Cinema

A Noiva! é Frankenstein feito com as piores partes da Hollywood atual

O gênero de terror virou o “mil e uma utilidades” da indústria cinematográfica. De forma geral, filmes de terror são mais baratos que a média, permitem experimentação e a estreia de novos cineastas e comportam toda sorte de reflexões alegóricas sobre a sociedade. A Noiva!, no entanto, segundo longa-metragem inteiramente dirigido pela (ótima) atriz Maggie […]

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
10 min de leitura
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O gênero de terror virou o “mil e uma utilidades” da indústria cinematográfica. De forma geral, filmes de terror são mais baratos que a média, permitem experimentação e a estreia de novos cineastas e comportam toda sorte de reflexões alegóricas sobre a sociedade. A Noiva!, no entanto, segundo longa-metragem inteiramente dirigido pela (ótima) atriz Maggie Gyllenhaal, não sofre da austeridade de recursos, sendo uma produção de quase 100 milhões de dólares.

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A fartura de dinheiro com a qual Gyllenhaal trabalha aqui (diferente de seu longa de estreia, A Filha Perdida, um drama um pouco mais modesto), entretanto, não impede que a diretora padeça do problema habitual dos novos diretores: enxergar tudo de uma perspectiva “fechada”, “intimista”, o que desperdiça boa parte daquilo que é gasto em cenários suntuosos e complicadas composições visuais. São filmes muito caros enquadrados como se fossem filmes baratos, evidenciando que pouco se beneficiam de orçamentos astronômicos e poderiam – para a saúde financeira do negócio como um todo – ser realizados com menos dinheiro (se 90% dos planos serão rostos dos atores, qual a finalidade de tantos fundos elaborados?).

Nada disso é evidentemente um problema para a diretora e roteirista, que pode usar sua aparentemente poderosa rede de contatos e lotar o filme de atores e atrizes de primeiríssimo time (incluindo seu irmão Jake). Isso sem contar alguns coadjuvantes valorosos, como a menos conhecida mas excepcional Jeannie Berlin, a Cyd (“The Peach”) do seriado Succession, aqui num papel ligeiro que não lhe dá espaço suficiente para mostrar a excelência de sua interpretação.

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Estamos então diante de uma produção cara para o gênero, contando com o que a indústria tem de melhor a oferecer, especialmente no elenco. Ocorre que um filme não é uma soma aritmética de suas partes. E quando tais partes representam, de fato, cacoetes e manias de uma indústria com neuroses coletivas internas, o resultado dificilmente é satisfatório. E em A Noiva! ele é altamente insatisfatório. O filme tem tantos problemas que é difícil saber por onde começar. Então, vamos começar pela trama.

A noiva propriamente dita (Jessi Buckley, que na verdade interpreta três papéis ao longo do filme) morre logo no início para ser reanimada por uma cientista, Dr. Euphronious (Annette Bening), a pedido de Frank (Christian Bale), o “monstro” da história original, um fugitivo em busca de companhia. Mas a noiva (Ida) tem uma vida pregressa que coloca a polícia no encalço do casal, comandada pelos detetives interpretados por Peter Sarsgaard e Penélope Cruz. O enredo é entremeado pelo espírito da autora Mary Shelley (também Buckley), que interfere como uma consciência paralela da noiva, enquanto esta e o “monstro” fogem de gângsteres de Chicago, numa espécie de road movie pela América dos anos 1930.

Desde a primeira cena, a intenção da diretora fica clara: ela está fazendo um comentário social sobre o papel da mulher numa sociedade dominada por machismo, criminalidade e poderes paralelos que manipulam a justiça. Não há absolutamente nada de novo nisso, assim como não há grande revelação em fazer referências à Ida Lupino (a lendária cineasta e atriz), dividindo o nome dela entre dois personagens. É apenas um jogo bobo de falsa erudição que não confere ao material maior consistência. Lupino se notabilizou por seus filmes de caráter pioneiro e social (como O Mundo É Culpado, de 1950) e sobrevivem até hoje não por isso, mas por suas qualidades cinematográficas tradicionais: exatamente o que falta para A Noiva!.

Alguns dos maiores problemas de Hollywood como fábrica de filmes na atualidade estão presentes aqui. O mais gritante deles é essa tendência a uma excessiva “caracterização” e “ambientação”, dois elementos que sempre diferenciaram o cinema norte-americano de todos os outros pela excelência mas que, hoje, funcionam regularmente como uma distração luxuosa para o material original inconsistente. Nesse aspecto, o filme se aproxima de Pecadores (com o qual ele compartilha a experiência IMAX), outro exemplo de avalanche de “estímulo audiovisual” concentrado (“muito som, muita luz, muita trilha, muito movimento!”), fazendo da experiência de assistir a ambos os filmes como ouvir uma banda com muitos instrumentos e que não para de tocar e toca muito alto, de modo que poucos se questionam se ela realmente está fazendo boa música.

Raras cenas de A Noiva! se sustentam sem algum “truque”, algum artifício (seja na edição, na iluminação, em algum efeito visual de pós-produção), o que acaba funcionando como uma embalagem dispendiosa para pouca coisa a ser dita (como também acontece em Pecadores). O comentário social de Gyllenhaal dissipa-se em lugares-comuns, cenas previsíveis e muita verborragia politicamente correta que beira o constrangimento. O conflito essencial da história de Shelley (“O que faz de alguém um ser humano?”) nem de longe parece ser uma preocupação do roteiro, que acaba facilmente reduzido a uma trama policial banal e repetitiva com “dupla de detetives” e “mafiosos brutais”. Ida, a “noiva” que deveria ser a heroína “empoderada” do enredo, passa boa parte do tempo agindo como uma criança birrenta, correndo, gritando e fazendo provocações banais. É irônico como ela é repetidamente salva pelo namorado morto-vivo, e quando tenta salvá-lo em retribuição, parece falhar miseravelmente. O roteiro está tão ocupado em oferecer um discurso pronto que mal se dá conta dessa inconsistência dramatúrgica que prejudica a própria mensagem que o filme supostamente gostaria de passar.

Outra fixação algo adolescente da indústria e que se faz presente é a atração por fluidos corporais, sangue e repugnância morfológica. Nesse sentido, A Noiva! é um resultado direto da reciclagem de alta rotação no cinema atual (filmes muito novos virando referência para novos filmes): estamos diante de uma produção que faz referência desavergonhada a sucessos bem recentes – Pobres Criaturas (de onde A Noiva! tira a jornada de descoberta – sensorial, sexual, emocional – da protagonista, além de seu visual de conto de fadas pervertido) e A Substância (o “Cidadão Kane” de uma geração de cinéfilos muito ocupada com fascínio neurótico e rejeição pela própria aparência). Um material que possivelmente renderia mais nas mãos de um Tim Burton, por exemplo, mas para seguir seu caminho Gyllenhaal teria que apostar em tudo aquilo que ela ignora aqui: abandonar o proselitismo, encontrar o tom do lirismo mórbido e acarinhar os coadjuvantes.

Uma crítica ligeira a A Noiva! pode parecer também uma crítica extensiva a qualquer cinema que faça um comentário social, mas isso não é verdadeiro. Existe uma expressiva quantidade de bons exemplos de filmes fazendo o mesmo “comentário social” de A Noiva! sem apelar ao discurso esquemático de rede social. Hollywood já foi capaz de oferecer esse tipo de cinema que, no entanto, tinha um percurso estético acima do político, e por isso suas mensagens tornaram-se duradouras na forma de filmes porque estes eram realmente bons. 

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Há alguns títulos que poderiam servir na comparação com A Noiva! porque trazem as mesmas preocupações, contudo, não limitadas pelo discurso fácil e panfletário que atrapalha a abordagem de Gyllenhaal. O principal deles é certamente Chinatown, o clássico noir de 1976 sobre desencanto e abuso sexual escrito por Robert Towne. Mais recentemente, Los Angeles – Cidade Proibida (1997) e Dália Negra (2006) mergulham na mesma temática, na época próxima e com preocupações similares: em todos estes está presente uma observação social rigorosa a respeito da violência contra a mulher e da manipulação de poderosos contra a justiça, o que permite e prolonga o hábito perverso de assédio, abuso e desigualdade. Nos três exemplos, não há “pregação para convertidos”, mas sim boa dramaturgia, o material que realmente desperta em novos espectadores uma consciência que não existia antes, longe do jargão robótico das polêmicas de rede social (e do qual A Noiva! reproduz na forma de diálogos e cenas sem muito refinamento, como no episódio ridículo da sala de cinema).

Há também um exemplo muito elegante da relação profissional desigual entre dois policiais (um homem e uma mulher) em O Silêncio dos Inocentes. No filme de Jonathan Demme, assim como aqui, estão presentes a rivalidade latente, a tensão sexual e a problemática da mulher inserida numa hierarquia que é estruturalmente pensada de um ponto de vista masculino. Mas a diferença de tratamento que cada filme dá ao material é brutal. Aqui, tudo é falado, discutido e falado novamente. Não há espaço para ambiguidade ou respiro.

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É como se o espectador fosse naturalmente incapaz de perceber o conflito e suas nuances: tudo tem de ser mastigado e cuspido da tela para que não exista a mais vaga dúvida da mensagem (o que se configura, ademais, como uma visão bastante autoritária do cinema e da arte, essa imposição de “significado inevitável”). No clássico de Demme, a abordagem é oposta: predomina a sutileza e o conflito acontece mais no silêncio que nas palavras.

Clarice Starling (Jodie Foster) percorre uma jornada da perspectiva feminina diante de personas masculinas (o pai, o professor, o pretendente) na qual os conflitos entre os papéis sexuais e como a sociedade enxerga cada um deles são desenvolvidos artisticamente, com dimensionalidade e espaço para a interpretação criativa da audiência. Diferente de A Noiva!, onde a direção parece tão preocupada que sua mensagem não seja entendida que não dá qualquer espaço para o espectador respirar e pensar por conta própria. O resultado é o cansaço após quase duas horas de projeção.

Um dos cacoetes da atual geração de cineastas é achar que está sempre “inventando” heroicamente um tipo de cinema socialmente engajado que na verdade tem quase a mesma idade do cinema em si. Certos tópicos que interessam à diretora foram muitas vezes antes explorados e com resultados cinematográficos (e, por que não dizer, sociais) mais interessantes, em títulos como O Preço de um Prazer (1963), Klute – O Passado Condena (1971), Uma Mulher Sob Influência (1974), À Procura de Mr. Goodbar (1977), Norma Rae (1979), entre tantos outros longas-metragens.

E como esquecer as personagens Peggy Olson (Elizabeth Moss) e Joan Holloway (Christina Hendricks) da exuberante série Mad Men, em seu retrato realista e ao mesmo tempo poético da jornada profissional feminina na América dos anos 1960, repleta de desafios, superação, mas também abuso e exploração oculta?

Alguns dos defeitos de A Noiva! seriam eventualmente perdoados em um filme de baixo orçamento – a violência ávida e ultrajante, por exemplo. Outros não se perdoam porque são problemas próprios a uma produção grande: o desperdício do elenco recheado de nomes conhecidos em papéis corriqueiros apenas para encorpar a produção. Buckley é a atriz espetacular que todo mundo já conhece, embora aqui pareça saltitar nervosamente entre cenas que mal se conectam e que pouca identificação são capazes de provocar (um pouco o problema de Emma Stone em Pobres Criaturas, mas a ideia de ritmo cinematográfico de Lanthimos é superior e por isso a protagonista funciona um pouco mais lá que aqui). Mas Bale, Jake e mesmo Benning poderiam fatalmente ser substituídos sem muito prejuízo porque o roteiro lhes dá pouca oportunidade de brilhar.

Maggie Gyllenhaal tinha a pretensão de dirigir um clássico, se considerarmos o material escolhido, o tamanho da produção e o time reunido no elenco. Mas acabou dirigindo um filme que está para a arte do cinema assim como a petição online está para a literatura. O amor ao cinema deve se sobrepor à fidelidade por pautas sempre que alguém está preocupado em simplesmente fazer um bom filme e não em recolher assinaturas para uma causa – seja ela qual for.

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Tags: #A Noiva
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