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A história da realeza britânica sempre foi alvo da dramatização, tanto televisiva quanto cinematográfica – quando falamos da indústria audiovisual, obviamente. Em O Discurso do Rei, filme ganhador do Oscar em 2011, fomos apresentados à história de vida do Rei George VI, cuja gagueira foi um dos fatores principais que o deixaram perturbados quanto ao exercimento de sua função, levando-o a contratar um terapeuta australiano para ajudá-lo. Em Downton Abbey, série ganhadora do Emmy, o foco é transferido para a fictícia família aristocrata de Yorkshire, perpassando por diversas épocas. Mas garanto que nenhuma produção equiparou-se à qualidade da produção mais cara do serviço de streaming Netflix, The Crown.

“Pesada sempre se encontra a frente coroada”, já dizia William Shakespeare em sua obra, Henrique IV – Parte II. E é justamente isso que o criador Peter Morgan faz ao relatar as duas primeiras décadas do reinado de uma das monarcas mais contraditórias da história da família real inglesa, Elizabeth II. Funcionando como um retrato detalhista da vida da rainha, a série se inicia com uma cena de densidade e construção impecáveis: o rei George II (aqui interpretado por Jared Harris) cuspindo sangue dentro de um vaso, à beira de deixar uma tuberculosa sem precedentes agravar as condições de sua saúde.

Os dez primeiros episódios de um total de seis temporadas – cujo elenco irá mudar para acompanhar o envelhecimento das personagens reais – foca sempre pressa em como a súbita morte do pai afetou drasticamente a vida da outrora conhecida como Princesa Elizabeth (vivida pela incrível Claire Foy). O foco aqui não é a história e o decoro de nomes de cidades, palácios, emendas constitucionais e leis jurídicas. O retrato intimista da família Windsor vem com o objetivo de humanizá-los e mostrar como até entre quatro paredes fortificadas de mármore as coisas não vão sempre como o esperado. Claro, muitos podem classificar os dilemas dos protagonistas como “problemas de primeiro mundo”, mas tal constatação seria errônea: a análise percorre os reais acontecimentos dentro do Palácio de Buckingham em correlação exata aos eventos da própria Inglaterra – nada mais que a apresentação de uma história biográfica qualquer.

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E por que a escolha de Elizabeth como protagonista? Bom, porque o seu reinado transpassou entre um dos momentos mais delicados e espinhosos da história britânica, com mudanças sociais e um progresso absurdo cujos alvos permaneceram sobre o casamento e o divórcio, dois assuntos considerados tabus e de importância inefável principalmente para a Igreja, cuja relação com o Estado já estava sofrendo com divergência de opiniões. E para nos aproximar dos reais participantes de tais acontecimentos, a montagem, cuja estilização foi feita principalmente por Stephen Daldry, um dos showrunners e produtor executivo de The Crown, optando por planos mais fechados e íntimos, aproximando o público das reais pessoas e nos fazendo nos apaixonar pelos arcos e pelas backstories de cada um.

Considerando a imponência das paisagens das ilhas do Reino Unido, obviamente os episódios não perderiam chance de divagar entre as tênues linhas da arquitetura gótica, que se estendem até as planícies litorâneas e misturam-se com um mar cinzento e pincelado por nuvens tão bem delineadas que chegam a ser artísticas. Mas diferentemente da representação publicitária de tais cenários, os diretores optam pela metáfora e pelo principal objetivo de transmitir ao público a pequenez de indivíduos idolatrados frente à majestosidade natural e artificial do progresso.

O ponto de maior sucesso aqui é o elenco, sem sombra de dúvida. Enquanto Foy porta-se como uma sósia da própria monarca, seu comportamento tanto na vida profissional quanto na pessoal a forçam a assumir uma vertente, colocando-a dentro de responsabilidades reais e que não deixam margem em nenhum momento para a fraqueza. Entretanto, através de seus olhos, é possível notarmos que ela não queria ser Rainha, e que as consequências dessa brusca mudança estão apenas começando. Matt Smith, interpretando Phillip, o Duque de Edimburgo e marido de Elizabeth, oscila de forma aplausível entre o par compreensível e o marinheiro sonhador, lutando para aceitar seu papel subserviente dentro de uma vida de subjugamento feminino e de uma sociedade machista. O ator recusa-se a mergulhar totalmente no âmbito antagonista, permitindo que seja amado e odiado com a mesma frequência. John Lithgow também se excede no papel de Winston Churchill, encarnando-se de forma tão exímia que podemos dizer que ele esteve presente dentro do Palácio e foi o jovem aprendiz do Primeiro-Ministro. Sua performance, talvez, seja a melhor da série ao roubar o conceito mecanizado atribuído à figura público e tornando-o apaixonadamente humano.

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Tudo isso é combinado com uma direção de arte impecável, que preza pela riqueza e pela ostentação e que sutilmente transforma uma paleta de cores duras por uma mais pastel, mostrando que Elizabeth gradativamente cedeu ao cargo de monarca absoluta e agora faz parte de uma geração inteira de reis e rainhas, os quais reafirmam um conceito milenar. Sua condição como Princesa brilha, enquanto seu “fardo” como Rainha chama tons mais azulados e arroxeados. A trilha sonora, composta por Hans Zimmer, casa perfeitamente com as escolhas estilísticas ao entrar com um papel catalisador – apesar de nos forçar a tomar certar posições em alguns momentos.

É interessante notar aqui que os dez episódios da primeira temporada foram assinador por Morgan, prevenindo assim quaisquer furos e garantindo uma fluidez maior de diálogos e viradas. Como o criador já estava acostumado à ambientação e aos acontecimentos da família real – presente em trabalhos anteriores como A Rainha The Audience -, as sequências mais densas foram atenuadas de forma a prender a atenção do público e garantir uma fidelidade para o próximo episódio. 

The Crown é uma relíquia a ser admirada – e mal posso esperar para os próximos acontecimentos do reinado de Elizabeth II

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