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Embora filmes sobre charlatões não sejam necessariamente originais, é bem comum histórias sobre golpistas moralmente ambíguos alcançarem um enorme sucesso entre crítica e público ao longo de toda a história da sétima arte. Diferentemente de assaltantes a banco, por exemplo, que usam armas e dinamites, os vigaristas exploram a persuasão, charme e conhecimento da natureza humana para atacar suas vítimas. Essa ausência de violência extrema e, muitas vezes, seus alvos “merecedores” (pessoas arrogantes, gananciosas e cruéis), acabam atraindo a plateia a se identificarem com suas causas, tornando suas jornadas pelo crime até “divertidas” para o público.

Em 2003, o lendário diretor de clássicos como Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner, o Caçador de Andróides, Ridley Scott, estava em um excelente momento na carreira. Desde a virada do milênio, havia sido indicado dois anos seguidos ao Oscar de Melhor Diretor, por Gladiador e Falcão Negro em Perigo, e ainda dirigido o elogiado suspense Hannibal, com Anthony Hopkins e Julianne Moore. Estava envolvido também em outro projeto de filme épico chamado Tripoli, mas devido ao adiamento da produção ganhou alguns meses para se dedicar a um novo trabalho. Foi aí que conheceu o roteiro de uma comédia dramática chamada Os Vigaristas.

No filme, Roy (Nicolas Cage) e Frank (Sam Rockwell) são parceiros em pequenos crimes há anos, construindo uma forte amizade e método de trabalho bastante seguro, permitindo que mantenham uma vida normal bem longe dos olhos da justiça. No entanto, suas personalidades são bem distintas. Roy – que sofre de transtorno obsessivo compulsivo – é cuidadoso e discreto, economizando cada centavo. Frank, por sua vez, é aventureiro e gastador, sempre precisando de dinheiro.

Adaptado do livro homônimo de Eric Garcia, o filme envolve o espectador na jornada desses dois golpistas que terão suas vidas viradas de ponta-cabeça quando Frank convence Roy a participar de um golpe envolvendo uma quantia enorme de dinheiro e a filha de um casamento antigo (Alison Lohman), que Roy nunca tinha conhecido, aparece para aprender o “negócio da família”, quebrando a rotina do metódico charlatão.

critica os vigaristas

Todo o processo de pré e (durante a própria) produção foram bem tranquilos. Scott confiava muito na sua equipe e deixou o processo de criação para o filme bem colaborativo, resultando em uma obra bastante despretensiosa e, por vezes, até um tanto caricata. O casting principal caiu como uma luva. Nicolas Cage teve alguns dos seus principais papéis na carreira da metade para o final dos anos 90 – chegando a ganhar um Oscar de Melhor Ator – e no ano anterior ao filme havia sido indicado pela maravilhosa interpretação dupla em Adaptação. E, cá entre nós, quem melhor do que ele para interpretar um vigarista neurótico, obcecado por limpeza e cheio de tiques nervosos?

Da mesma forma, Sam Rockwell havia se destacado em seu último papel, na estreia de George Clooney na direção, em Confissões de Uma Mente Perigosa – que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Berlim. E a então desconhecida Alison Lohman, de 23 anos, acabou interpretando uma garota de 14, de maneira completamente plausível. A sincronia do trio principal foi fundamental para sustentar o interesse na história, que apesar da pouca profundidade (e até credibilidade), proporciona uma trama divertida envolta em uma embalagem muito bonita e caprichada – Scott e o diretor de fotografia John Mathieson (de Gladiador e O Fantasma da Ópera (2004)) deixam várias pistas visuais que enriquecem bastante a narrativa.

Diferentemente do que pode parecer, Os Vigaristas é uma dramédia sobre um homem que se fechou emocionalmente para a vida e depois de muitos anos seguindo uma rotina rígida, precisa aprender a confiar mais, se abrindo para riscos e se reconectando com uma família – pelo bem da sua própria saúde mental. Quando o médico que lhe fornecia os remédios responsáveis por tornar sua vida funcional deixa a cidade, ele acaba sendo apresentado a um novo psiquiatra que, entretanto, promete fornecer as doses apenas se Roy se abrir para conversas periódicas. Aos poucos, isso o deixa mais calmo e o leva a conhecer sua filha, Angela.

Como os golpes aplicados pela dupla não são tão elaborados e não há nenhuma grande sequência de roubo (como geralmente há nos filmes do gênero), o longa dá uma “esfriada” no segundo ato, após a apresentação dos personagens e o colapso nervoso sofrido por Roy. No entanto, é uma comédia e não um filme de ação, portanto, nada impede que o espectador continue investindo na trama, graças a construção da relação entre pai e filha, cuja energia acaba sutilmente rejuvenescendo e transformando o fechado personagem. Porém, ele ainda está divido em um conflito moral interno.

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Em determinada cena, Angela diz a Roy a seguinte frase: “Você não é uma má pessoa, mas também não é boa”. Apesar de soar como uma frase expositiva, ela define muito bem quem é Roy durante boa parte do filme. Embora julgue ter princípios, ele ganha a vida passando pessoas inocentes para trás. Essa indecisão entre ser uma boa ou má pessoa, é expressada também pelo figurino do personagem, quase sempre bege ou cinza – indicando um meio termo entre a luz e a escuridão moral que enfrenta.

Scott também explora visualmente outras maneiras de envolver o espectador no drama sofrido pelo personagem principal. Em vários momentos, Roy parece “preso” em casa, no escritório e em seu próprio figurino – não apenas representando seu medo de lugares abertos, mas sua própria prisão emocional. A sombra da cortina na sua casa também aparenta grades de uma prisão – seria um possível foreshadowing do futuro do protagonista? E o que dizer desse frame duplo de Frank, mostrando as “duas caras” do charlatão?

Talvez uma última ressalva seja a falta de um antagonista com peso maior – essa também era uma preocupação do próprio Ridley Scott, em declaração posterior. O ator Bruce McGill, que interpreta o “vilão” do filme, é versátil e consegue passar certa vulnerabilidade (para o golpe final), mas não convence na imponência que o papel necessitava na reviravolta. Falando nisso, o terço final é um tanto depressivo e até sombrio, moralmente bem mais “pesado” do que os dois primeiros atos construiam. Cientes disso, Scott e os produtores decidiram adicionar mais uma reviravolta no terceiro ato, com um fechamento mais “otimista”, por assim dizer. Na minha opinião, apesar de um tanto brega, combina mais com o tom apresentado durante a maior parte da história.

Sendo assim, mesmo 15 anos após seu lançamento, Os Vigaristas continua uma história divertida e despretensiosa, potencializada graças ao apuro técnico do seu realizador e sua equipe (vale mencionar que Hans Zimmer compõe a trilha, mas digamos que não tem aqui um dos seus melhores trabalhos) e que devido ao carisma e sincronia do elenco funciona (e envelheceu) muito bem. Um trabalho menor na carreira de Ridley Scott, porém, que comprova a versatilidade de um dos grandes diretores do cinema contemporâneo.

Os Vigaristas (Matchstick Men, EUA – 2003)

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Eric Garcia, Nicholas Griffin, Ted Griffin
Elenco: Nicolas Cage, Sam Rockwell, Alison Lohman, Bruce Altman, Bruce McGill, Jenny O’Hora
Gênero: Comédia, Crime, Drama
Duração: 116 minutos.