A fama do Homem-Morcego não surgiu por mero acaso. Nesses longos anos desde sua primeira aparição, o Batman ganhou histórias que podem ser consideradas verdadeiras preciosidades, ampliando a mitologia do personagem da DC Comics de maneiras inéditas, que, aos poucos, definiram sua própria essência. Passando pelas mãos dos mais variados autores, o super-herói conta com um leque invejável de arcos, one-shots e minisséries – a intenção dessa lista não é apenas a de elencar as melhores, como mostrar visões diferenciadas do personagem, revelando a profundidade que pode ser alcançada com esse herói, quando fugimos do óbvio.

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Corte das Corujas - Novos 52

10. A Corte das Corujas

Polêmicas à parte, a fase Novos 52 da DC Comics nos entregou um dos melhores arcos do Morcego, expandindo a mitologia do herói com um novo grupo de antagonistas. Manobra ousada, essa de Scott Snyder e Greg Capullo de iniciar tal fase sem utilizar um dos muitos famosos vilões de Batman, mas que, definitivamente, vingou, nos entregando uma história fascinante que explora as origens de Gotham.

Não há como não perceber o desconforto que tal história provoca em nós, enquanto vamos descobrindo mais e mais sobre esse grupo que controla a cidade, tudo enquanto o caráter de detetive do protagonista é trabalhado, fugindo, pois, da velha mesmice que assola os quadrinhos de herói, muitos focados unicamente na ação descerebrada.

Logo nesse arco inicial Snyder e Capullo deixaram sua marca na história do Batman e continuariam a nos surpreender com o restante de sua excelente fase nos Novos 52.

Batman: Terra Um, de Geoff Johns

9. Terra Um

Ano Um pode ser considerado como a história de origem definitiva do Batman, mas Terra Um, surpreendentemente, não fica muito atrás. No comando dessa ousada graphic novel temos Geoff Johns e Gary Frank, que devem, nessas cento e quarenta e duas páginas, contar o que, essencialmente, todos já sabemos, mas de forma, claro, que assegure a relevância da revista, que não faz parte da continuidade das publicações da DC Comics.

Logo nas primeiras páginas testemunhamos o realismo do texto de Johns, com um jovem Batman errando seu gancho e pulo enquanto persegue um bandido pelos telhados de Gotham – ele está longe de ser o implacável herói com o qual estamos acostumados – é alguém vestido de morcego, que erra e erra até, efetivamente, conseguir o que quer. Não vemos nele a típica aura de grandiosidade dos super-heróis e sim uma pessoa lutando para combater o crime na cidade.

Tal aspecto é aprofundado pela certeira arte de Gary Frank, que empresta toda a humanidade possível ao Morcego ao mostrar seus olhos, que transmitem todas as emoções do indivíduo por trás da máscara.

Não bastasse isso, os flashbacks que retratam Bruce ainda menino reimaginam a imagem de Alfred, o colocando não apenas como guardião e parceiro no combate ao crime, mas como mentor – tanto da filosofia que formaria o Batman, quanto em artes marciais, proposta, essa, que seria utilizada na série Gotham, anos mais tarde.

Dessa forma, o que ganhamos é mais uma essencial história de origem, que não é excludente em relação às outras, mas amplia o próprio conceito do Homem-Morcego, sob ponto de vista mais real e humano.

Batman: Guerra ao Crime

8. Guerra ao Crime

Qualquer um que passe o olhar brevemente por uma página de Guerra ao Crime muito provavelmente vai ter seu interesse captado. Esse one-shot foge totalmente do padrão clássico dos quadrinhos por três motivos essenciais: o primeiro é a arte hiper-realista de Alex Ross. O segundo é a diagramação sem quadros limitados, com muitas ações sendo estendidas por duas páginas, criando ações contínuas e dinâmicas, sem a necessidade de inúmeros painéis criando a sucessão narrativa. Já o terceiro é a ausência de balões – todos os diálogos são apresentados através do texto direto sobre a imagem, funcionando como pensamento do protagonista.

Tais características claramente garantem à graphic novel seu ar cinematográfico, com os pensamentos de Batman atuando como o clássico voice-over do Cinema Noir. Cada página é uma verdadeira obra de arte, podendo facilmente ser enquadradas e colocadas em paredes e o seu realismo perfeitamente dialoga com o tom intimista do texto de Paul Dini, que, por sua vez, explora as dúvidas e receios do Homem-Morcego.

Certamente uma história essencial para qualquer um que anseie por conhecer mais desse herói – um one-shot que mergulha não somente na mente do Morcego, como apresenta um retrato pé no chão de Gotham City.

Morte de Jason Todd

7. Morte em Família

Quem matou Jason Todd não foi o Coringa e sim os fãs. Em 1988, o editor da DC Comics, Dennis O’Neil, deixou nas mãos dos leitores o destino do segundo Robin – qualquer um poderia ligar para um de dois números de telefone, um deles para votos à favor da morte do personagem e o outro contra. Qualquer um já sabe o resultado da votação e a execução ficou nas mãos de Jim Starlin e Jim Amparo.

Morte em Família, tornou-se, desde então, um dos arcos mais importantes da história do Morcego, com a clássica imagem de Batman com Todd nos braços sendo uma das mais icônicas das revistas do herói, fruto da simplicidade do traço de Amparo, perfeitamente ciente do peso dramático do roteiro de Starlin, que dispensa o excesso de informação da arte, incitando o imaginário do leitor.

A inesperada escolha do roteirista (Starlin é mais conhecido por suas sagas cósmicas na Marvel e, claro, pela criação de Thanos) certamente foi a correta, ao passo que o autor soube empregar a violência na medida certa, entregando cenas chocantes, não por serem gráficas demais, mas pelo que representam. Temos aqui uma das mais tristes vitórias do Coringa e um dos maiores traumas de Wayne.

Batman Preto e Branco

6. Batman Preto e Branco

Chega quase a ser uma injustiça colocar Batman Preto e Branco nessa lista. A minissérie em quatro edições é, na realidade, uma coletânea de contos sobre o Homem-Morcego, contando com histórias de autores como Bruce Timm, Neil Gaiman, Archie Goodwin, Katsuhiro Otomo, Klaus Janson e muitos outros. São histórias curtas, dinâmicas, que lidam com diferentes aspectos do personagem, cada um com arte diferenciada, autoral e, claro, em preto-e-branco.

O projeto, idealizado por Mark Chiarello, foi inspirado na revista Creepy – Contos Clássicos de Terror e garante a liberdade criativa de cada autor, obedecendo apenas a característica central da arte, que dá o título da obra. O resultado são histórias diferenciadas, muitas das quais seguem por caminhos completamente inesperados – vide a divertida contribuição de Neil Gaiman, que coloca Batman e o Coringa como atores desempenhando papéis de herói e vilão.

Sem dúvidas uma minissérie imperdível, que nos permite testemunhar a visão de inúmeros ícones da indústria dos quadrinhos sobre um dos mais famosos super-heróis. Nas palavras do próprio Mark Chiarello, o que é realmente frustrante é imaginar como essa série poderia ter sido se alguns dos mestres do passado ainda estivessem vivos.

Batman: Asilo Arkham

5. Asilo Arkham – Uma Séria Casa em um Sério Mundo

Servindo como uma versão dark de Alice no País das Maravilhas, Asilo Arkham coloca Batman como equivalente à protagonista do romance de Lewis Carroll, seguindo o Coringa (que funciona como o coelho), a esse estranho mundo, seja ele uma terra fantástica ou o Arkham. Com painéis escuros e arte, de Dave McKean, que beira o surrealismo, a obra é um verdadeiro mergulho na insanidade, colocando o leitor dentro da mente do Morcego, enquanto essa é absorvido pela loucura ao seu redor.

Repleto de simbolismos, o roteiro de Grant Morrison, que, posteriormente, teria sua própria fase frente ao herói, desconstrói tanto alguns dos icônicos vilões das revistas do personagem, quanto o próprio protagonista em si, tudo enquanto descobrimos mais sobre a origem dessa emblemática instituição e seu fundador, Amadeus Arkham. Com profundo foco no psicológico dos personagens, a graphic novel gera fascínio e desconforto ao leitor, praticamente obrigando que retornemos a ela repetidas vezes.

Tida como peça essencial para construção da mitologia do Morcego, a obra ainda inspirou diversas outras produções, como os games Arkham Asylum e o primeiro The Evil Within, esse segundo chegando a herdar os traços de surrealismo dos quadrinhos originais. Dessa forma, de imediato, Morrison e McKean plantaram suas bandeiras na história das publicações do Batman.

Batman: O Longo Dia das Bruxas

4. O Longo Dia das Bruxas

Praticamente sequência de Ano Um, de Frank Miller, O Longo Dia das Bruxas mostra o vigilante mascarado em busca do assassino conhecido como Feriado, que mata suas vítimas em datas comemorativas à cada mês. Ao lado de Jim Gordon e Harvey Dent, Batman deve descobrir quem é esse criminoso antes que ele mate mais alguém.

Com roteiro de Jeph Loeb e arte de Tim Sale, a graphic novel representa muito bem a transição do herói entre combater criminosos comuns e verdadeiros super-vilões, além, é claro, de nos entregar a imperdível releitura da origem do Duas-Caras. É preciso notar como a utilização de icônicos antagonistas do personagem contrasta a luta contra o crime mais pé-no-chão e mais fantasiosa, repleta de tramas complicadas, seres que sofreram mutações e mais, algo que é muito bem explicitado pelo traço de Sale.

Essencial para qualquer fã do Morcego, O Longo Dia das Bruxas notadamente inspirou trechos de O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, especialmente na maneira como diferencia as ações da máfia com as do Coringa. Se isso já não é o suficiente para incentivar a leitura da obra, a atmosfera noir presente nas páginas talvez dê conta do recado, transformando essa em uma verdadeira história de investigação à moda antiga.

A Piada Mortal

3. A Piada Mortal

Chegamos no Top 3, formado por obras que, na realidade, poderiam ser dispostas em qualquer ordem. Não tomo para mim a pretensão de considerar uma melhor que a outra, principalmente porque cada uma delas funciona como um verdadeiro pilar da mitologia do Morcego. Dito isso, se Ano Um entregou a origem definitiva de Batman, então A Piada Mortal representa o mesmo para o seu nêmesis, o Coringa.

Alan Moore, junto de Brian Bolland, criam um verdadeiro estudo de personagens, trabalhando os impactos de experiências traumáticas na psiquê humana. O Coringa é firmado como a perfeita antítese de Batman – enquanto um se torna um herói após o trauma, outro assume o manto de vilão. Essa contraposição ainda é perfeitamente pluralizada através do trágico atentado contra Barbara Gordon, que é condenada a uma cadeira de rodas – nem ela, nem seu pai, Jim, torturado pouco após tal evento, assumem as posturas equivalentes às do Morcego e do Palhaço, mostrando a profundidade do texto em relação à sua temática central.

Não bastasse toda a discussão levantada até então, Moore nos entrega um dos mais emblemáticos desfechos de histórias em quadrinhos, que até hoje gera interpretações diversas acerca do destino dos dois personagens. Ousado e inesquecível, A Piada Mortal é uma peça indispensável de qualquer coleção de um fã de quadrinhos, definitivamente atuando como um dos pilares das histórias modernas do Batman.

Batman: Ano Um

2. Ano Um

Chegamos, enfim, à já mencionada origem definitiva do Morcego, que redefiniu sua história de tal forma a inspirar dezenas de outras obras produzidas desde então. Ano Um lida não apenas com os primórdios de Batman, como com suas próprias motivações, o que transformou Bruce Wayne no Homem-Morcego. Apostando no claro intimismo, especialmente nos trechos que retratam o “despertar” de Wayne, Frank Miller nos faz enxergar e acreditar no protagonista, o vendo como peça essencial para a sobrevivência de Gotham como sociedade.

Não menos importante, temos, também, a origem de James Gordon, recém chegado na cidade, após anos fora. Dessa forma, passamos a ver não apenas o Morcego como resposta à criminalidade, como o próprio Jim, que deve lidar com o sistema por dentro, combatendo a corrupção na polícia. Dessa forma é construída a relação entre esses dois personagens, que veem um no outro pessoas em quem podem confiar, fazendo com que o leitor entenda, portanto, toda a confiança que depositam um no outro nos anos de histórias do herói.

Não precisa pensar muito, portanto, para ver que Ano Um não é meramente uma história de origem, como a ideal para esse icônico personagem da DC Comics, além de funcionar como perfeita porta de entrada para novos leitores. A já muitas vezes retratada história de Bruce Wayne ganha sua versão definitiva, que jamais poderá ser substituída.

O Cavaleiro das Trevas

1. O Cavaleiro das Trevas

Tempos após deixar o manto do Batman de lado, Bruce Wayne, já aos cinquenta e cinco anos de idade, decide colocar a máscara novamente, incentivado pela onda de crimes que tomara conta da cidade. Com tal premissa, Frank Miller dá início à obra que se tornaria uma das melhores histórias do herói da DC Comics. Em essência, O Cavaleiro das Trevas é um visceral estudo sobre a jornada do Morcego, passando pela luta ao crime mais “normal”, passando pelos super-vilões, culminando na luta contra o Estado em si, novidade da revista, que coloca Superman como o representante do governo americano.

Trata-se do amadurecimento de Wayne como herói, enquanto seus olhos são abertos para a verdadeira causa do problema que há tanto combate em Gotham – sua melancolia inicial, fruto da irrelevância de suas ações ao longo dos anos, serve como fator motivador de seu retorno, mas, também, explicita o que, nós, leitores, já testemunhávamos: o aumento da escala da criminalidade como resposta à presença dos super-heróis. Miller discute, pois, o impacto da figura do herói na sociedade, em tons sombrios, inspirando futuras obras como a trilogia de Nolan e Batman vs Superman.

Não por acaso o icônico embate entre Superman e Batman funciona como clímax da obra, resumindo toda a diferença ideológica entre os dois indivíduos da maneira mais explosiva possível – é o conflito entre o american way of life e o avassalador realismo que quebrara o sonho americano, problematizando a própria essência do governo que deveria entregar a vida perfeita.

Que melhor herói que o Batman para tecer tais críticas à sociedade? Com isso, O Cavaleiro das Trevas pode e deve ser enxergado não só como essencial para leitores de quadrinhos, mas indispensável para qualquer pessoa, ao passo que demonstra ser uma obra atemporal e profundamente relevante.

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