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O advento dos desenvolvedores indies, intrinsecamente ligado ao surgimento e expansão das plataformas digitais de distribuição permitiu uma fuga do óbvio quando se trata de games. Não apenas acompanhamos – nesses últimos dez anos aproximadamente – o desenvolvimento de uma variada gama de jogos em diferentes estilos, indo dos mais artísticos ao retrô, como enxergamos a possibilidade da manutenção de franquias, gêneros e subgêneros menos aclamados (seja pelo público ou crítica). É justamente esse cenário que possibilita a criação de obras como Trials Rising.

Estamos falando de uma franquia já de longa data, naturalmente, mas sua própria jogabilidade remete mais aos tempos do arcade do que o que geralmente pensamos quando o assunto são desenvolvedores de games AAA. Desenvolvido pela Ubisoft Kiev, juntamente da RedLynx, o game mantém vivo o específico formato de jogos de corrida/ plataforma, estabelecendo o foco na tentativa e erro, aliada de um bom humor enquanto percorremos pistas  e mais pistas em uma moto, fazendo o máximo para que nosso personagem não se acidente de formas igualmente brutais e hilárias.

A ideia do game, obviamente, não é de hoje. Qualquer um que tenha crescido com games irá reconhecer o conceito por já ter se deparado com clássicos como Excitebike ou muitos outros. A questão é, como já falado, ainda há espaço para tais games hoje em dia? Trials Rising prova que sim, ao menos tenta fazê-lo, infelizmente se autoprejudicando ao inserir elementos que justamente refletem a realidade de muitos jogos da atualidade, como microtransações, DLCs em cima de DLCs, dentre outros elementos sobre os quais falarei em breve.

Mas antes disso vamos ao básico do game. Já mencionei o objetivo central: atravessar as pistas, em um cenário em 2.5D, evitando ao máximo que o motociclista que controlamos sofra um acidente – o que pode ir desde a simples capotagem até uma grande explosão. Evidente que  percorremos os diversos cenários em ordem crescente de dificuldade, com obstáculos que cada vez mais testam nossas habilidades. Em essência trata-se de um game fácil de aprender, mas extremamente difícil de pegar todas as manhas, sendo necessário para isso dedicar algumas boas horas no jogo.

Não diferente de muitos outros games plataforma – vide os excelentes Rayman Legends e Origins, também da Ubisoft – a obra classifica nosso desempenho em cada fase em Bronze, Prata ou Ouro, basicamente nos forçando a repetir cada uma delas até conseguir aquele resultado perfeito. Tais resultados, aliás, garantem mais pontos de experiência que, por sua vez, nos fazem passar de nível e, com isso, desbloquear novas fases e conseguir loot boxes (sobre as quais falaremos em breve) com itens cosméticos, tanto para nosso personagem, quanto para a moto em si.

Toda essa tentativa e erro consegue manter nosso interesse graças a específicos fatores que garantem a identidade de Trials Rising dentro desse subgênero. O primeiro deles é justamente a variedade dos acidentes nos quais podemos nos meter. A física do nosso personagem se arrebentando todo ao cair da moto é simplesmente hilária e garante boas risadas do início ao fim do jogo – mesmo quando já estamos nos descabelando ao tentar passar daquela fase impossível. Por falar em física, toda a movimentação da moto é uma maravilha por si só, certamente o ápice da franquia, um trabalho cuidadoso que, mesmo em meio à frustradas tentativas, nos faz entender o porquê de determinada queda, ou sucesso em certa manobra arriscada. Aliás, realizar algumas peripécias aéreas nunca foi tão recompensador quanto aqui.

Por fim, o terceiro elemento que certamente não deve ser menosprezado é o design das fases, não apenas pelo encadeamento de obstáculos, de desafios, como por todo o plano de fundo enquanto percorremos os circuitos. São diversos elementos em tela, que não nos distraem do que realmente importa, mas embelezam todo o jogo. Com isso, nossa atenção permanece ainda mais presa ao game, que não é apenas divertido pelas suas mecânicas, como belo pela sua apresentação.

Essa beleza, no entanto, é parcialmente eclipsada por certas escolhas tomadas pelos desenvolvedores, que não estragam a experiência, mas definitivamente tiram boa parte de seu brilho. Para começar temos as citadas e famigeradas loot boxes. Estamos falando de itens cosméticos, mas dentro de um jogo como esse simplesmente não há qualquer motivo para sua existência, além da óbvia tentativa de arrancar mais dinheiro do jogador, claro. Não há microtransações de itens diretos, apenas a compra de uma moeda premium. Não bastasse isso, ainda há uma série de DLCs pagas, que facilmente poderiam ter sido incluídas através de atualizações gratuitas, ou  até mesmo dentro de pacotes maiores que efetivamente poderiam acrescentar mais ao game do que apenas um item ou outro. Vale lembrar que estamos falando de um jogo de R$79,00 e não um free to play mobile. O preço é justo pelo que é oferecido, mas não deveria nos obrigar a gastar ainda mais para ter uma experiência mais completa.

Outro ponto certamente falho na estratégia dos desenvolvedores é a obrigatoriedade de passarmos de nível para desbloquear novas fases. Nas primeiras horas de jogatina isso não afeta nossa experiência de forma alguma, mas conforme subimos mais e mais de nível, passamos a notar a necessidade do grinding para desbloquearmos novos conteúdos, o que chega a ser surreal em um game desse estilo, visto que a mera presença de pontos de experiência é inteiramente dispensável: nem tudo precisa ter elementos de RPG. O mero progresso nas fases e conseguir pontuações melhores em cada uma delas já seria o suficiente para garantir aquela sensação de que estamos efetivamente progredindo em Trials Rising.

Existem maneiras de suavizar essa necessidade de repetir as mesmas fases repetidas vezes. Uma delas é a inclusão de elementos multiplayer. O competitivo, infelizmente, não difere muito do singleplayer, visto que jogamos contra um “fantasma” do outro jogador, mas já é um adianto especialmente para os jogadores mais competitivos. Há também a possibilidade de criar novas fases, o que garante algumas boas horas de diversão, ainda que a ausência de tutoriais nesse fragmento da obra possa ser frustrante para alguns. Novos conteúdos sendo adicionados regularmente pela Ubisoft também ajudam bastante (esses sim de graça) – de um tempo para frente o game certamente será melhor do que nesse presente momento.

Dessa forma, Trials Rising consegue capturar a essência de games retrô, atualizando o conceito em mecânicas divertidas, bem humoradas, que garantem algumas boas horas de diversão. Infelizmente, algumas escolhas dos desenvolvedores impedem que o game alcance todo o seu potencial, pontos esses que não podemos simplesmente relevar, pois afetam toda a experiência de forma bastante negativa. Dentre as microtransações, DLCs, grinding, a obra perde parte de seu brilho – chega a divertir, mas sem nos fascinar.

Agradecemos à Ubisoft pela cópia gentilmente cedida para a realização dessa análise.

Trials Rising (2019)

Desenvolvedora: Ubisoft Kiev, RedLynx
Estúdio: Ubisoft
Gênero: Corrida, plataforma
Plataformas: Xbox One, PC, PS4, Nintendo Switch

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