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A comédia brasileira sempre foi um nicho muito complicado para a aceitação do público; carregada com o estigma das ruínas do pastelão e do caricato, o número de produções do gênero que repete as mesmas fórmulas narrativas é quase inenarrável – e, apesar de constantemente criticadas em todos os âmbitos, representam um microcosmo econômico de grande lucro para a indústria do entretenimento nacional. À parte dos dramas hiper-realistas e de algumas outras tentativas, os longas-metragens e séries cômicos são os mais consumidos em disparadas, e é partindo dessa premissa quase engessada que a Netflix resolveu mergulhar um pouco mais no potencial do nosso país e trazer a primeira produção seriada dessa vertente para sua plataforma: Samantha!.

Já de cara posso dizer que Samantha! traça inúmeros paralelos com certo filme que caiu no esquecimento das pré-indicações ao Oscar, Bingo – O Rei das Manhãs. Ambos trazem um artista em decadência tentando recuperar o brilho de suas habilidades e deparando-se com inúmeros conflitos internos e externos que contribuem para um amadurecimento compulsório. E as semelhanças são imediatamente perceptíveis quando Emanuelle Araújo, que deu vida a uma versão mais nova da icônica Gretchen no longa, volta à ativa ao encarnar a protagonista-título, a qual era conhecida como “a criança mais amada do Brasil” aos nove anos, retornando nostalgicamente para a década de 1980, e agora lida com a falta de reconhecimento público. O capítulo piloto já insurge trazendo uma montagem anacrônica que passeia pelos tempos de estrelato da anti-heroína e como seu cotidiano mudou drasticamente após constituir uma conturbada família.

Samantha é ex-esposa do forçosamente aposentado jogador de futebol cujo apelido é Dodói (Douglas Silva, afastando-se em uma completude sincera de sua memorável performance em Cidade de Deus), que ficou doze anos preso por motivos desconhecidos. Dodói a deixou numa posição de mãe solteira com os dois filhos Brandon (Cauã Gonçalves) e Cindy (Sabrina Nonata), cujas personalidades opostas ao extremo carregam inúmeras brechas para camadas e mais camadas de humor puro – ao menos a tentativa de construção de um. A série, criada por Felipe Braga, já acerta em cheio ao optar por um núcleo principal pequeno e que permite o desenvolvimento de seus personagens principais – e também merece reconhecimento por afastar-se do convencionalismo de treze episódios, optando por sete capítulos de aproximadamente meia hora que possuem começo, meio e fim em si mesmos.

Braga parece buscar inspirações em diversos shows norte-americanos que prezam pelo politicamente incorreto, tema constante em cada uma das subtramas aqui, e pelo propositalmente ridículo. Os enquadramentos teatrais e os diálogos autoexplicativos nos levam aos moldes de Unbreakable Kimmy Schmidt, por exemplo. As sátiras ácidas, ainda que não existem em um número satisfatório, indicam um potencial interessante que pode ser trabalhado em um futuro próximo, caso a série seja renovada, é claro; o afastamento de arcos românticos e padronizados é muito bem-vindo, além de respaldar a entrada de outras críticas profusas entre as iterações que tangenciam tópicos polêmicos como a representatividade midiática das minorias, a efemeridade da internet, o boom das subcelebridades, o feminismo, e muitos outros.

Enquanto os momentos de glória despontem com emoção – principalmente por parte da performance inigualável de Araújo e de suas expressões cativantes que permeiam cada um dos subnúcleos explorados -, os deslizes encontram um triste equilíbrio para também aparecerem: os primeiros capítulos não possuem um ritmo muito bem trabalhado, beirando a monotonia extrema e logo depois pulando para um frenético jogo de palavras e de câmera que por vezes contribui para a perdição do telespectador; alguns diálogos se tornam crus demais para um cosmos tão naturalista quanto este, transformando-se em desnecessários monólogos clichês.

De modo geral, Samantha! vale mais pelas atuações e pelas referências que a história em si. Claro, é interessante ver uma protagonista feminina em um tour-de-force atrás do estrelato perdido – e toda e qualquer tipo de representatividade é muito válida. Porém, a construção desses arcos é falha e se vale muito de conexões forçadas para funcionar totalmente. Não obstante, a presença de nomes como a própria Gretchen e Sabrina Sato, marcam uma atemporalidade interessante para nos mostrar o poder de diálogo entre as diversas décadas da Era de Ouro do entretenimento brasileiro – e abre espaço para os easter eggs que joga com graça, seja no próprio formato dos programas de auditório ou dos mascotes nem um pouco ortodoxos (Ary França faz um incrível trabalho ao dar vida à Cigarrinho que, como o próprio nome diz, é uma caixa de cigarros).

É interessante perceber que a comédia nacional finalmente decide seguir em um rumo diferente. Ainda que seja complicado desapegar de raízes tão fortificadas durante décadas e décadas de criações formulaicas, as composições de Braga são essenciais para mostrar que há muita coisa faltante a ser explorada nesse meio – e a série em questão é apenas um dos poucos produtos que podem ser oferecidos em meio a tanta mediocridade, mesmo que um pouco de polimento seja necessário.

Samantha! – 1ª Temporada(Idem, Brasil – 2018)

Criado por: Felipe Braga
Direção: Luis Pinheiro, Júlia Jordão 
Roteiro: Roberto Vitorino, Patricia Corso
Elenco: Emanuelle Araújo, Douglas Silva, Sabrina Nonata, Cauã Gonçalves, Daniel Furlan, Ary França, Rodrigo Pandolfo, Maurício Xavier, Lorena Comparato, Duda Gonçalves
Emissora: Netflix
Episódios: 07
Gênero: Comédia
Duração: 25 min. aprox.

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