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Aviso: contém spoilers

Rebels começou como uma série descompromissada de Star Wars – girando em torno de um pequeno grupo de rebeldes, o desenho apresentava um tom mais leve e sua trama parecia não ser de muito impacto para esse universo como um todo. Pouco sabíamos, no entanto, o quanto esse seriado iria expandir o novo cânone da franquia, chegando até a eclipsar a nova trilogia em termos de conteúdo – Guerras Mandalorianas, viagem no tempo, Tie Defender, Thrawn, são apenas alguns dos elementos que, introduzidos pela animação, fizeram dessa galáxia muito, muito distante, algo muito maior.

Claro que expandir esse universo não era o maior foco da obra, sua tarefa era aprofundar seus personagens, mostrar sua jornada ao longo desses quatro anos e como tudo se encaixa dentro do que já conhecemos de Star Wars. Com o passar do tempo, evidentemente, passamos a nos afeiçoar a esses excepcionais e inéditos personagens – Ezra, Kanan, Hera, Sabine, Zeb e Chopper, todos passaram a ocupar um lugar especial no coração dos fãs que acompanharam a série desde seus humildes primórdios e agora chegou a hora da despedida – ainda que essa possa ser momentânea (para alguns).

Sabendo disso, Dave Filoni não poupou esforços para tornar essa última temporada verdadeiramente memorável. Em uma manobra ousada, o seriado passou a apresentar, quase que exclusivamente, episódios duplos, do início ao fim, possibilitando que a ação pudesse ser desenvolvida de maneira apropriada, nos resgatando da costumeira correria presente nos capítulos da animação. Digno de nota, também, é a melhoria na animação em si, que não somente se torna mais fluida, como com gráficos aprimorados. Com isso, claro, a escala das histórias aumentou – ainda foca no pequeno grupo de rebeldes, mas suas missões envolvem o futuro da galáxia, como já é deixado bem claro na dupla de capítulos de abertura: Heroes of Mandalore, que sabiamente encerra o arco pessoal de Sabine, que vinha sendo construído desde as temporadas anteriores.

Pulamos, então, para Heroes of the Rebellion, que traz Saw Gerrera de volta, dessa vez mais próximo de como o encontramos em Rogue One e não por acaso: temos aqui uma espécie de prólogo para o primeiro filme spin-off da saga, evidenciando que Filoni, de fato, não teme se aproximar dos longas-metragens da franquia. Há, no entanto, um sentimento de conclusão em cada um desses episódios – como se todas as pontas estivessem sendo amarradas, possibilitando que mergulhemos de cabeça nos eventos que levariam ao finale. De fato, isso é o que acontece: nos despedimos de cada um dos personagens ou facções envolvidas para que em The Occupation voltemos a Lothal, onde o conflito final entre os rebeldes e Thrawn ocorreria.

Desse ponto até o fim de Rebel Assault a tarefa foi a de isolar o grupo principal da Aliança Rebelde como um todo, permitindo algo menos “grandioso” e mais intimista. Cria-se, assim, uma narrativa cíclica, que nos leva de volta às origens do seriado, onde encontramos o pequeno Ezra, agora mais maduro, sábio, um Jedi de fato. Voltamos, assim, à questão central que permeia essa última temporada: qual será o fim desses personagens? Afinal, se faz necessária uma explicação de por que nenhum Jedi apareceu ao lado de Luke na trilogia original.

Mesmo sabendo que seria praticamente inevitável, vêm, então, os épicos momentos finais de Kanan, ou Caleb Dume, que em um sacrifício final em Jedi Night, se torna um Cavaleiro Jedi – sem qualquer cerimônia como era na Velha República, mas sentimos isso acontecer. Sem muitos floreios na antecipação, Caleb recebe um digno fim e, como acontece desde Uma Nova Esperança, o espírito do mestre vive através do aprendiz e a dor da perda do mentor funciona como um dos passos finais da jornada do herói de Ezra, que, nos capítulos seguintes, aprende a viver sem Kanan, culminando em uma das mais difíceis decisões de sua vida, em A World Between Worlds, que, inesperadamente, introduz o conceito de viagem no tempo na série, ponto utilizado para desenvolver Bridger em um momento chave, que define seu caráter, algo que seria recobrado novamente no finale durante o conflito com o Imperador.

Aliás, a mera presença de Palpatine nesses episódios finais, mesmo que não de forma “física”, já deixa bem claro o quão importantes se tornaram esses personagens. Como não poderia deixar de ser, a participação especial de Ian McDiarmid é muito bem-vinda – tendo vivido Palpatine nas duas primeiras trilogias, seu retorno ao papel funciona como a cereja no topo do bolo, garantindo a o impacto da presença do Imperador no seriado. Filoni, contudo, jamais permite que esse vilão ocupe mais espaço do que deveria – o showrunner não perde de vista que o principal antagonista da temporada é Thrawn e guarda para ele o duelo final entre Império e Rebelião da série. Nesse quesito é mais do que justo que ele seja vencido graças à ajuda de criaturas as quais ele não compreende, como foi o caso no ano anterior, com Bendu. O Grão Almirante entende seus oponentes e a única maneira de derrotá-lo é fugindo da previsibilidade e ninguém melhor que Ezra para garantir isso.

Aliás, toda a trinca de episódios finais, ainda que traga resultados previsíveis, segue pelo inesperado no modo como chega até lá. Bom exemplo disso é a releitura da cena final de Vader em Rogue One, através de Ezra e os Lobos – vale observar como a trilha de Kevin Kiner rearranja a melodia de Michael Giacchino a fim de criar o paralelismo – dessa vez, porém, são os imperiais que se desesperam e não os rebeldes. Nesse ponto, apenas a montagem deixa a desejar, quebrando a ação dramática, impedindo que ela alcance sua plenitude. O mais imprevisível de todos, contudo, é o resultado final e a corajosa escolha de Filoni em deixar Ezra e Thrawn vivos, já abrindo espaço para uma nova série (animada ou não), que poderia focar na busca de Sabine e Ahsoka pelos dois.

O salto temporal para após os eventos do Episódio VI pega todos de surpresa e finaliza com chave de ouro essa jornada, funcionando, naturalmente, como um epílogo, que deixa bem claro o impacto das ações desse grupo de rebeldes até aqui. Além disso, abre espaço para que futuras obras explorem tais personagens em um novo período, fugindo do conflito entre Rebelião e Império. Não é de todo inimaginável, portanto, que Sabine ganhe seu merecido protagonismo em uma possível vindoura obra, já que ela foi uma das personagens mais bem construídas da animação.

Tais questões, contudo, serão respondidas pelo tempo, enquanto somos deixados com aquele gosto de “quero mais” na boca. Por ora, a saga de Ezra e desse grupo de rebeldes foi encerrada e, por mais que esperemos por mais, Dave Filoni finaliza essa história da maneira como gostaria: como nos velhos westerns, nos quais o protagonista caminhava em direção ao Sol no desfecho. Com isso, Rebels deixou de ser uma série descompromissada e se tornou um belo acréscimo ao universo de Star Wars, como já dito antes, expandindo consideravelmente esse universo, nos deixando com momentos inesquecíveis e personagens que jamais esqueceremos.

Star Wars Rebels – 4ª Temporada (idem – EUA, 2017/18)

Showrunner: Dave Filoni
Direção: Steward Lee, Saul Ruiz, Sergio Paez, Bosco Ng, Dave Filoni
Roteiro: Henry Gilroy, Steven Melching, Christopher Yost, Gary Whitta, Matt Michnovetz, Dave Filoni
Dubladores: Taylor Gray, Vanessa Marshall,  Freddie Prinze Jr., Tiya Sircar, Lars Mikkelsen, Cary-Hiroyuki Tagawa, Katee Sackhoff, Kevin McKidd, Steve Blum, Ian McDiarmid, Mary Elizabeth McGlynn
Episódios: 16
Duração: 22 min.

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