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Análise | The Last of Us: Parte II – Um estudo sobre o ódio e a vingança

Contém spoilers

Na ausência de grandes eventos cinematográficos nesse atual período de pandemia, que acabou fechando salas de cinema e adiando inúmeros lançamentos de Hollywood, não seria exagero algum dizer que The Last of Us: Parte II é o grande evento da cultura pop de 2020 – pelo menos até agora, se o mundo encontrar alguma salvação. Isso falando como um espectador de cinema, já que os gamers provavelmente contavam os dias no calendário para que a Naughty Dog enfim lançasse a continuação de um de seus melhores (se não o melhor) título, que conquistou corações em 2013.

E o caminho para este jogo definitivamente não foi fácil. Em produção durante todo esse intervalo de 7 anos, a obra de Neil Druckmann se viu vítima de um vazamento súbito que entregou diversos spoilers e pontos importantes da história, iniciando uma ira raivosa dos fãs do primeiro game, que viram decisões polêmicas e controversas sem o contexto geral da trama, que teria cerca de 20 horas para justificar seus rumos de história pouco convencionais. É uma missão que, na maior parte, acaba bem-sucedida com fôlego.

A trama de The Last of Us: Parte II começa 4 anos após os eventos do anterior, nos apresentando a uma sociedade bem mais desenvolvida e organizada em Jackson, onde Ellie (Ashley Johnson) parece mais atormentada e retraída desde a última vez que a vimos. Quando seu amigo e mentor Joel (Troy Baker) é morto em um ataque brutal de uma estranha misteriosa conhecida como Abby (Laura Bailey), Ellie embarca em uma jornada de vingança para encontrar a agressora, levando-a para um caminho na Seattle devastada – onde perigos como infectados, milícias e até cultos religiosos a esperam.

A Vingança nunca é plena…

Em uma lógica de continuações, a Naughty Dog acerta em trazer um evento tão chocante e traumático como ponto de partida. A morte de Joel nas primeiras horas de game é uma decisão audaciosa, e que naturalmente iria irritar a grande parcela de fãs do primeiro jogo, mas é uma escolha que torna a própria existência de um segundo The Last of Us justificável; especialmente quando aprendemos sobre a motivação por trás da morte de Joel, amarrada diretamente com a decisão complexa do personagem no final do anterior. 

É uma clássica história de vingança, e o game acerta nessa porção. Temos uma Ellie mais durona e menos carismática do que a do anterior, com Ashley Johnson fornecendo uma performance estelar ao traduzir como a violência e o caminho cada vez mais próximo do fundo do poço vão se demarcando em sua pele – através de cicatrizes, machucados e até mesmo sinais de transtorno pós-traumático (afinal, Joel foi morto em sua frente). A dinâmica é suavizada, e aproximada do primeiro, com a presença de Dina (Shannon Woodward), namorada de Ellie que é mais energética e sarcástica (às vezes até demais) assim como a própria Ellie era aos 14 anos.

A relação de Ellie e Dina é bem construída na medida do possível, ainda que bem menos empática e original do que o crescimento entre Joel e a jovem no primeiro game. Apesar das boas performances, a maioria dos diálogos envolvendo Dina parecem apelar demais para um drama romântico adolescente remanescente das séries da CW. A busca por tornar Dina carismática demais, imprevisível demais e energética demais acabaram resultando em uma personagem um tanto genérica – assim como a grande maioria dos novos personagens coadjuvantes do núcleo de Ellie.

… Mata a alma e envenena 

Mas é mesmo na metade do jogo que The Last of Us: Parte II toma sua decisão mais arriscada. Após diversas horas concentrado na caçada de Ellie em busca de Abby, o game coloca o jogador para acompanhar a perspectiva da “antagonista” por uma longa porção do gameplay. É uma reviravolta sensacional e empolgante do ponto de vista narrativo, já que mostra a intenção de Druckmann em fazer algo além de uma simples e direta história de vingança, já que a questão da perspectiva e a repetição de ciclos de violência se torna o grande tema do jogo: como não se tornar seus próprios demônios?

No papel, essa subversão e guinada na narrativa é absolutamente brilhante, e coloca um desafio gigantesco nas mãos da equipe, que seria o de tentar humanizar e justificar a ação mais cruel que os fãs da franquia poderiam imaginar. E quando passamos a conhecer Abby, vivida de forma destemida e cheia de nuances por Laura Biney, temos sim uma personagem interessante e com conflitos internos que renderiam ótimas explorações. O fato de ela surgir como, literalmente, a grande consequência das ações conflituosas de Joel no final do anterior já torna esta continuação válida, e a recriação do clímax do primeiro game sob seus olhos representa um dos grandes pontos altos da obra.

A partir daí, Druckmann e sua equipe tentam realizar o caminho oposto ao de Ellie: enquanto a protagonista vai se afundando cada vez mais nas trevas para conquistar sua vingança, acompanhamos a jornada de Abby que literalmente acaba de atingir o ponto sombrio que Ellie persegue, e assim a história se esforça para criar um caminho de saída das trevas e “redenção”. Ironicamente, esse caminho é praticamente uma versão reduzida do arco de Joel no primeiro game, já que envolve a empatia de Abby por uma criança perdida e que claramente precisa de orientação – no caso do segundo game, é o complexo personagem de Lev (Ian Alexander, da série The OA).

O esqueleto da proposta é perfeito, e oferece uma reinterpretação excepcional não só da história de The Last of Us: Parte II, mas de toda a franquia no geral. Infelizmente, a substância que preenche toda essa linha fica longe de oferecer todo o material que tornaria a proposta um tiro certeiro. As motivações de Abby (seja em relação ao amor perdido de Owen ou a afeição com Lev e sua irmã, Yara) são desenvolvidas abruptamente e sem muito peso. O primeiro game teve toda a campanha para aproximar Joel e Ellie, e aqui precisamos simplesmente aceitar essa relação mais profunda entre Abby e Lev com apenas algumas horas e textos que deixam a desejar – Lev, inclusive, é o único personagem do game inteiro que parece ter uma personalidade distinta entre os coadjuvantes, que em sua maioria são intercambiáveis e falam da mesma forma.

Quando a história retoma para o ponto em que havíamos deixado Ellie, temos uma situação atípica: lutamos contra a protagonista do game, e a Naughty Dog literalmente deixa no ar o desfecho, já que aparentemente o jogador iria ter que matar uma das protagonistas. Não é bem o que acontece, e o game tem um longo epílogo para amarrar as pontas e solidificar ainda mais sua temática.

Criando a experiência perfeita

No que diz respeito à evolução de mecânicas e gráficos, The Last of Us: Parte II é um claro aprimoramento em relação ao anterior. Isso já esperado, afinal o primeiro é um game da geração passada, lançado exclusivo em PlayStation 3, e o novo já chega para marcar o fim da era de consoles no Playstation 4. Todas as cenas em cinemáticos, que contam com uma tecnologia de captura de performance, são excelentes e até assustadoras de tão realistas, transmitindo cada nuance e detalhe nas emoções de seus personagens. A exceção fica com uma cena de sexo bizarra e abrupta, revelando uma das barreiras que a tecnologia ainda precisa aperfeiçoar.

Com o controle em mãos, temos uma experiência muito parecida com o primeiro jogo. Há uma mistura de survival horror com ação e aventura em terceira pessoa, incorporando táticas de Stealth e também Shooter. A mecânica de ambos os estilos de jogo está infinitamente superior, com todas as armas e objetos apresentando efeitos distintos e que variam de personagem (Abby, dado seu treinamento militar, é muito melhor em tiroteios e lutas corporais), e o stealth alcançando níveis de pura tensão graças à habilidade de se rastejar pelo solo, algo útil contra os novos e mais intrigantes inimigos do jogo: o culto fanático dos Seraphites, cuja comunicação via assobios certamente vai perturbar os jogadores.

E, claro, sendo um jogo que teoricamente se aplica ao gênero de zumbis, a Naughty Dog não deixou nossos queridos infectados de escanteio. O segundo jogo traz de volta todas as classes de inimigos carnívoros do anterior, e aqui até mesmo o mais difícil e assustador do primeiro se torna um oponente fácil perto das novas adições. Além de novos infectados capazes de se mover rapidamente com habilidades stealth, há um chefe de fase tenebroso, tanto pelo visual que parece saído de um delírio de H.P. Lovecraft com H.R. Giger, quanto pela dificuldade extrema da fase em questão. Pesadelos garantidos.

Meu Ódio será sua Herança

The Last of Us: Parte II é uma continuação digna para o sucesso da Naughty Dog. Não é um jogo de escolhas fáceis, tampouco oferece a história que os fãs provavelmente queriam ou sonhavam, mas traz ideias e temas que justificam uma experiência mais sombria e complexa. A história tem seus deslizes, mas a temática bem resolvida e o gameplay excepcional ajudam a tornar a experiência bem-vinda. Sombria e pesada, mas catártica após uma jornada difícil e impressionante.

Pontos positivos: História surpreendente e sem medo, temática bem resolvida e ousada nas decisões narrativas, performances excelentes de quase todo o elenco, level design de tirar o fôlego, trilha sonora equilibrada no terror e melancolia, excelente mecânica de Stealth e Shooter, qualidade gráfica assustadora de tão realista

Pontos negativos: Arcos genéricos para personagens coadjuvantes, diálogos pouco inspirados nos arcos românticos, motivações fracas para determinadas missões, bugs ocasionais, combates repetitivos, 

The Last of Us: Parte II (EUA – 2020)

Desenvolvedora: Naughty Dog
Estúdio: Sony
Gênero: Survivor Horror/Aventura/Drama
Plataformas: PS4

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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