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Com a revolução ocasionada por Godfrey Reggio que simplesmente trouxe uma nova dimensão para o efeito Kuleshov ao apostar ferrenhamente na pureza imagética do documentário com Koyaannisqatsi, era uma simples questão de tempo para que o diretor se convencesse da necessidade de realizar uma trilogia temática a partir das técnicas empregadas em seu filme de estreia: um documentário organizado apenas pela força das imagens e da música original, sem apostar em narrativas, entrevistas, narrações ou idiomas.

Depois de um intenso período de produção que atravessou anos e diversos países, assim nasceu Powaqqatsi, a segunda parte da Trilogia Qatsi de Godfrey Reggio. Se antes o diretor estava concentrado em trazer uma visão macroscópica sobre a relação do homem com a natureza e os ambientes urbanos, aqui há uma maior proximidade com o homem e a humanidade como um todo, explorando as relações entre si através de outra sucessão de imagens grandiosas.

A Miséria do Terceiro Mundo

Em questão de poucos minutos, através de diversas imagens mostrando o esforço físico de trabalhadores minerando a Serra Pelada brasileira, é bastante nítido que Reggio quer abordar o tema do trabalho humano. Porém, não da humanidade em geral, mas concentrado em grande maioria na população que vive no chamado Terceiro Mundo.

Através de uma jornada pela Índia, Brasil e alguns países africanos, o diretor mostra a exaustiva jornada de pessoas nada favorecidas realizando trabalhos braçais, mas em pleno contato com a natureza. Com essa massa de gente trabalhadora pescando, construindo, minerando, colhendo, plantando, modelando, vendendo, entre diversas outras atividades que envolve intenso trabalho manual, Reggio elabora também a colaboração e união dessas pessoas em comunidade.

Acontece que para elaborar esse primeiro ato, do sentido de comunidade, do trabalho e também da religião e do forte contato étnico que as pessoas compartilham entre si, Reggio demora muito, além das imagens serem bem mais desconexas que as vistas em Koyannisqatsi. As deficiências do longa surgem dessa forma, portanto, revelando que um raio milagroso não cai duas vezes no mesmo lugar, já que Powaqqatsi é um filme bem menos interessante trazendo uma experiência tediosa.

Simplesmente parece que o conceito é cru demais para o formato estético de Reggio que não consegue desenvolver bem a linha de raciocínio do longa. Porém, com a chegada do segundo ato, as coisas melhoram um pouco ao estabelecer uma relação cruel entre o Terceiro e o Primeiro Mundo. Com imagens urbanas e diversas edificações, o contraste com a primeira parte se torna mais vivo, elucidando que, embora o urbano necessite muito da exploração do trabalho braçal de países subdesenvolvidos para sobreviver, há a presença incômoda de uma atmosfera isolacionista, aprisionada e claustrofóbica.

Ou seja, apesar de ser um ambiente mais favorável para viver, o urbano traz outras mazelas que não são presentes na vida em comunidade oferecida por países mais pobres nos quais a população explora a cultura de suas religiões, danças e manifestações, além da própria cidade para realizar suas tarefas cotidianas como comer, dormir ou lavar roupas.

Nessa troca de ambientes que pesa toda a negatividade que esses dois universos oferecem, Powaqqatsi se torna mais interessante e logo evolui para mostrar a troca oferecida pelo Primeiro Mundo para o Terceiro: a tecnologia. O terceiro ato, o mais fraco, elabora essa discussão sobre o impacto da tecnologia, dos televisores e da computação em sociedades muito mais pobres com habitantes que moram em casas sem paredes, evidenciando a transformação e exploração em uma troca desigual – basta ver hoje o retrato da sociedade brasileira extremamente desigual, mas com uma estranha comunhão de aparelhos tecnológicos.

Esse objeto de estudo é muito interessante, mas infelizmente Reggio perde o fio da meada diversas vezes trazendo grupos de pessoas encarando a câmera ou com imagens repetitivas repletas de slow motion. O nível da poesia decai bastante, infelizmente. Porém, próximo ao clímax, Reggio passa a utilizar a montagem de modo mais inteligente como ao apresentar um trabalhador carregando um saco pesadíssimo em suas costas e depois cortar para uma imagem exibindo um senhor bastante corcunda, provavelmente por conta do trabalho braçal desempenhado ao longo de anos.

O clímax envolve o ritmo mais intenso da montagem no qual Reggio simplesmente reitera tudo que trouxe no filme até então. Apesar desse luxo exagerado, existem três pequenos milagres muito poderosos no documentário – um deles é encenado. O primeiro envolve o estranho fascínio de uma garotinha que anda do outro lado da calçada pela câmera cinematográfica. Esse é o segmento das “encaradas” mais natural por mostrar essa menina tão curiosa, mas igualmente amedrontada de aproximar. Além disso, há um contraste divino mostrando a ingenuidade da garota que ignora solenemente os dizeres sobre guerrilha urbana escritos na parede logo atrás dela.

O segundo, mais poderoso, traz a cena mais triste do filme. Novamente temos uma garotinha, mas está com responsabilidades muito maiores do que o apropriado para sua idade: ela conduz uma carroça puxada por dois burricos enquanto um parente muito mais velho que ela simplesmente dorme ao lado, não ligando para o perigo inevitável da criança conduzir em uma rua muito movimentada. Reggio captura o olhar carregado de ódio e mágoa da menininha que desconta toda sua frustração nos burricos a frente com diversas pauladas inúteis no lombo das criaturas para que a obedeçam. É algo perturbador que desafia nosso papel como meras testemunhas desse momento tão desgraçado na vida daquela misteriosa menina. Sabemos que ela sofreu e nada mais. E esse silêncio da ignorância certamente é perturbador.

Para encerrar o longa, Reggio cria um milagre por si próprio ao colocar um garotinho a andar em uma estrada de terra. Ao seu lado, se aproxima um enorme caminhão que logo o ultrapassa, mas joga uma montanha de poeira em seu caminho. A crítica sobre a exploração e progresso é finalmente feita para encaminhar o significado poderoso sobre a palavra powaqqatsi.

Phillip Glass também retorna para criar outra composição forte no novo longa. A proposta certamente é diferente o fazendo até mesmo trair sua assinatura estilística com músicas modais. Dessa vez acompanhando Reggio enquanto o diretor filmava a obra, Glass já criava as músicas para os segmentos durante o ato da produção, podendo brincar ainda mais com ritmos e compassos tribais, além de incorporar muito da sonoridade das músicas tradicionais de cada país. Apesar da trilha ser menos brilhante que a de outrora, temos a criação de um tema principal muito valioso que, infelizmente, é repetido diversas vezes durante o filme, escancarando a falta de material original para todos os segmentos.

Vida de Predação

Godfrey Reggio provou para o mundo sua habilidade como cineasta e inventor/refinador de linguagem cinematográfica ao levar o documentário para um estágio nunca alçado antes, provando de fato que é possível dizer milhões de palavras somente com o impacto visual do Cinema. Entretanto, apesar de sua estreia ter sido fenomenal, além do trabalho de preparação intenso para a sequência, Powaqqatsi é um filme menor, apesar da proposta interessante.

O grande entrave certamente está na repetição, seja temática ou técnica, e no estado fraco dos contrastes propostos por Reggio através de uma montagem menos inspirada, além de uma linha de raciocínio bastante moderada para a sucessão dos segmentos. Ainda assim, essa segunda parte de uma longa trilogia merece ser conferida pela força da mensagem que é tão pura e realista quanto a do primeiro filme, agora envolvendo uma problemática nas trocas humanas.

Agora, se esta for a primeira vez que conferirá o trabalho do cineasta, é bem possível que Powaqqatsi seja uma experiência muito mais memorável do que a de outros espectadores já familiarizados pelo talento monumental de Godfrey Reggio.

Powaqqatsi – Vidas em Transformação (Powaqqatsi, EUA – 1988)

Direção: Godfrey Reggio
Roteiro: Godfrey Reggio, Ken Richards
Gênero: Documentário
Duração: 99 minutos

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