ao forte, que traz planos que mais parecem pinturas a óleo retratando tal época. Essa escolha imprime bastante naturalidade às imagens, contribuindo consideravelmente para nossa imersão, que somente tem a ganhar com os meticulosamente fabricados figurinos e adereços.

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O segundo fator é a emblemática trilha sonora de Randy Edelman e Trevor Jones, que traz um dos temas mais memoráveis da História do Cinema, tão impactante, que faz parecer que o clímax desse filme é uma obra-prima, quando, na realidade, é extremamente mal construído, indo de encontro com o construído contraste dos personagens centrais e o antagonista. Através dessas poderosas melodias trechos maçantes adquirem uma atmosfera épica, contrabalanceando os muitos deslizes da direção.

Dito isso, fica claro o porquê de O Último dos Moicanos ter se tornado um clássico dos anos 1990, por mais que esteja longe de ser perfeito. Com muitos problemas técnicos, a obra é salva pelas dedicadas atuações de Day-Lewis e Studi, além de uma trilha sonora inesquecível e direção de fotografia de encher os olhos de qualquer um. Certamente esse conjunto de grandes acertos merecia uma direção mais rebuscada, sem notáveis erros, mas, ao menos, podemos contar com as boas memórias deixadas por essa falha, porém proveitosa experiência.

O Último dos Moicanos (The Last of the Mohicans – EUA, 1992)

Direção: Michael Mann
Roteiro: Michael Mann, Christopher Crowe
Elenco: Daniel Day-Lewis, Madeleine Stowe, Russell Means, Eric Schweig, Jodhi May, Steven Waddington, Wes Studi, Maurice Roëves
Gênero: Drama, Ação, Aventura
Duração: 112 min.

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