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A divisão de animação da Warner Bros. é bem nova se comparada a outros grandes estúdios do gênero como a Disney e a DreamWorks. Não é à toa que a companhia tem apenas cinco filme, no total, produzidos, sendo que três fazem parte de um mesmo universo e partem de personagens pré-existentes. É claro que LEGO – O Filme e sua sequência-spin-off acerca do Cavaleiro das Trevas rendeu uma ótima aceitação tanto do público quanto da crítica, mas partindo de uma visão mais ampla, manter-se dentro de uma zona de conforto hora ou outra iria cair nas próprias ruínas. Foi pensando nisso que a Warner Animation resolveu mergulhar em seu segundo longa-metragem original e primeiro musical, buscando inúmeras referências hollywoodianas clássicas para dar vida a uma narrativa que, ainda que peque em vários aspectos, é, no final das contas, fofa o suficiente para o público infantil.

PéPequeno tem como ideia subverter o clássico mito do Pé-Grande, invertendo as perspectivas e colocando como centro heroico uma sociedade de iétis que vive no topo das montanhas do Himalaia, alheios a qualquer coisa que se passe além da suposta “ilha flutuante”. A comunidade, movida pelas verdades fabricadas das Pedras (que podem ser apenas interpretadas pelo respectivo Guardião), crê piamente em um nascimento mitológico provindo de mamutes gigantes que sustentam seu mundo e impedem as criaturas de caírem nas desgraças do vazio cósmico. E não é à toa que todos acreditam nisso: uma espessa e densa névoa impede que qualquer um enxergue o que existe lá embaixo, compulsoriamente mantendo todos em uma aceitação coletiva.

É claro que, levando em conta que a obra é voltada para uma audiência mais enxuta, essa profundidade não aparece de modo escancarado e é travestido com uma roupagem musical que funciona quase por completo. De qualquer modo, temos uma narrativa específica a ser seguida – a do iéti Migo (Channing Tatum), que sempre seguiu todas as regras até dar de cara com o lendário PéPequeno, nome dado aos humanos. Ao tentar avisar seus conterrâneos sobre o ocorrido, ele é tachado de louco pelo Guardião (Common) e é banido até reaprender as respeitar as leis e não duvidar da onipotência das pedras. A partir disso, ele se encontra com um grupo de rebeldes que também desconfia do sistema no qual estão inseridos há tantas gerações, partindo numa busca por provas de que os pequeninos realmente existem.

A narrativa funciona bem até meados do segundo ato, quando começa a desandar pelo excesso de informações em pouco tempo. Toda a trama move-se baseada no cômico com alguns parcos brilhos do drama obrigatório que serve para dar continuidade aos arcos dos personagens. Mesmo com a previsibilidade da animação, o encontro das duas raças em questão é hilário e se desenrola de acordo com a atmosfera simples orquestrada pelo diretor Karey Kirkpatrick: acontece que ambos os mundos são mitos um para o outro, e isso contribui até mesmo para a mudança de perspectiva que impede uma compreensão imediata entre eles – ao menos até Migo levar um “exemplar”, o jovem apresentador decadente Percy (James Corden), para sua terra natal e provar que todos estavam enganados.

A delineação dos atos é muito bem demarcada tanto pelo roteiro quanto pela estética fílmica. Conforme o longa mergulha em seu bloco de transição, a fotografia torna-se mais bruta e opressiva em comparação à paleta de cores viva da introdução: as sombras tornam-se ainda mais presentes e o uso do vermelho, do laranja e do amarelo vão de proposital encontro ao escopo externo azulado. Uma jogada um tanto quanto óbvia, mas que traz seu peso dramático para as revelações e traições a serem feitas pelos protagonistas e coadjuvantes – incluindo uma virada inesperada que casa com a fantasia a qual a história se dispõe a explicar.

Mesmo assim, não podemos negar que essa parte em específico é saturada de informações desnecessárias que só vale pela transformação forçada do herói em alguém que deve decidir o que é justo e o que é certo para proteger aqueles que ama. A compulsoriedade insurge no esquecimento de pequenas subtramas, como, por exemplo, a deixa de um suposto romance entre Migo e Meechee (Zendaya), líder do movimento de oposição e filha do Guardião, que nunca toma uma forma concreta e é varrida para debaixo do tapete. Até mesmo seu arco irreverente é roubado pela presença de personas de apoio, retornando com certa glória quando o último ato ganha seu espaço e ela decide voltar ao mundo dos humanos para ajudar Percy.

A concepção dos iétis e humanos é caricata e dialoga quase que imediatamente com os longas animados da Illumination Entertainment (responsável por Meu Malvado Favorito e Minions, por exemplo). Os traços faciais são largos, ondulados e sinuosos – e até as expressões, por mais irreverentes que sejam, tentam de alguma forma manter-se coesos. Mas optar por utilizá-las sem escrúpulos é o que abre margens para a queda livre. Kirkpatrick parece não perceber que não precisa se utilizar de quebras de expectativa e construções imagéticas bruscas o tempo inteiro para passar sua mensagem – e, mesmo para as crianças, isso se torna monótono e cansativo depois de um tempo.

De qualquer forma, PéPequeno consegue recuperar a bela mensagem que tenta e mostra-se relativamente satisfatório. É claro que existem obras do gênero que ousam com mais precisão naquilo que pretendem, mas essa aqui não entrega muito além do que promete, mostrando uma melhora quase imperceptível em relação a produções anteriores da companhia.

PéPequeno (Smallfoot, EUA – 2018)

Direção: Karey Kirkpatrick
Roteiro: Karey Kirkpatrick, Clare Sera
Elenco: Channing Tatum, James Corden, Zendaya, Common, LeBron James, Danny DeVito, Gina Rodriguez, Yara Shahidi, Ely Henry
Gênero: Animação, Comédia, Aventura
Duração: 94 min.