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A Sony sabe que o PS6 de US$ 1.000 vai vender menos – e não se importa

Analista da Niko Partners explica que a Sony sabe que um PS6 de US$ 1.000 vai vender menos, mas está apostando em jogadores hardcore que gastam mais.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
5 min de leitura

Uma decisão calculada, não um erro de cálculo

Como já detalhamos ao longo desta semana em nossa cobertura sobre o fim da produção de discos físicos da Sony, a reação inicial de boa parte da comunidade de jogadores foi de indignação. Mas segundo Daniel Ahmad, diretor de pesquisa da Niko Partners e uma das vozes mais respeitadas em análise de mercado de games, a Sony sabe exatamente o que está fazendo, e sabe que o PS6 vai vender significativamente menos do que gerações anteriores no lançamento. E não está preocupada com isso.

Em uma extensa thread no X, Ahmad detalhou o raciocínio estratégico por trás de uma decisão que, segundo ele, “era inevitável em algum momento para os consoles. Se não fosse com o PS6, seria com o PS7.”

O fim de uma era de consoles de US$ 200

O argumento central de Ahmad é que a era do console de massa a preço acessível simplesmente acabou. “A Sony sabe que o PS6 vai entrar num mercado onde os consoles vão custar mais de US$ 1.000, e o jogador médio vai pensar duas vezes antes de fazer upgrade no dia do lançamento”, escreveu. “Parte disso é sobre corte de custos, mas também é uma constatação de que os consoles não vão mais ser dispositivos de mercado de massa a US$ 199, e vão precisar focar em jogadores hardcore, dispostos a gastar mais do que nunca.”

Na prática, isso reposiciona o PS6 numa categoria mais próxima do que o PS5 Pro já representa hoje: um produto voltado a entusiastas, não uma pegada de geração inteira capaz de substituir rapidamente a base instalada anterior.

Os números que sustentam a virada digital

Ahmad apresentou dados concretos para contextualizar a decisão. As vendas digitais de jogos completos no PlayStation saltaram de menos de 10% antes do lançamento do PS5 para aproximadamente 80% atualmente. No Xbox, esse número chega a 90%. Cerca de metade da base de usuários do PS5 já é assinante do PS Plus, com bibliotecas digitais robustas construídas ao longo dos anos. Jogos como Fortnite, GTA V, Minecraft, Call of Duty, Apex Legends e Battlefield 6, entre os mais jogados no PS5 em maio, metade deles nem sequer é vendida em disco.

“A verdade é que o ecossistema de consoles está praticamente todo digital neste ponto”, resumiu Ahmad, acrescentando que a Sony hoje já fatura mais com conteúdo digital adicional, como microtransações, do que com a venda de jogos completos, físicos e digitais combinados.

A comparação com a Apple e o motivo por trás dela

Ahmad comparou a decisão da Sony à remoção do leitor de CD dos laptops da Apple a partir de 2008. “Definitivamente houve muitas reclamações na época, mas ninguém reclama disso hoje. Você também não encontraria muita gente reclamando no início dos anos 2010”, escreveu. A comparação gerou debate acalorado nas respostas, com alguns usuários apontando uma diferença crucial: era possível fazer backup de arquivos de laptop e comprar software de fontes variadas, algo que não existe da mesma forma com discos de jogos e seus direitos de revenda.

O verdadeiro motivo: fechar o mercado de usados

O ponto mais contundente da análise de Ahmad é sobre o que a Sony ganha ao eliminar o disco físico além da redução de custo de fabricação. “A Sony está essencialmente encerrando o mercado de jogos usados para o software do PS6, e garantindo que todo software vendido tenha alta margem”, explicou. “Em outras palavras, a Sony controla a licença por inteiro, e o acesso depende exclusivamente dela.”

Segundo o analista, essa é apenas uma faceta de uma estratégia mais ampla de criar um “ecossistema fechado com margens altas”. O recuo da Sony do desenvolvimento para PC, que já cobrimos anteriormente, e a própria exploração de formatos alternativos de hardware fazem parte da mesma lógica. “Agora você pode revender, presentear ou até reembolsar jogos físicos. Com jogos digitais, você não tem os mesmos direitos atualmente”, apontou.

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A frase que resume tudo

Ahmad recorreu a uma paráfrase da polêmica declaração do ex-executivo da Xbox Don Mattrick, que em 2013 sugeriu que quem não tivesse acesso à internet deveria simplesmente manter o Xbox 360. Segundo o analista, a mensagem implícita da Sony agora é: “Já temos um aparelho que roda discos, e ele se chama PS5.”

A lógica, segundo Ahmad, é que a Sony tem muito menos a perder ao alienar usuários mais casuais e sensíveis a preço, que dependem do mercado de usados ou preferem mídia física, incluindo jogadores em mercados emergentes com conexões de internet instáveis, justamente porque esses jogadores provavelmente não seriam os primeiros a comprar um console de US$ 1.000 de qualquer forma.

A crítica que Ahmad também fez

Apesar de defender a lógica de negócio por trás da decisão, Ahmad não poupou críticas à forma como a Sony comunicou a mudança. Segundo ele, “se tivessem falado sobre um programa de conversão de disco para digital, ou confirmado um leitor de disco opcional para o PS6, a reação negativa não teria sido tão forte.”

Ele apontou que a Xbox já está testando internamente seu próprio sistema de digitalização de coleções físicas, como já detalhamos em cobertura anterior, e sugeriu que a Sony poderia ter mantido suporte a jogos físicos por mais alguns anos através de um modelo de tiragem limitada ou preço premium para a versão em disco.

Ahmad também reconheceu que jogos físicos usados ajudam a tornar os games mais acessíveis financeiramente, um ponto que ecoa diretamente as preocupações levantadas pela petição “Don’t Kill the Disc”, que já ultrapassou 165 mil assinaturas, como cobrimos anteriormente. Ainda assim, sua conclusão final foi direta: a reversão da decisão é “improvável”. A conversa que realmente importa, segundo ele, não é mais sobre trazer de volta o disco físico, mas sobre “direitos do consumidor e o que uma licença digital deveria garantir”.

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